Encontra-nos
Publicidade

De Werwulf a um Batman dos anos 1930: principais ideias da masterclass de Robert Eggers em Lumière

Robert Eggers no Festival de Cinema Lumière
Robert Eggers no Festival de Cinema Lumière -  Direitos de autor  David Mouriquand
Direitos de autor David Mouriquand
De David Mouriquand
Publicado a
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

Exclusivo mundial de “Werwulf”, olhos de Lily-Rose Depp em destaque e o horror intemporal de “Alien”, de Ridley Scott: Robert Eggers anima o público no Festival Lumière de Lyon

Convidado de honra na edição deste ano do Lumière Film Festival foi o realizador norte-americano Robert Eggers, a mente por detrás de pérolas de terror gótico-folclórico como The VVitch, The Lighthouse e Nosferatu.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Antes da estreia do seu novo filme, Werwulf, um terror de lobisomens passado na Inglaterra do século XIV, com o veterano de Nosferatu Aaron Taylor-Johnson, Lily-Rose Depp e Willem Dafoe, o realizador sentou-se com o público de Lyon para falar dos mundos sombrios e imediatamente reconhecíveis que tem criado no grande ecrã.

Infelizmente, não houve tempo para perguntas sobre o próximo projecto do realizador, uma adaptação de “Romeo and Juliet”, e foi dado muito pouco espaço ao público para colocar questões. Trata-se de um problema recorrente no Festival Lumière e é uma pena, porque as únicas duas perguntas feitas pelos participantes na masterclass de Eggers foram excelentes.

Ainda assim, o público do Lumière teve direito a um verdadeiro exclusivo mundial: a primeira exibição do início de Werwulf, antecedida por Eggers a avisar que o processo de correcção de cor é complexo e que ainda estava a limar algumas arestas no laboratório.

Aviso: ligeiros spoilers sobre as cenas iniciais de Werwulf

Werwulf
Werwulf Focus Features

O filme começa com um uivo na escuridão, seguido da primeira transformação (não a última, como Eggers confirmou). Há vómitos, gritos, contorções, ossos a estalar. Pode dizer-se que Eggers, fiel ao seu costume, leva a autenticidade mítica muito a sério e entrega algo que vai muito além da súbita explosão de pelos na cara... É significativamente mais visceral do que qualquer outra transformação de terror corporal que vimos em filmes de lobisomens.

O público mal conseguiu vislumbrar a forma final da criatura, mas viu as consequências. Neste caso, muito gado morto. Segue-se uma figura ensanguentada (Taylor-Johnson), já em forma humana, que bate a uma porta e é recebida por uma mulher desfigurada (Depp) de uma forma, digamos, bastante singular, o que sugere que Eggers vai abordar aquele espaço complicado onde violência, animalidade e sexualidade coexistem.

Fica a sensação de que nos espera um belo festim quando estrear o novo filme de terror de Eggers e, se gostou de Nosferatu, há boas hipóteses de também se entusiasmar com este. Werwulf chega no próximo ano, a 1 de janeiro no Reino Unido e na semana seguinte na Europa continental.

Antes de ganharmos mais pesadelos à luz da lua cheia, eis as principais ideias da masterclass de Robert Eggers.

Sobre o que anda a ver

“Todos os meus realizadores preferidos já morreram e revejo muitos filmes – vejo The Innocents, de Jack Clayton, uma vez por ano, e há muitos filmes a que volto frequentemente. Na verdade, tenho dificuldade em acompanhar o que está nas salas às vezes, porque estou sempre a tentar riscar da lista filmes antigos que, em geral, têm a ver com a investigação para aquilo em que estou a trabalhar.”

Sobre a importância do cinema mudo

“Adoro cinema mudo. Toda a gente conhece a história: quando surgiu o cinema sonoro, houve uma quebra na forma como se usavam as imagens para contar histórias e tudo passou a girar em torno do diálogo. Claro que há excepções à regra. Fritz Lang percebeu imediatamente como fazer. Penso que consegui, em Werwulf, fazer um filme em que se pode desligar o som e, ainda assim, perceber a história. As imagens é que contam a história. Werwulf é também em inglês médio, um inglês arcaico, mas, para o público anglófono que não tem o benefício das legendas, não é realmente necessário perceber o que as personagens dizem para entender a narrativa. Ontem à noite estava a ver 12 Angry Men e é óptimo – é um filme assente no diálogo e é cinema. Mas interessa-me mais contar histórias com imagens.”

