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Soldado ucraniano perante edifício destruído em Mariupol
Soldado ucraniano perante edifício destruído em Mariupol   -   Direitos de autor  AP Photo/Mstyslav Chernov   -  

Bombas continuam a matar civis na Ucrânia apesar de Moscovo admitir acordo estar perto

Três semanas após o início da invasão russa na Ucrânia, na madrugada de 24 de fevereiro, os bombardeamentos das forças militares afetas ao Kremlin mantêm-se intensas sobre zonas residenciais de diversas cidades ucranianas.

Em Chernihiv, perto da fronteira com a Bielorrússia, as autoridades ucranianas anunciaram a morte de 10 civis, esta quarta-feira de manhã, numa fila para comprar pão.

Mais a sul, a tentativa para cercar a capital ucraniana prossegue, mas ainda longe do objetivo.Esta quarta-feira, Kiev voltou a ser atingida em zonas residenciais afastadas do centro.

Sem conseguirem entrar na capital, o recurso a artilharia pesada mantém-se como a principal forma das forças invasoras tentarem desgastar a resistência ucraniana.

Um prédio habitacional de 12 andares foi um dos alvos atingidos pelas forças fiéis a Vladimir Putin, esta quarta-feira. As autoridades locais não revelaram qual.quer balanço de vítimas, mas a agência France Press, com um enviado especial no terreno, avançou a morte de pelo menos quatro pessoas em Kiev.

A capital ucraniana encontra-se sob recolher obrigatório desde as 19 horas de terça-feira e as 07 horas da manhã de quinta-feira.

Ofensiva chega a Odessa

No sudoeste da Ucrânia, começaram os bombardeamentos sobre Odessa a partir de navios de guerra russos, estacionados no Mar Negro.

As forças ucranianas alegam que os invasores estarão a tentar destruir os sistemas de defesa antiáerea desta cidade costeira, património mundial da UNESCO.

Tudo isto numa altura em que as negociações de paz prosseguem entre as partes. Kiev já se distancia do sonho de aderir à NATO e Moscovo até admite haver uma base de acordo para um estatuto de neutralidade militar da Ucrânia.

Esta é a opção realmente em discussão neste momento e pode ser entendida de facto como um compromisso. <br><br>A situação da Ucrânia pode ser melhorada através de acordos, possíveis nas negociações entre as delegações russa e ucraniana.
Dmitry Peskov
Porta-voz do Presidente Vladimir Putin

Em declarações uma vez mais controversas perante os relatos oriundos do terreno, Vladimir Putin disse também esta quarta-feira que "a operação militar na Ucrânia está a ser um sucesso".

O presidente russo acusou a Ucrânia de ter conduzido um ataque com mísseis que terá matado 20 pessoas no centro de Donetsk, a principal cidade de uma das regiões separatistas no país vizinho, e voltou a comparar as forças ucranianas aos nazis, responsabilizando-as de estarem a fazer tudo para provocar o maior numero de vítimas antes de perderem a guerra.

"A mobilização de tropas russas para as proximidades de Kiev e de outras cidades não está relacionada com a intenção de ocupar a Ucrânia. Não temos esse objetivo", reiterou Vladimir Putin citado pela agência estatal russa TASS.

Putin sem opções

O líder do Kremlin referiu ainda que o problema identificado na Ucrânia, que se depreende ser a aceitação da independência das regiões de Donetsk e Luhansk, esgotou as possibilidades de resolução pela diplomacia e que isso deixou a Rússia sem alternativa.

"Nós, simplesmente, não tivemos nenhuma outra opção para resolver pacificamente os problemas que sugiram sem culpa nossa. Fomos forçados a lançar uma operação militar especial", reafirmou Putin, na abertura de uma reunião de apoio social e económico na Federação Russa.

Estas declarações do Presidente russo acontecem numa altura em que os bombardeamentos sobre zonas residenciais civis se intensificam por toda a Ucrânia, incluindo em regiões já próximas da fronteira com a Polónia e atingindo sobretudo Kiev e as cidades russófonas de Kharkiv, no nordeste, e Mariupol, no sudeste da Ucrânia, nas quais centenas de milhares de pessoas se encontram barricadas e com escassos meios de subsistência.

Do lado do Kremlin, foram entretanto reveladas imagens do que dizem ser armas ocidentais cedidas à Ucrânia, incluindo mísseis antitanques Javelins de fabrico norte-americano, e que terão sido abandonadas na região do Donbass e perto de Kiev.

A Rússia anunciou ainda esta semana sanções a 13 personalidades dos Estados Unidos e do Canadá, incluindo o Presidente Joe Biden e o primeiro-ministro Justin Trudeau.

A Casa Branca reagiu com ironia ao anúncio. A porta-voz Jen Psaki realçou o facto de o no nome do líder norte-americano não estar inscrito "júnior", o que, no entender da Casa Branca, significa que o Kremlin terá proibido a entrada na Rússia ao pai do atual Presidente dos Estados Unidos.

"Nenhum de nós está a planear viagens turísticas à Rússia nem temos contas bancárias às quais nos retirem o acesso, por isso vamos continuar o nosso trabalho", afirmou Psaki.

O balanço de vítimas

As Nações Unidas (ONU) atualizaram, por fim, alguns dos números desta guerra provocada pela Rússia na Ucrânia e confirma a morte de pelo menos 726 pessoas, incluindo 104 mulheres e 52 crianças, nos primeiros 20 dias de ofensiva.

O Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos admite porém que os números reais de vítimas da invasão da Ucrânia ordenada por Vladimir Putin podem ser muito superiores, nomeadamente nas zonas de Izium, Volnovakha e Mariupol, que ainda não puderam ser verificadas pelo organismo liderado por Michelle Bachelet.

AP Photo/Evgeniy Maloletka
Bombardeamento de edifício residencial em MariupolAP Photo/Evgeniy Maloletka

A UNICEF estima que a cada segundo, desde que as forças fiéis ao Kremlin invadiram a Ucrânia, há uma criança ucraniana a tornar-se refugiada e a agravar a crise humanitária provocada pela ofensiva russa.

O secretário-geral da ONU alerta que, "para os predadores e traficantes de pessoas, a guerra na Ucrânia não é uma tragédia", mas "uma oportunidade". "Mulheres e crianças são os alvos e precisam urgentemente de segurança e apoio a cada passo do seu caminho", expressou o português António Guterres.

O Programa da ONU para o Desenvolvimento (UNDP, na sigla original) estima que, no caso de a guerra se prolongar, "18 anos de conquistas socioeconómicas podem perder-se" na Ucrânia.

"Um terço da população vive abaixo do limiar da pobreza e outros 62% correm grande risco de cair na pobreza nos próximos 12 meses", lê-se numa estimativa preliminar da UNDP.

Outras fontes • AFP, AP, Tass