Japão: exposição em Londres mostra como NIGO redefiniu moda, música e cultura hype
A exposição «NIGO: From Japan With Love» reúne mais de 700 peças do arquivo pessoal do criador, traçando o percurso do fã de cultura americana adolescente ao designer global e diretor artístico da Kenzo.
Para muitas pessoas, o nome de NIGO pode não soar imediatamente familiar. Mas a sua influência está por todo o lado.
Nascido Tomoaki Nagao, o designer, DJ, produtor e empresário japonês, de 55 anos, é mais conhecido por ser o fundador do gigante do streetwear A Bathing Ape (BAPE), colaborador de longa data de Pharrell Williams e Virgil Abloh, e atual diretor artístico da Kenzo.
Muito antes de a moda se deixar fascinar por colaborações cruzadas, lançamentos limitados que geram entusiasmo e diretores criativos que circulam entre a música, o design e o luxo, NIGO já o fazia.
Agora, o Design Museum de Londres dedica a sua primeira grande retrospetiva a este criador influente. NIGO: From Japan with Love reúne mais de 700 objetos da sua carreira, incluindo peças de vestuário, objetos de coleção, mobiliário, memorabilia musical e peças do seu arquivo pessoal.
A exposição acompanha o percurso desde a adolescência, quando era obcecado pela cultura americana e pela coleção de discos, até se tornar numa das figuras culturais mais influentes das últimas três décadas.
A Euronews Culture falou com a curadora da exposição, Esme Hawes, sobre o legado de NIGO, o desafio de traduzir o seu vasto universo criativo para uma exposição e porque é que a sua coleção pessoal pode ser a chave para compreender tudo o que fez.
Euronews Culture: Qual foi a inspiração inicial para montar esta exposição e porque é que agora pareceu o momento certo?
Esme Hawes: NIGO é um nome muito conhecido na Ásia, mas na Europa e no mundo ocidental não é tão famoso – embora as pessoas reconheçam imediatamente as suas marcas. Podem é não fazer a ligação entre elas e a pessoa que está por detrás.
Queríamos muito explorar, no museu, qual é o papel de um diretor criativo, que é aquilo por que NIGO é mais conhecido. É menos um estilista tradicional, no sentido clássico, e mais um diretor criativo e construtor de marcas. Para nós, enquanto museu de design, isso é particularmente interessante, porque é uma visão muito contemporânea do que é ser designer hoje. Interessa-nos menos quem é brilhante a desenhar um croquis e mais quem consegue reunir colaboradores e, a partir daí, construir universos – e isso é algo que NIGO faz incrivelmente bem.
Também queríamos sublinhar que NIGO é um grande colecionador, e tem sido assim ao longo de toda a vida – penso que desde criança. Conserva praticamente toda essa coleção e usa-a quase como uma caixa de ferramentas, procurando nela inspiração e recorrendo a esses objetos em todos os seus projetos, mesmo agora, já na casa dos 50.
Quão envolvido esteve NIGO na exposição?
NIGO esteve profundamente envolvido desde o início, o que para nós é extraordinário. É uma grande honra, porque NIGO é um colaborador excecional – vê-se isso em todas as marcas e projetos em que trabalhou. É muito raro trabalhar sozinho; integra muitos tipos diferentes de criadores e designers no seu processo.
Teve um papel central na seleção dos objetos em exibição. A maioria vem da sua própria coleção – cerca de 90%. Estive pessoalmente em Tóquio, onde o encontrei, falei com ele sobre a coleção, o que é importante para si, quais as peças preferidas – tudo para construir a narrativa da exposição. Também esteve muito envolvido no desenho da própria exposição, trabalhando com os nossos designers de exposições, tanto arquitetos como designers gráficos.
Alguma coisa a surpreendeu em NIGO quando o conheceu?
É um homem incrivelmente humilde para alguém com uma carreira tão impressionante e que trabalhou com os melhores dos melhores. Essa humildade surpreendeu-me, mas penso que é uma forma muito saudável de trabalhar.
Uma das grandes qualidades de NIGO é estar sempre disposto a aprender – e acho que é por isso que tem sido tão bem-sucedido. Essa capacidade de se ver quase como um estudante e sentir que há sempre muito para aprender e para melhorar é uma abordagem muito positiva.
A exposição está dividida em quatro secções. Pode guiar-nos por elas?
Sim, são quatro secções, em grande medida cronológicas. Começamos com uma recriação do quarto de adolescente de NIGO. Ele guardou tudo desde cerca dos seis anos, o que é impressionante.
