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Dois milhões de portugueses sofrem de enxaqueca, mas muitos continuam sem acompanhamento

1.300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com enxaquecas
1.300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com enxaquecas -  Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Joana Mourão Carvalho
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Cerca de dois milhões de portugueses sofrem de enxaqueca, uma doença neurológica que afeta sobretudo as mulheres e que pode limitar a vida profissional, familiar e social. Apesar do impacto, a doença continua subdiagnosticada e muitos doentes permanecem sem acompanhamento e tratamento adequados.

Há dores de cabeça que são motivadas pelo stress, as que surgem após a realização de esforço, as que são intensas, mas desaparecem rapidamente. Depois há as que se tornam uma verdadeira prisão e que obrigam a parar tudo.

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Para quem sofre de enxaquecas, uma crise pode significar ficar sem conseguir trabalhar, estudar ou cumprir as tarefas básicas do dia a dia.

Estima-se que a doença afete cerca de dois milhões de portugueses. Segundo um estudo da The Work Foundation levado a cabo por uma equipa de investigadores da Universidade de Lancaster, em Portugal, 24% das mulheres e 13% dos homens sofrem de enxaquecas.

A nível mundial, cerca de 1.300 milhões de pessoas sofrem de enxaqueca, uma das doenças neurológicas mais frequentes e uma das principais causas de incapacidade.

A enxaqueca afeta sobretudo as mulheres e pode condicionar vários aspetos da vida quotidiana. Os dados de um estudo recente da Aliança Europeia para a Enxaqueca e Cefaleias confirmam isso mesmo, ao revelar que, em Portugal, 92% das mulheres com enxaqueca referem que estas dores de cabeça limitaram a sua capacidade de trabalhar, estudar ou realizar as suas atividades durante, pelo menos, um dia.

Além de serem incapacitantes, as enxaquecas podem ser acompanhadas por outros sintomas, como náuseas e vómitos, sensibilidade à luz, ao ruído e aos cheiros, lentificação do pensamento e dificuldade de concentração.

A doença continua subdiagnosticada, e os desafios no diagnóstico e acompanhamento também se verificam em Portugal. De acordo com um consenso nacional publicado em 2025, cerca de 40% das pessoas que sofrem de dores de cabeça não têm acompanhamento médico e, entre as que são acompanhadas, mais de metade recorre ao setor privado.

O mesmo documento estima que cerca de 1,5 milhões de portugueses beneficiariam de acompanhamento médico por cefaleias e que aproximadamente 90% poderiam ter resposta nos cuidados de saúde primários.

O estudo "Enxaqueca nas Mulheres - O Padrão Hormonal Invisível" da Aliança Europeia para a Enxaqueca e Cefaleias também confirma que quase metade (42%) das mulheres com sintomas compatíveis com enxaqueca nunca receberam um diagnóstico médico, que 33,6% das que têm enxaqueca nunca consultaram um médico e que 72,4% recorrem à automedicação.

"Estes números confirmam que a enxaqueca continua a ser subvalorizada e o acesso ao tratamento adequado continua a ser um desafio para muitas pessoas no nosso país", comenta Isabel Pireza, presidente da Mesa da Assembleia Geral da MiGRA Portugal - Associação Portuguesa de Doentes com Enxaqueca e Cefaleias. "É urgente encurtar a distância entre o diagnóstico e o tratamento eficaz, para que ninguém tenha de viver preso a esta doença", reforça.

A doença também tem consequências na vida profissional. Um estudo realizado junto de trabalhadores de empresas portuguesas identificou episódios de absentismo e uma redução da capacidade de trabalho durante as crises. Entre os trabalhadores com uma doença relacionada com cefaleias que afirmaram ter realizado menos de metade do trabalho previsto durante um episódio, 29% tinham enxaqueca.

A imprevisibilidade das crises pode ainda afetar as relações pessoais, as responsabilidades profissionais e outras atividades do dia a dia. As pessoas com enxaqueca podem sentir falta de energia, dificuldades emocionais ou problemas relacionados com a saúde mental.

"A enxaqueca é uma doença neurológica que vai muito além da sua manifestação mais conhecida — a dor de cabeça. Pode ter um impacto profundo na vida familiar, social, escolar e profissional. Reconhecer os sinais e chegar a um diagnóstico correto é essencial para quebrar este ciclo de sofrimento, permitindo que cada pessoa tenha acesso ao acompanhamento e tratamento mais adequados e possa recuperar qualidade de vida", explica Filipe Palavra, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias.

Para a dirigente da MiGRA Portugal, "continuamos a ver demasiadas pessoas a normalizar uma dor que não deveria ser normal. Queremos que quem sofre de enxaqueca saiba que não tem de aceitar viver assim, que existem soluções e que procurar ajuda é o primeiro passo para recuperar a sua liberdade".

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