A mulher de 87 anos, cujo despejo desencadeou uma crise interna e deu origem a protestos antigovernamentais em todo o país, faleceu no hospital na noite de quarta-feira. Os manifestantes afirmam que continuarão a protestar para defender o seu legado.
María del Carmen Abascal, a idosa de 87 anos cujo despejo da casa onde vivia há décadas em Madrid desencadeou protestos por todo o país e uma crise política que levou o governo a antecipar as eleições, faleceu na quarta-feira, quando se encontrava hospitalizada.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, foi um dos primeiros a manifestar condolências nas redes sociais, após ativistas do movimento de defesa do direito à habitação e a advogada de Abascal terem anunciado a sua morte. Conhecida em todo o país como "Maricarmen", Abascal tornou-se um símbolo dos inquilinos que lutam contra a crise de acessibilidade à habitação em Espanha.
"Todo o meu carinho para a família e entes queridos de Maricarmen", escreveu Sánchez numa publicação na plataforma X, acrescentando: "Um abraço também para todos os que hoje sentem esta perda como sua. Que descanse em paz".
A comoção deu lugar à revolta entre os manifestantes concentrados junto ao Parlamento espanhol, que entoavam: "Maricarmen vive, a luta continua!".
"É uma enorme tristeza. E, sobretudo, a ideia de que ela foi a causa, a mente por trás de toda esta revolução, e de que não a puderam ver", afirmou Iciar López, uma psicóloga de 32 anos que participava na manifestação em Madrid.
"É muito triste não poder ver se daqui resulta alguma coisa. É isso que mais me revolta, sinceramente".
Os espanhóis, cada vez mais frustrados com o custo da habitação, têm saído regularmente à rua nas principais cidades para exigir medidas aos responsáveis políticos.
No entanto, desde 23 de setembro que uma nova vaga de indignação varre o país, data em que Maricarmen, que se deslocava em cadeira de rodas, foi transportada numa maca da casa onde vivia há sete décadas, após a polícia ter isolado a rua e retirado os manifestantes.
Foi levada para o hospital devido ao seu estado de saúde frágil. As imagens televisivas do despejo levaram milhares de pessoas a protestar em Madrid e noutras cidades do país.
Beatriz Duro, a advogada de Maricarmen, não revelou a causa da morte quando esta foi confirmada à estação de rádio Cadena Ser. Duro afirmou que todos, ela e os ativistas, estavam arrasados.
"O caso de Maricarmen, que teve grande destaque na comunicação social e deu a volta ao mundo, mostra-nos a realidade vergonhosa destes despejos e o impacto que podem ter na saúde das pessoas", disse Duro.
Esperava-se que regressasse a casa após a alta hospitalar. No entanto, a empresa imobiliária que a tinha despejado para poder alugar o imóvel por um valor muito mais elevado acabou por ceder à enorme pressão pública e concordou em deixá-la regressar ao apartamento.
"Embora tenha sido alcançado um acordo histórico que lhe teria permitido regressar a casa, a solução chegou demasiado tarde", afirmou o Sindicato de Inquilinos de Madrid num comunicado divulgado na quarta-feira. "Foi uma situação totalmente evitável, após um processo profundamente doloroso."
O valor médio das rendas em Espanha quase duplicou nos últimos dez anos. Segundo o governo, 26% dos espanhóis que vivem em casas arrendadas gastam, em média, 40% do rendimento em renda e serviços, contra uma média de 18% dos inquilinos na União Europeia.
Manifestantes acampados na praça central Puerta del Sol, em Madrid, cumpriram um minuto de silêncio depois de saberem da sua morte.
Maricarmen passou quase toda a vida no apartamento, onde viveu primeiro com os pais e o irmão. Mais tarde trabalhou como secretária do conselho de administração de uma empresa farmacêutica, segundo órgãos de comunicação espanhóis.
Depois de se reformar, em 1998, passou os dias a percorrer o bairro, a tratar de assuntos e a cuidar dos objetos de que mais gostava em casa.
Os meios de comunicação espanhóis avançaram que fotografias de família a preto e branco estavam entre os poucos objetos que levou consigo para o hospital.
“Maricarmen só queria morrer em casa. Não pedia mais nada”, disse Eugenio Melchor, de 22 anos, no protesto em Madrid.
“Estava a morrer em casa e quase conseguiu. Mataram-na. Não há outra palavra para o dizer e espero que os responsáveis por isto sejam punidos e levados a tribunal.”