Os prisioneiros de guerra foram capturados pelas forças ucranianas no início do ano passado, após atuarem com milhares de militares norte-coreanos na guerra da Rússia contra a Ucrânia.
O presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, advertiu na sexta-feira que Seul tomará “novas medidas” se a Ucrânia continuar a recusar pedir desculpa publicamente pelo que descreveu como a divulgação unilateral da transferência de prisioneiros de guerra norte-coreanos para a Coreia do Sul.
Seul assumiu uma posição firme perante a divulgação, pela Ucrânia, da transferência de dois soldados capturados a combater ao lado da Rússia, alertando que as suas famílias podem ser alvo de Pyongyang.
A Coreia do Norte é conhecida por retaliar contra desertores e as respetivas famílias.
Ambos os prisioneiros de guerra podem ser identificados, já que tinham sido fotografados pelos meios de comunicação sul-coreanos antes de chegarem ao Sul.
As forças ucranianas capturaram-nos no início do ano passado, depois de terem sido destacados juntamente com milhares de militares norte-coreanos para apoiar a guerra da Rússia contra a Ucrânia, em troca de ajuda económica e militar para Pyongyang.
Poucas horas depois de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, ter revelado a transferência, na semana passada, num discurso nas Nações Unidas, Lee manifestou a sua consternação, com Seul a defender que a confidencialidade era essencial para proteger os familiares dos prisioneiros.
Seul exigiu depois um pedido de desculpas oficial à Ucrânia, afirmando que ambas as partes tinham chegado, nas consultas realizadas, a um “entendimento claro” para manter a transferência confidencial.
“Se a Ucrânia continuar a recusar reconhecer os factos e pedir desculpa publicamente, tomaremos novas medidas”, afirmou o presidente sul-coreano na sexta-feira, acusando Kiev de o apresentar como um “mentiroso”.
“Trata-se de uma questão que diz respeito à dignidade da República da Coreia e do seu povo e não pode ser ignorada”, escreveu Lee na rede social X.
Analistas consideram que, do ponto de vista da Coreia do Sul, manter confidencial a transferência dos prisioneiros de guerra poderá ter sido, em parte, em benefício da Ucrânia, já que torná-la pública poderia complicar as próprias trocas de prisioneiros de Kiev com a Rússia.
Na política interna sul-coreana, porém, a abordagem de Seul “pode revelar-se problemática”, afirmou Shin Yul, professor de ciência política na Universidade Myongji, tendo em conta a postura conciliadora da atual administração face ao Norte, potência nuclear.
“O governo agiu rapidamente neste caso envolvendo a Ucrânia, enquanto demonstra extrema cautela no incidente das minas terrestres norte-coreanas (que feriram soldados sul-coreanos). Esse contraste pode deixar a opinião pública profundamente insatisfeita.”
Coreia do Sul e Ucrânia: mal-entendido diplomático
Lee referiu-se, na sexta-feira, a uma entrevista com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, publicada na quinta-feira pelo portal RBC-Ukraine e outros meios ucranianos.
“Sybiha declarou que ‘não gostaria de lhe chamar incidente’, descrevendo-o antes como um ‘mal-entendido diplomático’.”
“A Coreia do Sul é um país importante para nós. E espero sinceramente um impulso, uma cooperação contínua e resultados concretos, que estamos de facto a alcançar com eles”, afirmou.
A agência de informações de Seul afirmou que Zelenskyy poderá ter revelado a transferência dos militares norte-coreanos para reforçar o apoio da opinião pública sul-coreana ao eventual fornecimento de armamento à Ucrânia por parte de Seul, segundo um deputado esta quarta-feira.
Nos últimos anos, a Coreia do Sul tornou-se um grande exportador de armamento, sobretudo desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, no início de 2022, incluindo um contrato de armamento de vários milhares de milhões de dólares com a Polónia.
Mas tem evitado fornecer armas letais a Kiev, invocando a política de longa data de não armar países envolvidos em conflitos ativos.