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Eleitores suíços devem rejeitar proposta de neutralidade mais rígida na Constituição

Bandeira suíça a hastear-se na traseira de um barco, 11 de outubro de 2019
Bandeira suíça a esvoaçar na traseira de um barco, 11 de outubro de 2019 Direitos de autor  CC BY-SA 4.0/Eddie Basler
Direitos de autor CC BY-SA 4.0/Eddie Basler
De Gavin Blackburn
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A Suíça tem uma tradição de neutralidade militar, mas a guerra da Rússia na Ucrânia reabriu o debate sobre o seu afastamento de conflitos externos.

A Suíça vota no domingo uma proposta muito contestada para reforçar a tradicional neutralidade do país, numa altura em que há receios de que um eventual “não” possa ser interpretado como o abandono total desse princípio.

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Os suíços defendem amplamente a sua neutralidade, mas uma iniciativa para inscrever uma definição rigorosa na Constituição do país alpino expôs profundas divergências sobre o que essa neutralidade implica.

No decorrer do debate aceso, pareceu estar em causa a própria identidade suíça.

Se as primeiras sondagens de opinião indicavam uma votação renhida, os dois últimos inquéritos publicados na semana passada sugerem que uma maioria clara de eleitores, bem acima dos 60%, tenciona seguir a recomendação do governo e chumbar a iniciativa.

A posição tradicional da Suíça é a de neutralidade militar armada, mas a guerra da Rússia na Ucrânia reabriu questões sobre o seu afastamento de conflitos externos.

Incomodada com a decisão de Berna de apoiar a pressão económica da União Europeia, a organização soberanista Pro Switzerland reuniu assinaturas suficientes para desencadear uma votação popular, ao abrigo do sistema de democracia direta do país, com o objetivo de inscrever de forma mais sólida a neutralidade na Constituição.

População faz fila na Câmara Municipal de Zurique para votar num referendo, 28 de novembro de 2021
População faz fila na Câmara Municipal de Zurique para votar num referendo, 28 de novembro de 2021 AP Photo

“Perdemos o rumo”

“Perdemos o rumo nos últimos anos ao assumir posições muito firmes contra a Rússia, enquanto, pelo contrário, adotámos posições extremamente fracas em relação a Israel”, afirmou o antigo diplomata suíço Jean-Daniel Ruch à agência de notícias AFP, num evento de apoio à iniciativa.

“Esta é uma oportunidade para recuperar a credibilidade da nossa neutralidade.”

Moscovo, que criticou duramente a Suíça por se associar às sanções da UE e acusou Berna de ter abandonado a sua neutralidade, saudou a iniciativa, apelidada de “pró-russa” por alguns opositores.

O presidente russo, Vladimir Putin, “ficaria radiante" se a iniciativa fosse aprovada, avisou o deputado socialista Samuel Bendahan durante um debate recente.

A proposta exige que a Constituição garanta que a neutralidade suíça seja “armada e perpétua”.

Equipas de resgate nas janelas de um edifício de escritórios danificado por um ataque de drone russo em Kiev, 23 de setembro de 2026
Equipas de resgate nas janelas de um edifício de escritórios danificado por um ataque de drone russo em Kiev, 23 de setembro de 2026 AP Photo

O novo texto impediria a Suíça, cuja neutralidade remonta a 1516 e é reconhecida internacionalmente desde 1815, de estreitar laços com a NATO e excluiria qualquer aliança militar, salvo se o país fosse atacado.

E proibiria a imposição de sanções, exceto quando estas fossem decididas pelas Nações Unidas.

Todos os intervenientes no debate garantem querer manter a neutralidade da Suíça.

Mas governo e parlamento rejeitam a proposta, alegando que é demasiado dogmática e reduziria a margem de manobra do país numa altura de fortes tensões geopolíticas.

“Grau de flexibilidade”

“A neutralidade sempre foi aplicada com um certo grau de flexibilidade”, insistiu o ministro dos Negócios Estrangeiros suíço, Ignazio Cassis, durante um recente debate televisivo.

Apesar de a Suíça não ter intenção de levantar a proibição de vender armas a países em conflito, sublinhou que “neutralidade não significa indiferença”.

O país, afirmou, “não vai desviar o olhar" perante "violações das próprias regras internacionais que permitem viver em paz”, acrescentou.

Quase todos os principais partidos políticos também se opõem à iniciativa.

A única exceção é o populista Partido do Povo Suíço (SVP), ligado de perto à iniciativa desde o início.

Mas surgiram apoiantes de diversas sensibilidades políticas.

Um soldado posa com um drone durante um evento de imprensa do Exército suíço em Elm, 18 de maio de 2026
Um soldado posa com um drone durante um evento de imprensa do Exército suíço em Elm, 18 de maio de 2026 AP Photo

Samuel Sommaruga, médico que afirma não ter filiação política mas é filho de um destacado senador socialista e neto de um antigo presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha, é um dos principais defensores.

Disse à AFP recear que a Suíça “soçobre” se não adotar uma definição rigorosa de neutralidade, alertando que o país seria visto internacionalmente como tendo “renunciado por completo à neutralidade”.

Sem uma posição claramente neutral, defende que a Suíça corre o risco de ser absorvida pela NATO e de perder o seu estatuto privilegiado de mediadora e anfitriã influente de organizações e negociações internacionais.

“Julgo que, se votarmos não, corremos o risco de perder isso”, afirmou.

Segundo as sondagens, os suíços deverão também rejeitar outra iniciativa que vai a votos este domingo, que propõe aumentar a taxa de autossuficiência alimentar do país para 70%, face aos 42% registados em 2024.

Outras fontes • AFP

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