August Hanning é acusado de ter obtido ilegalmente informações confidenciais durante o seu mandato e após ter deixado o cargo, as quais foram utilizadas indevidamente no âmbito da sua atividade de consultoria privada.
Um antigo chefe dos serviços secretos externos da Alemanha foi detido na terça-feira sob suspeita de ter transmitido segredos de Estado a um serviço secreto estrangeiro, informou o Ministério Público Federal.
August Hanning, que dirigiu o Serviço Federal de Informações, conhecido pela sigla alemã BND, entre 1998 e 2005, é «fortemente suspeito de espionagem traidora, divulgação de segredos de Estado, tentativa de traição e espionagem», afirmou o Ministério Público Federal num comunicado.
Hanning, de 80 anos, foi detido em Bad Toelz-Wolfratshausen, no sul da Alemanha. Um antigo assessor, identificado como Manfred D, foi também detido na terça-feira em Steinfurt, no oeste da Alemanha, e foi acusado de cumplicidade na tentativa de traição e de espionagem.
"Num dos casos, há suspeitas de que o senhor Hanning tenha utilizado informação classificada para elaborar uma análise destinada a um funcionário de um serviço de informações estrangeiro", declarou Ines Peterson, porta-voz da Procuradoria Federal, aos órgãos de comunicação social alemães.
"Noutro caso, é alegado que terá transmitido informações após uma troca extensa de contactos com um funcionário de outro serviço de informações."
Tanto Peterson como o comunicado anterior da Procuradoria Federal não revelaram para quem os dois homens são suspeitos de espionagem nem a que serviços de informações estrangeiros poderão ter fornecido informação classificada. As instalações de ambos foram alvo de buscas na noite de terça-feira.
A Procuradoria Federal indicou que Manfred D. trabalhou como chefe de gabinete de Hanning, tendo desempenhado a mesma função para vários presidentes do BND entre 2012 e 2026. "Na função que exercia, tinha acesso a informação confidencial", referiu o gabinete.
De acordo com o comunicado, acredita-se que, em 2010, os dois suspeitos tenham chegado a um acordo pelo qual Manfred D. transmitiria continuamente informações valiosas do BND a Hanning, mediante pagamento.
"Os dados atualmente disponíveis sugerem que, ao longo dos anos, Manfred D. forneceu a Hanning cerca de dois mil documentos, muitos dos quais continham informação classificada destinada exclusivamente ao uso interno do Serviço Federal de Informações, nomeadamente para a elaboração de sínteses de informação para o executivo", acrescentou a Procuradoria Federal.
Segundo Peterson, Hanning utilizou essa informação em trabalhos de consultoria privada e Manfred D., que não pode ser identificado pelo nome completo em conformidade com as regras alemãs de proteção de dados, continuou a fornecer-lhe informação classificada até junho de 2022.
Hanning está também a ser investigado num processo separado relativo ao sequestro, em Janeiro de 2024, na Dinamarca, dos filhos da empresária de Hamburgo, Christina Block, pelo ex-marido, no âmbito de uma longa disputa de custódia. A investigação deste caso resultou nas detenções de terça-feira.
O processo em curso resulta de provas encontradas durante uma busca à residência de Hanning, realizada no âmbito do mesmo caso, explicou a Procuradoria Federal.
Hanning e um ex-responsável do Departamento Estadual de Polícia Criminal de Hamburgo são suspeitos de, em 2022, terem aceitado um contra to da empresária para raptar os filhos, quando exerciam funções de direção numa empresa de segurança, anunciou o Ministério Público no outono de 2025, segundo a agência de notícias alemã dpa.
Os Block são uma família proeminente de Hamburgo, conhecida sobretudo pela popular cadeia nacional de steakhouses "Block House". O julgamento sobre a custódia tem atraído muita atenção no país, com os tabloides alemães a dedicarem uma cobertura ampla às audiências.
Konstantin von Notz, deputado da oposição, manifestou o seu choque perante as alegações contra Hanning e apelou a uma investigação rápida.
"Este é um caso grave e profundamente perturbador", afirmou o membro do partido Os Verdes, que também integra a comissão parlamentar alemã responsável pela supervisão dos serviços de informações.
"Esperamos uma investigação rápida e exaustiva sobre as graves acusações dirigidas ao antigo chefe do BND", acrescentou.
Von Notz apelou ainda para que o Estado alemão impeça os antigos altos dirigentes com credenciais de segurança de nível máximo de exercerem atividade de consultoria privada após deixarem o cargo, questão que considerou ser do interesse da segurança nacional.