Lionel Messi, ícone do futebol mundial, despediu-se com emoção da seleção nacional depois de ter conduzido a Argentina a uma vitória por 3-0 sobre a seleção visitante do Benim, em Buenos Aires.
A Argentina enfrenta uma realidade que antes parecia impensável: uma seleção sem o génio do futebol, Lionel Messi.
Na terça-feira, o jogador, com 39 anos de idade, despediu-se do futebol internacional, deixando para trás 21 anos de carreira, 126 golos marcados, duas vitórias na Taça América e um título mundial. Messi marcou um penálti e fez duas assistências para os outros dois golos da Argentina na vitória por 3-0 sobre o Benim, que jogava fora de casa.
O que seria um jogo amigável discreto contra um país da África Ocidental transformou-se num momento que este país, apaixonado por futebol, há muito temia.
"Sinto que está a terminar uma era ao saber que ele já não vai jogar pela seleção", afirmou Valentino Ruso, de 17 anos, a caminho da casa de um amigo em Buenos Aires para assistir ao jogo. "Estou triste. Acho que todos estão tristes hoje. Vai fazer falta."
Os argentinos mantiveram uma relação intensa e, por vezes, implacável com aquele rapaz tímido que, aos 13 anos, deixou a sua cidade natal, Rosario, para ingressar no clube de formação do Barcelona.
À medida que se foi tornando um ícone global com um estatuto quase mítico, os seus compatriotas adoravam-no e criticavam-no, questionando por vezes o seu compromisso com o país e acusando-o de indiferença.
No entanto, quando terminou a sua brilhante carreira internacional, ninguém duvidava da sua dedicação à Argentina. Tal como a Argentina não duvidava da devoção do seu cidadão mais famoso, cujos triunfos lembraram ao país a sua capacidade de grandeza em anos de instabilidade política e económica.
"Os argentinos costumam dizer: 'Ainda bem que nasci numa altura em que pude viver o milagre de ver Messi jogar'", afirmou Andrés Rabinovich, académico da Universidade de Chicago que estudou o papel do futebol na cultura argentina.
"É difícil viver na Argentina. O futebol é, muitas vezes, uma das poucas coisas que proporciona algum alívio e alegria”.
Durante anos, os argentinos debateram a forma e o momento em que Messi deveria despedir-se do palco mundial. O anúncio, a 31 de agosto, de que se iria retirar da seleção, semanas após a derrota da Argentina frente à Espanha na final do Campeonato do Mundo, provocou uma onda de gratidão e tristeza, apesar de se saber que Messi continuará a brilhar na Major League Soccer pelo Inter Miami.
"Não me lembro de alguma vez ter havido uma história de amor entre um jogador e um país tão grande como a que construíste", escreveu o seu colega de seleção, Rodrigo De Paul, no Instagram.
Na terça-feira, a Federação Argentina de Futebol transformou o 208.º jogo de Messi pela seleção numa despedida nacional, a que chamaram "o último tango".
Os mais de 85 mil bilhetes para o maior estádio de Buenos Aires esgotaram em 90 minutos e os lugares, que custavam inicialmente entre 60 e 300 dólares (53 e 267 euros), chegaram a ser vendidos por mais de 2500 dólares (2226 euros) em sites de revenda.
Jogadores das seleções argentinas campeãs mundiais em 1978, 1986 e 2022 voltaram ao estádio para se despedirem dele.
Após o apito final, os olhos de Messi brilhavam enquanto os colegas o rodeavam, em aplausos. Das bancadas ergueu-se um coro estrondoso de “Olé, olé, olé, olé, Messi, Messi”, enquanto dezenas de milhares de adeptos saltavam, cantavam e se inclinavam na sua direção, quase em reverência.
Uma faixa no meio-campo proclamava-o “capitão eterno”.
“A verdade é que estou a falar mais do que alguma vez falei. Não quero sair daqui, não quero deixar este relvado”, disse Messi à multidão, que rugiu como se tivesse marcado. “Quero apenas dizer-vos que vos amo, que vos vou sentir falta e que agradeço a Deus por ser argentino.”
Nas décadas de 2000 e 2010, Messi somou troféus pelo clube e ganhou adeptos fervorosos de Barcelona ao Bangladesh. Mas um grande título pelo seu país continuava a escapar-lhe. Depois de a Argentina perder uma terceira final consecutiva, em 2016, Messi chegou a abandonar temporariamente a seleção.
A viragem deu-se em 2021, quando a Argentina derrotou o Brasil e conquistou a Taça América, o campeonato da América do Sul, pela primeira vez em 28 anos. Messi caiu no relvado, enquanto os colegas, eufóricos, corriam para o abraçar. O jogador, que durante anos fora acusado de não demonstrar emoções, não conseguiu conter as lágrimas.
A vitória no Campeonato do Mundo no ano seguinte, no Qatar, confirmou o seu estatuto de herói nacional. Messi tinha, finalmente, conquistado o único troféu que lhe escapava e milhões de argentinos saíram à rua num êxtase coletivo, entoando cânticos com o seu nome e exibindo o número 10 nas costas.
No final do jogo de terça-feira, o público permaneceu nas bancadas, oferecendo uma ovação que ecoou por todo o estádio. Messi deu uma última volta no relvado, uma pequena silhueta sob as luzes, a absorver o momento. Ao chegar ao túnel, parou para erguer os braços aos adeptos uma última vez. Depois, desapareceu.
O seu contrato com o Inter Miami é válido até à época de 2028, mas terminou o ritual de o ver carregar para cada jogo as esperanças e as angústias da Argentina.