"Não tenho nada a esconder", respondeu o candidato do PL sem clarificar se aceitava. Flávio prometeu declarar “guerra ao narcoterrorismo” e Lula chamou-lhe "miliciano". Após ser acusado de subordinação aos EUA, senador disse que foi à Casa Branca defender empresas brasileiras.
O primeiro debate presidencial entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, emitido na TV Bandeirantes (Band), ficou marcado por acusações mútuas de corrupção, provocações, ataques pessoais e gritos da plateia que obrigaram os moderadores a fazer várias intervenções.
Num debate tenso de duas horas, dividido em três blocos, os candidatos tiveram oportunidade de expor o que pensavam em matéria de saúde, economia, justiça e política internacional, mas a inimizade entre os dois retirou espaço à discussão de propostas.
Um dos principais momentos da noite foi protagonizado pelo atual presidente, que respondeu às acusações de corrupção feitas pelo rival com um desafio.
"Amanhã, abrimos a nossa conta bancária, abrimos o nosso sigilo telefónico para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país. Para que o povo saiba quem é ladrão. Porque, senão, o povo será enganado outra vez", atirou Lula, propondo a entrega dos dados financeiros à Justiça Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal (STF) antes da segunda volta para permitir que os eleitores avaliem o património de cada candidato.
"Não tenho nada a esconder", respondeu Flávio Bolsonaro, sem esclarecer se aceitava o repto. O senador do Partido Liberal (PL) acusou, de seguida, o líder do governo federal de movimentar dinheiro "por fora" e mencionado as alegadas doações irregulares recebida pelo Instituto Lula.
O candidato da direita lembrou que Lula foi condenado por lavagem de dinheiro e o petista contra-atacou com o caso do Banco Master, questionado o adversário, pelo menos sete vezes, sobre uma alegada negociação no valor de 134 milhões de reais (cerca de 23,6 milhões de euros) com o banqueiro, ex-proprietário da instituição.
Presidiários votam Lula, disse Flávio. "Eu quero que votem 100%, até o teu pai", ironizou o presidente
Na parte do frente a frente dedicada à segurança pública, Flávio Bolsonaro prometeu declarar “guerra ao narcoterrorismo” e classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas.
Por sua vez, Lula da Silva manifestou a intenção de criar o Ministério da Segurança Pública e defendeu uma atuação conjunta dos governos federal, estadual e municipal para recuperar territórios controlados por organizações criminosas e milícias.
Flávio acabaria por recordar que os presidiários votaram massivamente em Lula há quatro anos e que essa tendência voltou a verificar-se em 2026 com uma votação de quase 73%. O chefe de Estado recorreu à ironia.
"Eu quero que votem 100%, até o teu pai. O teu pai pode votar em mim (...) Ele conhece-te e ele sabe que eu sou melhor que tu".
As famílias dos candidatos foram armas de arremesso dos dois lados. No arranque do confronto, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) perguntou ao filho de Jair Bolsonaro o que ele tem "contra as mulheres", tendo em conta que Flávio votou contra a ampliação da licença de maternidade para as trabalhadoras públicas.
O ex-deputado estadual do Rio de Janeiro fugiu ao assunto e perguntou se Lula conhecia Roberta Luchsinger, uma lobista investigada a par de Lulinha, filho do presidente. Luchsinger é "assunto da Polícia Federal", retorquiu o petista, antes de deixar claro que, ao contrário de Jair Bolsonaro, não iria proteger o próprio filho de investigações judiciais.
"Está tudo caro"
Flávio Bolsonaro fez duras críticas à gestão económica de Lula da Silva, ao repetir que as políticas do governo levaram a um aumento acentuado do custo de vida.
"Está tudo caro", declarou. Uma tese que Lula rebateu com números.
"Nos quatro anos do governo deles, a inflação de alimentos foi de 56,17%. Agora, nos meus quatro anos, está 13%. Quatro vezes menos", sublinhou.
O senador atribuiu o aumento do endividamento à "gastança" do executivo e afirmou que o atual presidente usa o programa Bolsa Família com objetivos eleitorais.
Lula puxou para o bate-boca o fim da escala 6x1, isto é, a aprovação no Senado de cinco dias de trabalho e dois de descanso, para perguntar ao adversário se queria propor alterações à medida, com Flávio a responder que não. Isto porque, durante meses, o filho de Jair Bolsonaro fez oposição ao projeto e chegou mesmo a considerá-lo oportunista, acabando, porém, por votá-lo favoravelmente.
Já na fase final do debate, Lula da Silva pressionou Flávio sobre a proximidade deste com o presidente da Argentina, perguntando-lhe se queria implementar no Brasil o modelo económico de Javier Milei. Flávio voltou a ser evasivo e limitou-se a dizer que os governos de direita têm de “consertar” os problemas criados pela esquerda.
Lula: irmão de Flávio "instiga golpe contra o Brasil"
No que respeita à política externa, o candidato do PT perguntou a Flávio se, uma vez no poder, concederia a exploração de terras raras brasileiras aos Estados Unidos.
O senador do PL negou qualquer doação de recursos e falou em "parceria estratégica" com Washington, acrescentando que foi à Casa Branca para defender empresas e produtos brasileiros.
Lula insistiu no tema e acusou a família Bolsonaro de subordinação aos interesses americanos.
“Seu irmão está fugido nos Estados Unidos, tramando contra o Brasil. Tramando contra o Brasil, pedindo intervenção do Trump no Brasil”, afirmou Lula. "Pedindo intervenção do Trump no Brasil. Na manifestação de vocês tinha um torpedo americano. O que vocês estão fazendo é trair a Pátria, e vocês serão julgados por isso", disse o atual presidente.