Proposta de orçamento francês prevê aumento de 1,2 mil milhões de euros para o Ministério da Educação Nacional, numa altura de défice público na zona euro.
Decorreu na terça-feira em França mais um grande dia de manifestações, com estudantes e sindicatos a saírem à rua para contestar as condições de ensino e o financiamento, numa altura em que a Assembleia Nacional iniciava o debate sobre as propostas de orçamento do governo para 2027.
Os sindicatos de professores disseram à Euronews estar insatisfeitos com a resposta do governo às preocupações sobre dias letivos demasiado longos, turmas sobrelotadas, instalações degradadas e faltas de docentes.
“É claro que as respostas apresentadas são insuficientes e não correspondem às necessidades identificadas”, afirmou Elisabeth Allain-Moreno, secretária-geral do SE UNSA, sindicato de professores.
O ministro da Educação francês, Édouard Geffray, anunciou a 8 de outubro que 3.000 professores suplentes disponíveis seriam destacados até terça-feira para mais de 500 escolas prioritárias, numa tentativa de colmatar as ausências de docentes.
Esta terça-feira, informou que apenas 35% da meta tinha sido atingida.
“Temos uma geração que está a formular reivindicações que identificámos há anos, que temos defendido e que nunca foram ouvidas”, disse à Euronews Morgane Verviers, secretária-geral da UNSA Éducation.
“É claro que as respostas apresentadas são insuficientes e não correspondem às necessidades identificadas”, acrescentou Allain-Moreno.
França: proposta de orçamento contestada
A proposta de orçamento do governo prevê um aumento de 1,2 mil milhões de euros no financiamento do Ministério da Educação Nacional, numa altura em que França enfrenta um dos maiores défices públicos da zona euro.
Mas os críticos consideram a medida insuficiente, argumentando que um aumento de 1,6% nas verbas fica aquém da inflação, prevista em 1,8%.
Sabrine Kharbach, porta-voz da l'Union Étudiante, o maior sindicato estudantil de França, afirmou sentir que o governo subestimou a capacidade dos estudantes para compreenderem questões orçamentais.
“Pensam que os estudantes e os jovens não têm consciência da economia e não percebem o que está a acontecer. Mas nós percebemos bem, quando vemos que há mais 400 mil milhões de dólares a serem atribuídos às forças armadas”, disse Kharbach à Euronews. O governo francês destinou, ao abrigo da Lei de Programação Militar (LPM), um orçamento total de 413,3 mil milhões de euros às forças armadas para o período de 2024 a 2030.
“Temos de nos perguntar se querem investir na morte ou no futuro”, acrescentou.
Uma estudante do ensino secundário disse sentir que a sua geração não está a ser levada a sério, apesar de ser “o futuro de França”.
“Não podemos fechar os olhos aos problemas, sobretudo nas escolas secundárias da periferia, que têm mesmo falta de financiamento”, afirmou.
A ativista sueca Greta Thunberg juntou-se também aos protestos de terça-feira, afirmando à agência noticiosa AFP que “os jovens não estão a ser incluídos na conversa”.
“O nosso futuro está a ser-nos roubado”, acrescentou.
A visita de Thunberg a França ocorre depois de o descontentamento dos estudantes franceses ter encontrado eco entre jovens em toda a Europa, levando alunos na Bélgica e em Itália a organizarem as suas próprias manifestações na última semana.
Jean-Luc Mélenchon, líder do partido da esquerda radical La France Insoumise (LFI), esteve também entre os que se juntaram aos protestos.
Numa publicação na rede X, a 8 de outubro, declarou que a Bastilha tinha sido “reconquistada”, depois de uma manifestação de massas na praça da Bastilha, em Paris, ter captado a atenção de públicos em todo o mundo.
França: violência policial gera indignação
As manifestações e os bloqueios de escolas em França começaram nas periferias de Paris em meados de setembro, antes de se espalharem rapidamente por todo o país.
Embora muitas ações de protesto tenham sido pacíficas, outras foram marcadas por motins paralelos e confrontos com a polícia.
Organizações de direitos humanos acusam os agentes de usarem força desproporcionada ao lidarem com os manifestantes, após uma vaga de ferimentos entre estudantes.
Segundo dados divulgados na sexta-feira pelo Ministério da Justiça francês, foram efetuadas 6 877 detenções desde o início do movimento, envolvendo sobretudo menores.
Mais de 215 estudantes e quase 800 agentes policiais ficaram igualmente feridos.