Sobre a recorrência dos olhos das mulheres nos seus filmes

“Os olhos são a janela da alma... E a Anya (Taylor-Joy – The VVitch) e a Lily-Rose (Depp – Nosferatu) têm olhos grandes, o que ajuda! Pode ser uma disciplina frustrante para os actores, às vezes... Em The Odyssey, o Christopher Nolan roda com câmaras IMAX, que são tão grandes que os actores não se conseguem ver uns aos outros, e foi preciso criar um sistema de espelhos para que se pudessem olhar. Eu costumo pôr um pequeno pedaço de fita junto à lente, por isso os actores têm muitas vezes de olhar para a câmara... Gosto sempre de linhas de olhar muito apertadas... Veja Come and See, de Elem Klimov, e percebe porque é boa ideia fazer isso!”

Robert Eggers no Festival de Cinema Lumière
Robert Eggers no Festival de Cinema Lumière David Mouriquand

Sobre porque é que o passado o inspira mais do que o mundo moderno

“Já tenho realismo suficiente na minha própria cozinha! O cinema é sempre um espelho da sociedade, mas, se o espelho está demasiado perto, sinto que o filme pode estar a esforçar-se demasiado por dizer alguma coisa. Tentar fazer um filme que seja intemporal e, ao mesmo tempo, do seu tempo... É impossível. Claro que não vivo num vácuo e, se estivesse a fazer um filme de época para um público exclusivamente dessa época, ou um filme de vikings para um público de vikings, isso seria um problema! Mas, ao tentar mergulhar não só na verosimilhança do mundo físico da época, como também no mundo interior desse tempo, penso que podemos ver com mais clareza quem somos hoje e para onde vamos.”

Sobre o uso de línguas específicas

“A língua é sempre muito específica em todos os meus filmes e gosto da forma como a linguagem molda o pensamento. A linguagem não é perfeita e não consegue exprimir tudo. Quando se aprendem outras línguas, aprendem-se diferentes maneiras de pensar. ‘Ah, na Alemanha há uma palavra para esse conceito que eu tenho dificuldade em descrever...’.”

Sobre o facto de tantas cenas se passarem à noite

“Detesto filmagens noturnas! Quanto mais velho fico, mais difícil se torna! Mas, se se faz um filme de vampiros ou de lobisomens, não há alternativa. Não gosto do final de Nosferatu, porque não funciona verdadeiramente. O monstro, o vampiro propriamente dito, tem poder na escuridão. Mas, quando não se vê o monstro, ele também tem poder. Como em Alien, de Ridley Scott. Quando se aponta uma luz forte ao monstro, mata-se a ilusão – porque então vemos o Bill Skarsgård com maquilhagem.”

Robert Eggers no Festival de Cinema Lumière
Robert Eggers no Festival de Cinema Lumière David Mouriquand

Sobre como seria um filme de Batman realizado por Robert Eggers

“Circula na internet o rumor de que eu ia fazer um Batman a preto e branco, passado nos anos 30, como filme de detetives... Só se pode fazer um número finito de filmes numa vida, por isso não faria um filme de banda desenhada. Mas, se pudesse fazer uma quantidade infinita, isso até podia ser divertido! Um Batmobile Rolls-Royce dos anos 30, alguém?”

Sobre criar um novo monstro de raiz, que não seja inspirado em mitos ou folclore

“Não sou muito criativo! Leio algo que ainda não vi e faço isso! Há uma parte de mim que sente esta ligação ao passado e a necessidade de o preservar. Por exemplo, a ideia de as bruxas se transformarem em lebres é comum no folclore britânico e céltico, mas, na América, essa ideia perdeu-se por completo.”

Sobre o que define um monstro

“É sempre um reflexo de nós. (...) Qual é o trauma que não morre? (...) Há muitos realizadores de terror contemporâneos que admiro, mas a referência para uma criatura continua a ser, para mim, Alien, de 1979. O design do (H.R.) Giger – é um falo com uma vagina... Somos nós. E, além disso, não tem olhos, o que lhe dá poder. Este é muitas vezes o problema dos filmes de lobisomens – os olhos do lobisomem não estão certos e percebe-se que é alguém dentro de um fato. Em Alien, a criatura é fria, o que a torna mais ameaçadora.”

Werwulf estreia a 25 de dezembro nos EUA e no Canadá e no início de janeiro de 2027 nas salas de cinema europeias

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Tsui Hark no Festival Lumière: “Não sabemos para onde o futuro nos leva”

Todd Haynes: "É um momento para nos lembrarmos de como é importante proteger as nossas liberdades"

De Werwulf a um Batman dos anos 1930: principais ideias da masterclass de Robert Eggers em Lumière