Ali-Sina Mostafavi, de 38 anos, alpinista e músico natural de Kerman, foi executado sob a acusação de "inimizade contra Deus", após ter sido acusado de disparar contra civis e soldados durante os primeiros meses da guerra.
O Irão executou um prisioneiro político em Kerman na quarta-feira, acusado de ter levado a cabo ataques armados durante o que o poder judicial iraniano descreveu como operações militares conjuntas entre os Estados Unidos e Israel em solo iraniano.
A agência de notícias Mizan, órgão oficial do poder judicial iraniano, identificou Ali-Sina Mostafavi, de 38 anos, como um dos «agentes armados do inimigo americano-sionista» e acusou-o de ter aberto fogo contra civis na Praça Azadi, em Kerman, a 24 de março, ferindo uma pessoa e uma menina.
Segundo a Mizan, ele também disparou contra soldados recrutados e veículos que passavam no dia 21 de abril, ferindo mais civis.
O poder judicial acusou-o ainda de participar em protestos em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, que as autoridades iranianas designam por “protestos de Dey” e descrevem como uma tentativa de golpe de Estado. Além disso, é também acusado de enviar imagens para órgãos de comunicação em persa sediados fora do Irão, que Teerão classifica como hostis.
Entre os materiais apreendidos a Mostafavi, natural da cidade de Bam, encontravam-se uma espingarda Brno com mira telescópica, uma caçadeira, uma segunda caçadeira sem licença, 246 munições para a Brno e 30 cocktails Molotov, segundo o poder judicial.
Mostafavi, que tocava tar e tinha feito uma ascensão solitária ao cume Island Peak, nos Himalaias, além de ter tentado escalar o Ama Dablam, atingindo os 6 600 metros, estava detido na prisão de Shahab, em Kerman. Nos últimos dias foi colocado em regime de isolamento e a família foi chamada para uma última visita.
Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão, descreveu Mostafavi na rede X como “um jovem patriota”, condenado após confissões forçadas obtidas sob tortura em julgamentos que classificou como encenados, e apelou a que outros se pronunciem em defesa dos prisioneiros políticos ameaçados de execução.
A acusação que recaía sobre Mostafavi, moharebeh, ou “inimizade contra Deus”, corresponde na legislação iraniana a pegar em armas contra a vida, os bens ou a honra das pessoas, de forma a criar insegurança.
Teerão recorre há décadas a esta figura para reprimir opositores, críticos e manifestantes.
Irão regista segunda execução esta semana
Dois dias antes, a agência Mizan confirmou a execução de Omar Dorastaran, de 25 anos, identificado pelo poder judicial como membro do grupo militante sunita Jaish al-Adl.
Foi acusado de ajudar membros do grupo a entrar no Irão, de organizar alojamento e transporte e de prestar apoio a ataques contra forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) na província de Sistão e Baluchistão, incluindo o ataque à base de Paroud e ofensivas de março de 2024 contra instalações militares em Chabahar.
O ataque de 2024 ao posto policial de Rask foi um dos mais mortíferos levados a cabo por grupos armados no sudeste do Irão. Morreram onze elementos das forças de segurança.
Dorastaran, solteiro e originário da aldeia de Cheraghan, no condado de Rask, estudava numa escola religiosa na cidade de Pishin quando foi detido, segundo organizações de direitos humanos.
O meio de comunicação local Halvash, em Sistão e Baluchistão, informou que foi detido sem mandado, mantido durante um longo período sem visitas nem chamadas telefónicas e que agentes de segurança procuraram obter confissões forçadas através de tortura.
Sistão e Baluchistão, uma das províncias mais pobres do Irão, tem sido há muito palco de confrontos armados entre forças de segurança e grupos militantes sunitas e organizações armadas baluches. Os combates na província intensificaram-se nas últimas semanas.
A Amnistia Internacional, na terça-feira, condenou a execução de cinco homens, num único período de uma semana, em casos ligados aos protestos de janeiro, e pediu pressão internacional coordenada sobre Teerão para travar novas execuções.
A organização afirma que a República Islâmica recorre de forma sistemática à pena de morte para intimidar opositores e aumentar o custo do protesto. O Irão executou pelo menos 2 159 pessoas em 2025, segundo a Amnistia.