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"As salas de cinema precisam de evoluir"

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"As salas de cinema precisam de evoluir"
Direitos de autor  euronews   -   Credit: Dubai
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Quando, na década de 1980 e das cassetes VHS, Mitch Lowe assumiu a presidência da Video Droid, uma cadeia de lojas de aluguer de vídeos nos Estados Unidos da América, o mundo ainda estava longe de imaginar poder vir a estrear um filme na própria sala. Mas isso não impediu o empresário de, anos mais tarde, desbravar caminho nesse sentido e integrar a equipa fundadora da Netflix. Tentou reproduzir o modelo com salas de cinema e já não teve sucesso.

A Euronews encontrou o empreendedor no Dubai, onde esteve a participar como jurado num concurso para novos empresários, para uma conversa sobre o futuro da indústria dos vídeos de entretenimento.

Ninguém sabia que Netflix se ia tornar num verbo
Mitch Lowe
Fundador da Netflix

Jane Witherspoon, Euronews: Como tem visto a indústria do aluguer de vídeos, em particular, evoluir ao longo das décadas?

Mitch Lowe: Mesmo remontando aos primeiros tempos do cinema, tudo começou com uma espécie de modelo a la carte, onde as pessoas tinham de tomar uma decisão sobre se valia a pena ir ao cinema ou alugar uma cassete ou um DVD. E evoluiu para uma assinatura, que trouxe muitas coisas boas. Tirou-nos de cima a difícil tarefa de decidir se "vale o meu tempo e dinheiro" para agora podermos explorar e ver conteúdos.

J.W.: Foi um dos fundadores executivos da Netflix. Como é fazer parte dessa história?

M.L.: Não fazíamos ideia de que íamos ser um nome lá de casa. Ninguém sabia que Netflix se ia tornar num verbo. E lembro-me que costumávamos fazer apostas sobre o tamanho que podíamos atingir. Eu disse que se conseguíssemos obter apenas 1,7 milhões de subscritores, isso seria espantoso. E hoje é 100 vezes isso. Mais de 180 milhões.

J.W.: Qual foi o impacto de empresas como a Apple, de outros sites de streaming e da Starz Play, que temos aqui no Médio Oriente, da Disney. Como foi haver essa concorrência e como é que acha que a Netflix lidou com ela?

M.L.: Nunca olhámos para a concorrência. Nunca, exceto uma única vez, em que avaliámos o concorrente. E isso foi, de facto, no Reino Unido. A Netflix abriu no Reino Unido e depois ouvimos dizer que a Amazon estava a entrar. Era o único concorrente que nos aterrorizava naquela altura. E assim encerrámos toda a operação.

J.W.: Passou da Netflix para a Movie Pass. Fale-me dessa mudança; estava no auge, tinha milhões de assinantes e creio que se tratava de um serviço de assinatura, mas mais para cinemas.

M.L.: Sim.

J.W.: Mas depois algo correu mal e caiu para cerca de trezentos mil assinantes?

M.L.: Pensei que podíamos fazer o mesmo nos cinemas que fizemos na Netflix, que era tirar as barreiras da experimentação e da descoberta. E crescemos demasiado depressa. Em oito meses, tivemos 3,3 milhões de clientes e foi simplesmente demasiado. Por isso, implodimos após nove meses. Os nossos investidores disseram que não queriam mais. O que devia ter feito era um crescimento controlado.

A nossa capacidade de atenção está a ficar cada vez mais curta. Não queremos entrar numa sala, sentarmo-nos durante duas horas no escuro e ver um filme. Por que não termos um dia em que podemos em que se pode ver todos os episódios "Stranger Things" durante seis horas?
Mitch Lowe
Fundador da Netflix

J.W.: Outro grande desafio que temos à nossa frente é a covid, que está a ter um enorme impacto, especialmente nas salas de cinema. Como avalia o impacto no setor?