A partir daí, passamos a olhar para NIGO enquanto colecionador, porque, como dizia, a coleção é uma parte essencial da sua prática. Quando começamos a estudar essa coleção e já conhecemos bem a carreira, é possível traçar paralelos muito interessantes entre aquilo que coleciona, o que observa e o que depois acaba por criar.
Trabalhámos com a USM, uma empresa de mobiliário modular – NIGO usa de facto o mobiliário da marca para apresentar a coleção no estúdio que tem em Tóquio. Construímos quase uma recriação da forma como guarda a coleção, usando mobiliário USM.
A terceira secção é, no fundo, sobre o “efeito NIGO” – uma alusão ao chamado “efeito Kate Middleton”. Quando Kate Middleton veste um vestido, esgota-se em todo o lado. A ideia de que, quando alguém se associa a uma marca, o seu nome e legado a tornam popular e desejável. NIGO não é apenas um colaborador de excelência para as suas próprias marcas; é hoje muito procurado por praticamente todos – Uniqlo, Adidas, Nike – grandes marcas que querem colaborar com ele.
A última secção mostra aquilo que hoje mais o interessa. NIGO está sempre à procura de novas formas de aprender e de alargar conhecimentos e entrou numa fase em que se fascina com a cultura e as práticas tradicionais japonesas. Está atualmente a formar-se como mestre de cerimónia do chá e cria também belos recipientes de cerâmica, que utiliza nessas cerimónias.
Quais foram as primeiras inspirações de NIGO?
Desde cerca dos seis anos, ficou completamente fascinado com o universo americano – tudo o que vinha dos Estados Unidos. Colecionava revistas americanas, brinquedos da Disney como o Donald Duck, coisas desse género. Isso acompanha o que se passava no Japão onde cresceu – um forte fluxo de influência americana resultante da guerra, algumas décadas antes. A cultura americana é uma parte enorme da sua coleção.
A moda também o interessava muito, por causa do interesse nas subculturas japonesas. Cresceu nos arredores de Tóquio, em Miyabashi, mas ia frequentemente à capital para visitar lojas de roupa em segunda mão e lojas de discos, andar de skate e simplesmente conviver com amigos. Começou a colecionar muito cedo e esteve sempre rodeado de cultura pop e subcultura desde a adolescência.
Há objetos de destaque que os visitantes devam procurar?
Logo numa das primeiras secções, há um casaco Levi’s que foi uma das primeiras peças de roupa vintage que NIGO comprou – penso que ainda era adolescente. Está completamente gasto e muito usado. Para ele foi uma peça entusiasmante, porque marcou a entrada no universo da roupa vintage.
Há uma história curiosa: ele mentiu à mãe sobre o preço, porque sabia que ela ficaria absolutamente chocada se descobrisse quanto tinha gasto naquele casaco de ganga rasgado.
Outra peça de que gosto muito é da fase inicial da Bape. É um boletim de encomenda da altura em que tinha acabado de criar a Bape e estava a pedir a produção de casacos e t-shirts – as primeiras peças que a Bathing Ape alguma vez vendeu. Na folha de encomenda vê-se que só está a pedir cinco unidades de cada produto, uma quantidade baixíssima.
Ele próprio contou que isso se devia à necessidade financeira do momento, mas acabou também por limitar o número de produtos e criar expectativa.
Quão importante é a música na exposição?
Muito. Como provavelmente sabe, NIGO é DJ, baterista, produtor – fez de tudo no mundo da música, lançou álbuns próprios e teve as suas editoras.
Queríamos que isso fosse uma parte central da mostra, e o próprio NIGO insistiu para que a música tivesse um papel de destaque.
Temos, por isso, uma estação de escuta com listas de reprodução selecionadas pelo próprio NIGO – música de artistas que produziu, ou bandas em que tocou, como os Teriyaki Boys, bem como de colaboradores seus.
Qual considera ser a maior influência de NIGO na moda?
A colaboração é fundamental – e a forma como olha para o design e a criatividade como um espectro amplo, em vez de encaixar as pessoas em nichos, sejam eles a moda ou a música.
Algo que NIGO faz muito bem é reunir criadores de várias disciplinas e desenvolver projetos que atravessam a moda, a arte, a música, o design – o que for. Isso é raro e muito particular da sua forma de trabalhar.
Nos desfiles de moda da Kenzo, por exemplo, escreve ele próprio a música ou convida um colaborador ou amigo para o fazer. Todo o espaço é desenhado por alguém com quem trabalha – um arquiteto ou designer. E, claro, ocupa-se da roupa. É uma produção total, em que cada pequeno elemento é pensado.
É uma visão abrangente e holística da criatividade e do design.
NIGO: From Japan with Love decorre até 4 de outubro de 2026 no Design Museum de Londres.