Estrela colombiana regressa a Espanha oito anos depois com residência de 12 concertos em Madrid que celebra a cultura latina, junta várias gerações de mulheres e transforma uma das fases mais difíceis da sua vida num espetáculo de música, liberdade e afirmação
Há raparigas que mal chegam a um metro de altura. Mulheres que podiam ser suas mães e outras que podiam ser suas avós. Há colombianas, venezuelanas, peruanas e espanholas, mas também alemãs, neerlandesas e dinamarquesas. Algumas usam perucas roxas. Outras, saias com moedas. Muitas, purpurina. E, quando começam os uivos, durante umas horas todas passam a ser o mesmo: lobas.
Shakira não quis regressar a Espanha apenas com um concerto. Não. Quis voltar em grande.
Oito anos depois da última digressão pelo país, a colombiana escolheu Madrid para a única residência europeia de “Las Mujeres Ya No Lloran World Tour”: 12 concertos, mais de 600 mil bilhetes e um estádio temporário construído para ela e para os seus fãs no sul da capital, com cerca de 55 mil pessoas por noite.
E à volta do palco construiu praticamente uma cidade.
Chama-se Macondo Park, em homenagem ao universo de Gabriel García Márquez, e oferece gastronomia, música, literatura, espaços infantis, exposições e um palco secundário. As portas abrem horas antes de Shakira aparecer. A intenção não é apenas fazer um concerto: é um festival de celebração da cultura latina erguido em torno de uma artista que há mais de três décadas a exporta para o mundo.
Também a escolha de Madrid não é por acaso.
Shakira explicou que escolheu a capital porque aqui encontrou algo que queria celebrar: uma cidade com uma comunidade latino-americana muito numerosa, onde a cultura latina já faz parte da identidade do dia-a-dia e é celebrada.
Mas torna-se difícil ignorar outra camada deste regresso.
Madrid e Barcelona mantêm uma rivalidade histórica que vai para lá do futebol. E Barcelona não é uma cidade qualquer na biografia de Shakira: foi casa dela durante mais de uma década, a cidade onde viveu com o ex-companheiro, onde cresceram os filhos e de onde acabou por sair rumo a Miami depois de uma ruptura dolorosa.
Agora, o seu único grande desembarque europeu já não é ali. É em Madrid.
Inevitável, a carga simbólica. A mulher que deixou Barcelona depois de um dos períodos mais difíceis da sua vida regressa a Espanha ocupando, durante quatro fins de semana, a cidade rival.
E a própria parece gostar dessa narrativa.
“Boa noite, Madrid. Não consigo acreditar que estou aqui”, diz perante dezenas de milhares de pessoas. Depois recorda algo que lhe disseram antes de regressar: “Com a cara com que foste, há que ver a cara com que voltaste”.
De uma ruptura a uma alcateia de lobas
O concerto começa com “La fuerte”. Depois seguem-se “Girl Like Me”, “Las de la intuición” e “Estoy aquí”. Em poucos minutos convivem a Shakira dos anos 90, a estrela mundial do pop latino e a mulher que, nos últimos anos, transformou uma ruptura sentimental em música.
Uma Shakira digital surge no início a recompor o próprio corpo a partir da areia. Depois, a verdadeira atravessa o público acompanhada pela sua alcateia antes de chegar ao palco. “Nada se compara ao momento em que uma loba se reencontra com a sua alcateia”, diz.
E a alcateia responde. Dançam “La tortura”. Gritam “Te felicito”. Cantam de cor “TQG”. Viajam 20 anos atrás com “Hips Don’t Lie”. Cantam “Waka Waka”. Entre canção e canção, vai-se construindo uma ideia que atravessa todo o espetáculo: cair não significa ficar no chão.
Em Madrid, Shakira admite que os últimos anos “não têm sido fáceis” e descreve o regresso a Espanha como “um presente”. E volta a dançar.
As mulheres já não choram
Há algo profundamente feminino nesta noite. Não por ser uma festa exclusivamente para mulheres, mas pela sensação de que aqui podem ocupar todo o espaço. Ser barulhentas. Sensuais. Ridículas. Zangadas. Vulneráveis. Fortes. Pôr uma peruca violeta, abanar as ancas durante duas horas e dançar ao lado de uma desconhecida.
Durante o espetáculo surge uma frase de Isabel Allende que funciona quase como manifesto: “As mulheres sozinhas somos vulneráveis, mas juntas somos invencíveis”. E basta olhar em redor para perceber porque está ali.
Mães a dançar com as filhas. Grupos de amigas a abraçar-se. Mulheres de idades, países e idiomas diferentes a cantar as mesmas músicas. Para as latinas, há ainda algo especialmente familiar num espetáculo que não dilui nem disfarça a sua identidade: pop, reggaeton, salsa, batucada, percussão e ancas. Barranquilla está presente, mesmo estando em Madrid.
A frase que acabou por definir esta etapa também não procurava ser subtil: “As mulheres já não choram, as mulheres facturam”. E factura, e muito.
600 mil bilhetes: as mulheres também facturam
A residência é também uma operação económica gigantesca. São 12 noites ao longo de quatro fins de semana consecutivos. Mais de 600 mil bilhetes. Um recinto construído especificamente para o acontecimento e uma estimativa de entre 150 e 200 milhões de euros de despesa direta associada a Madrid.
Shakira conseguiu que, em vez de percorrer a Europa, durante um mês seja a Europa a viajar até ela.
Madrid torna-se assim destino para seguidores de dezenas de nacionalidades e gerações. E a frase que nasceu como resposta a uma ruptura ganha aqui um significado muito mais literal.
Os 10 mandamentos de uma loba
Para o final do concerto surgem nos ecrãs os dez mandamentos das lobas. São o código desta nova Shakira: independência, liberdade, cumplicidade entre mulheres e várias referências ao seu passado que o público capta de imediato.
Um deles provoca em particular Madrid: “Uma loba não cobiçará os bens alheios”.
(‘**Clara-**mente’).
O estádio explode.
O que há alguns anos enchia manchetes sobre a sua vida privada acabou transformado em humor, música e espetáculo. Shakira já não tenta separar a sua história pessoal das canções: brinca com ela.
Depois chega “Loba”.
Mas ainda falta uma última canção. E dificilmente poderia ter escolhido outra.
Depois de mais de duas horas a percorrer três décadas de carreira, Shakira guarda para o fim a sessão com Bizarrap em que transformou a sua ruptura com Gerard Piqué num dos maiores sucessos da carreira.
Então, dezenas de milhares de pessoas voltam a gritar com ela: “As mulheres já não choram, as mulheres facturam”.
O círculo fecha-se precisamente aqui e a última canção parece escrita para este momento. Shakira saiu de Espanha a chorar. Regressa a Madrid a facturar.