M.L.: Esperemos que não seja impacto a longo prazo, ou um impacto permanente. Espero que as salas de cinema voltem e compreendam que precisam de evoluir. A Movie Pass foi uma tentativa de tentar abanar o cinema para que compreendesse que os consumidores precisam mais do que os filmes. A nossa capacidade de atenção está a ficar cada vez mais curta. Não queremos entrar numa sala, sentarmo-nos durante duas horas no escuro e ver um filme. Por que não termos um dia em que podemos ver todos os episódios "Stranger Things" durante seis horas?

J.W.: Mas será que financeiramente e economicamente conseguem sobreviver? O romantismo de ir ao cinema é ótimo, mas como é que se vão manter financeiramente à tona?

M.L.: Penso que têm de ser inovadores no conteúdo e penso que tudo se resume a reconhecer que as pessoas querem sair e interagir socialmente em grandes grupos. Assumindo que existe uma vacina. Mas as pessoas não querem ver apenas filmes de duas horas. Porque não ter eventos desportivos? Por que não ter eventos de jogos?

J.W.: Que importância julga ter a indústria aqui no Médio Oriente e nos Emirados Árabes Unidos, em particular no Dubai, dentro do panorama global? Qual é a importância do setor aqui?

M.L.: Uma das melhores coisas que vejo com os sites de streaming como o da Netflix é o cruzamento de conteúdos. E penso que com todos os jovens e todos os criadores de conteúdos criativos do Médio Oriente existe a capacidade de fazer crescer uma grande indústria de programas de televisão e filmes realmente interessantes que podem ser populares em qualquer lugar. E por isso, na realidade, trata-se de permitir à comunidade criativa criar conteúdo e distribuí-lo.

Reed Hastings (CEO da Netflix) foi uma vez questionado sobre a concorrência e disse: "o meu maior concorrente é o sono". Se as pessoas não tivessem de dormir, poderiam consumir mais séries da Netflix. E eu acho que ele tem razão.
Mitch Lowe
Fundador da Netflix

J.W.: Está aqui no Dubai para algo muito emocionante. O que é o "pitch nos céus" e como se envolveu na iniciativa?

M.L.: É um acontecimento que bate recordes. Há empresários de todo o Médio Oriente e África que apresentaram a sua proposta para o capital de arranque. E, como jurado, - éramos quatro jurados - reduzimo-las a um grupo de 10. E depois pedimos a cada um deles que fizesse uma chamada Zoom.

J.W.: A saltar de um avião.

M.L.: E depois reduzimos esse grupo a três e trouxemos esses três para dentro de um avião connosco para fazerem a última apresentação. Eles fazem realmente a última apresentação do projeto durante 60 segundos no ar. O vencedor acaba a saltar para fora do avião.

J.W.: Que conselho dá a esses empresários, em termos do que é realmente preciso para se ter sucesso?

M.L.: É preciso todas aquelas coisas que ouvimos a toda a hora: perseverança, estar rodeado de boas pessoas, ter grande integridade. É preciso manter o ímpeto, estar sempre a melhorar, trazendo connosco os investidores e a equipa. Passo a passo. E não ir nem muito depressa, nem muito devagar.

J.W.: Voltando ao setor do entretenimento. A questão do milhão de euros: o que pensa que o futuro nos reserva?

M.L.: A covid tem definitivamente aumentado o consumo de entretenimento por parte das pessoas. E acredito que tenha ajudado as pessoas a viver este momento muito difícil. Penso que o futuro será realmente saudável. Não sei quanto a si, mas já tive momentos em que começava a ver uma série às 22h, a pensar que acabaria à meia-noite e, cinco horas depois, apercebia-me de que havia uma outra temporada. Acho que a certa altura chegamos a um ponto de rutura. Reed Hastings (CEO da Netflix) foi uma vez questionado sobre a concorrência e disse: "o meu maior concorrente é o sono". Se as pessoas não tivessem de dormir, poderiam consumir mais séries da Netflix. E eu acho que ele tem razão.