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Dos resíduos do mar ao tecido: Dentro da revolução da moda sustentável em Espanha

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De Monica Pinna
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Todos os anos, mais de 12 milhões de toneladas de plástico acabam nos oceanos. A espanhola Ecoalf transforma lixo marinho em tecidos e roupa, num modelo circular. Mas poderá a moda sustentável mudar um sector assente na sobreprodução?

Quase 5 000 pescadores e uma fundação sem fins lucrativos (fonte em inglês) estão por detrás da marca espanhola de moda sustentável Ecoalf (fonte em inglês). Todos os dias, os pescadores trazem para terra o lixo que fica preso nas redes, enquanto a Fundação Ecoalf desenvolveu um sistema para dar a esses resíduos uma segunda vida, transformando-os em matéria-prima e, no fim, em tecido.

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“Só o plástico representa agora cerca de 80% de tudo o que retiramos do mar. Esta é a nossa realidade diária”, afirma o pescador Tony Beltrán, enquanto mostra o lixo que ficou preso nas suas redes ao largo de Gandía, a sul de Valência. “Muito antes de a reciclagem se tornar popular, já o recolhíamos, a única diferença é que não o separávamos.”

O pescador Tony Beltrán mostra parte do lixo apanhado nas redes ao largo de Gandía, a sul de Valência. Setembro de 2026.
O pescador Tony Beltrán mostra parte do lixo apanhado nas redes ao largo de Gandía, a sul de Valência. Setembro de 2026. © Monica Pinna, Euronews

Desde 2015, o projeto Upcycling the Oceans (fonte em inglês), lançado em paralelo com a criação da Fundação Ecoalf, já recuperou mais de 2 000 toneladas de resíduos marinhos, o equivalente a cerca de 100 camiões de lixo. Atualmente, a iniciativa envolve cerca de 80 portos e já se expandiu para França, Itália, Grécia, Egito e Tailândia. Ainda assim, é uma gota no oceano: a Fundação lembra que, a cada minuto, o equivalente a um camião de plástico vai parar aos oceanos do mundo.

“O nosso objetivo sempre foi reunir 10 000 pescadores em todo o Mediterrâneo para que, juntos, possamos ajudar a limpar o mar Mediterrâneo”, explica Andrea Ruzo, diretora da Fundação Ecoalf.

De todos os materiais recuperados do mar, a maioria, como o vidro e os metais, segue os canais tradicionais de reciclagem. Mas cerca de 5% destes resíduos são garrafas de plástico, que são transformadas naquilo a que a Ecoalf chama Ocean Yarn.

“O primeiro passo, depois de o lixo ter sido recolhido, é triturá-lo e transformá-lo em flocos e depois em pellets, que é a fase anterior à fiação”, explica Ángela Pérez, especialista em inovação têxtil e sustentabilidade da Ecoalf.

Ocean Yarn, a fibra produzida a partir de garrafas de plástico recuperadas do mar.
Ocean Yarn, a fibra produzida a partir de garrafas de plástico recuperadas do mar. © Monica Pinna

O coração desta cadeia de abastecimento fica na sede da Ecoalf, em Madrid, onde o Ocean Yarn e outros materiais reciclados são transformados em tecidos.

Desde a sua criação, em 2009, a empresa tem vindo a abastecer-se de matérias-primas obtidas a partir de resíduos que vão muito além das garrafas de plástico. Algumas fibras vêm de redes de pesca descartadas, outras de pneus ou de têxteis naturais reciclados, como o algodão e a lã. O objetivo, explica a empresa, é reduzir o impacto ambiental tanto da produção como da peça final, preservando o aspeto e a qualidade.

Julie Sohn, diretora criativa da Ecoalf, na sede de Madrid.
Julie Sohn, diretora criativa da Ecoalf, na sede de Madrid. © Monica Pinna

A circularidade influencia todas as decisões que um designer de moda toma ao longo do processo de criação, sublinha Julie Sohn, diretora criativa da Ecoalf.

“Muda tudo desde o início. Tudo é concebido para que a peça possa ser totalmente desmontada, sem processamento adicional, e voltar a entrar na economia circular”, afirma.

Entre os pioneiros da moda sustentável, a Ecoalf nasceu com uma ambição clara: provar que é possível ter sucesso económico e, ao mesmo tempo, ajudar a transformar uma das indústrias mais poluentes do mundo. Dezassete anos depois, a empresa tornou-se uma marca global, com receitas anuais na ordem dos 65 milhões de euros, 300 trabalhadores e dezenas de lojas em todo o mundo.

O slogan da Ecoalf, “There is no Planet B”, está presente em todas as suas coleções.
O slogan da Ecoalf, “There is no Planet B”, está presente em todas as suas coleções. © Monica Pinna

“O problema com que nos deparamos nos últimos anos é o consumo excessivo e a sobreprodução em massa. As marcas têm de ir além de cápsulas sustentáveis ou de apostar num único material. É preciso aprender a desenhar com princípios de ecodesign desde o primeiro momento”, explica Carolina Álvarez-Ossorio, diretora de marketing da Ecoalf.

Mas poderá a moda sustentável acabar por substituir a fast fashion? Ainda falta muito caminho, admite Álvarez-Ossorio, que está igualmente convencida de que os designers têm um papel a desempenhar na procura de novas formas de trabalhar com propósito e, em última análise, ajudar a proteger o planeta.

Campanha anti-Black Friday da Ecoalf.
Campanha anti-Black Friday da Ecoalf. © Ecoalf

A Ecoalf é um exemplo marcante de economia circular, mas levanta também uma questão mais ampla: poderá a reciclagem dos resíduos que já produzimos alguma vez compensar o novo lixo que continuamos a gerar?

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