Artista estoniana Merike Estna fez algo invulgar na Bienal de Veneza: durante cinco meses pintou ao vivo perante os visitantes. O resultado são 22 telas que exploram a maternidade e o feminismo.
Os visitantes do pavilhão da Estónia na Bienal Internacional de Arte de Veneza deste ano podem ter ficado surpreendidos por ver a representante do país, Merike Estna, em pessoa, a criar as suas obras mais recentes.
Ao longo dos últimos cinco meses, mesmo diante do público, foi construindo metódicamente a exposição The House of Leaking Sky, composta por 22 grandes telas.
“O pavilhão apresenta três obras monumentais. O banco comprido, com 26 metros. Depois o piso [25 000 azulejos] por onde as pessoas passam, que vejo como uma espécie de mapa mental do projeto, e por fim a pintura atrás de mim, que comecei a partir de uma tela em branco”, explicou Estna à Euronews Culture no início deste mês.
Maternidade e história da arte no feminino
A maternidade e a história da arte feita por mulheres serviram de inspiração para a criação deste espaço. O significado é ainda mais forte sabendo que Estna foi mãe há pouco tempo. Continuava de licença de maternidade do filho mais novo enquanto se preparava para vir para Veneza e trabalhar, durante cinco meses completos e ao vivo perante o público visitante, no maior projeto da sua carreira.
Como sublinha a curadora, Natalia Sielewicz, no texto curatorial, Estna entrelaça reflexões sobre a maternidade e as linhagens de artistas mulheres que abriram caminho para a autodeterminação artística.
“Enquanto mãe trabalhadora, integra frequentemente na sua prática iconografias complexas do cuidado, da linhagem e da herança”, escreveu.
Sielewicz recorda aos visitantes a existência do pittore senza opera – o ‘pintor sem obra’, muitas vezes incarnado por mulheres cujos trabalhos foram absorvidos por oficinas patriarcais ou apagados das crónicas oficiais.
“Marietta Robusti Tintoretta foi uma delas: pintora-poeta veneziana que se vestia de rapaz para poder trabalhar ao lado do pai, Jacopo Tintoretto, no calor do ateliê familiar. As suas pinturas circulavam sem o nome dela, o mérito subia na hierarquia; morreu de parto antes de ter oportunidade de surgir plenamente à luz da sua própria autoria”, escreveu.
A viver em Veneza com a família durante toda a Bienal, Estna integra a maternidade na estrutura conceptual do projeto e considera que a experiência foi extremamente útil tanto para si como para os filhos. “É uma cidade complicada para viver em família e com crianças pequenas”, afirmou Estna. “O meu filho mais velho perdeu a trotineta logo na primeira manhã após a chegada, caiu ao canal. A mais nova só aprendeu a andar há alguns meses. Tem sido um desafio, mas também… adoro desafios; acho que nos dão sempre novas ideias e nos impulsionam, levam-nos a pensamentos diferentes.”
Espaço habitado
Estna instalou o ateliê e a exposição no antigo templo de Santa Maria Assunta, no bairro de Castello, em Veneza, mais tarde utilizado como espaço comunitário e ginásio. Estas histórias sobrepostas – sagradas, cívicas e quotidianas – constituem o pano de fundo ativo do seu trabalho em evolução.
“Este espaço de estúdio que a Merike criou é realmente um espaço habitado. A pintura mudou e evoluiu imenso ao longo destes cinco meses. Diria que é um lugar muito vivo e alegre. Muitas pessoas que vivem em Veneza continuam a voltar”, afirmou Maria Arusoo, comissária do Pavilhão da Estónia na Bienal de Veneza.
“As pessoas querem mesmo fazer perguntas, refletir, conversar, simplesmente ficar sentadas por ali.”
Para Merike, os visitantes são essenciais e quis que estivessem sempre bem acolhidos. “Não são de todo intrusos no pavilhão e a ideia principal, mostrar como a pintura nasce, só ganha sentido quando as pessoas vêm e a veem, por isso constituem uma parte importante do pavilhão.”
No início sentia-se ansiosa, mas com o tempo estas condições fizeram-na lembrar os tempos da academia de arte, onde partilhava sempre o ateliê e tentava concentrar-se com auscultadores enquanto os outros conversavam.
Política e protestos
A 61.ª Bienal de Arte de Veneza arrancou envolta em enorme polémica, depois de vários países e artistas protestarem contra a decisão da organização de convidar a Rússia a abrir o seu pavilhão nos Giardini, um dos dois principais espaços da Bienal.
Maria Arusoo, comissária do Pavilhão da Estónia, disse à Euronews Culture que a arte nunca pode ser separada da política.
“A Merike disse uma coisa muito bonita e ao mesmo tempo triste: nós [Estónia] estivemos 60 anos fora deste diálogo e fora da Bienal por causa da Rússia, porque estávamos ocupados e não podíamos participar como país independente. Por isso, não vamos recuar só porque decidiram regressar.”
O protesto contra o pavilhão russo terminou em frente ao pavilhão estónio no dia de abertura da Bienal. Estna assinou também uma carta aberta contra o pavilhão israelita.
A 61.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza encerra no domingo, 22 de novembro de 2026.