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França: porque a caveira de One Piece se torna símbolo de protesto?

Anime japonês One Piece torna-se referência constante nos protestos em França
Anime japonês popular One Piece surge frequentemente como referência nos protestos em França -  Direitos de autor  Instagram screenshot - AP Photo
Direitos de autor Instagram screenshot - AP Photo
De David Mouriquand
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Cultura pop torna-se expressão de revolta: a geração Z adopta um símbolo de manga nas manifestações. Eis porque a bandeira de One Piece é hoje um emblema reconhecido de protesto em França e noutros lugares.

Quando os jovens desafiam o sistema, recorrem muitas vezes a obras de ficção ou à iconografia da cultura popular nas suas manifestações, e algumas imagens e símbolos acabam por transformar‑se em inesperados gritos de mobilização.

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Entre faixas, cartazes e palavras de ordem que se veem nas ruas de França, surge frequentemente uma bandeira negra com uma caveira sorridente de chapéu de palha.

O emblema pirata é imediatamente reconhecido pelos fãs da manga One Piece: trata‑se da “Jolly Roger”, um dos logótipos mais conhecidos da cultura popular.

Esta iconografia já tinha aparecido nas manifestações de setembro do ano passado em França e voltou a surgir nos atuais protestos estudantis e nas marchas de rua pelo país – bem como na Bélgica, em Itália e na Grécia.

Como é que a bandeira pirata de One Piece se transformou num símbolo contra a repressão e a corrupção governamental, que hoje se vê em vários países e por todo o continente?

A título de enquadramento. Para quem não conhece One Piece, trata‑se de uma popular manga japonesa criada por Eiichiro Oda. Em linhas gerais, acompanha as aventuras dos Piratas do Chapéu de Palha, que defendem os oprimidos por líderes repressivos e pela corrupção autoritária – uma luta contra a tirania sob a sua bandeira, a “Jolly Roger”.

Publicada pela primeira vez em 1997 – ano que coincide com o início da Geração Z – a manga tornou‑se num fenómeno mundial, com mais de 500 milhões de exemplares vendidos e traduções em 40 línguas. Detém o recorde do Guinness para o maior número de cópias publicadas de uma mesma série de banda desenhada por um único autor e deu origem a uma série de animação para televisão, a uma adaptação em imagem real na Netflix e a vários filmes.

Em França, a série é extremamente popular e os volumes são sucessos de vendas.

Manifestante em frente à sede da ONU usa uma bandeira de One Piece enquanto Benjamin Netanyahu fala no interior - 26 de setembro de 2025
Manifestante em frente à sede da ONU usa uma bandeira de One Piece enquanto Benjamin Netanyahu fala no interior - 26 de setembro de 2025 AP Photo

Ao longo dos anos, a bandeira da caveira sorridente tem marcado presença em protestos no Nepal, Indonésia, Filipinas, Marrocos, Itália e Reino Unido, e tem sido omnipresente nas manifestações que têm abalado França nas últimas semanas.

Quer a imagem de One Piece surja em protestos estudantis, em marchas contra a violência policial, em manifestações contra proibições governamentais nas redes sociais ou em concentrações pró‑Palestina, o denominador visual comum mostra como o símbolo da manga ressoa junto da Geração Z, que o adotou como emblema de desafio e, em última análise, de esperança.

Não se trata de um símbolo inesperado, já que, na obra original, representa a liberdade e a resistência à opressão para um grupo de rebeldes improvisados. E agora, na vida real, fala a uma juventude desiludida e a uma Geração Z ansiosa por ser ouvida.

A entrada do mundo ficcional no mundo real é um movimento útil, já que as narrativas e os seus valores não se limitam a fronteiras ou causas, criando assim um sentimento global de união e uma linguagem comum de solidariedade. É também uma transferência vantajosa: transformar referências ficcionais em emblemas reais de contestação torna estes símbolos mais difíceis de suprimir por governos que procuram continuar a apresentar‑se como anti‑autoritários.

A utilização da Jolly Roger volta a mostrar que cultura e política estão indissociavelmente ligadas – sobretudo para jovens ativistas e para uma geração habituada ao digital, que recorre às redes sociais para expressar ideias e receios através de referências culturais.

Há muitos precedentes, já que a bandeira Jolly Roger não é o único símbolo da cultura popular usado em protestos ao longo dos anos.

Eis cinco exemplos de referências culturais usadas como expressão política nos últimos 15 anos.

V de Vingança

V em V de Vingança
V em V de Vingança Warner Bros. Pictures

Inspirado pelo filme “V de Vingança”, de 2005, o grupo hacktivista internacional Anonymous começou a utilizar a icónica máscara de Guy Fawkes para ocultar a identidade dos seus membros durante protestos. A máscara popularizou‑se em 2011, com o movimento “Occupy”, e permanece como rosto da dissidência, apontando aos sistemas e governos corruptos. Como afirma V: “As pessoas não devem ter medo dos seus governos – os governos é que devem ter medo das suas pessoas.”

Os Jogos da Fome

Os Jogos da Fome
Os Jogos da Fome Lionsgate

A série de livros juvenis de Suzanne Collins e os filmes protagonizados por Jennifer Lawrence incluem vários símbolos de resistência, desde o alfinete do Mockingjay ao gesto da saudação de três dedos. Este gesto silencioso de desafio foi usado pela personagem Katniss Everdeen para demonstrar solidariedade com os oprimidos e, desde 2014, tem sido visto em protestos que vão das manifestações contra o golpe militar na Tailândia às marchas em Hong Kong pelo sufrágio universal.

The Handmaid’s Tale

The Handmaid’s Tale
The Handmaid’s Tale Hulu

Em 2017 e 2018, mulheres em todo o território dos Estados Unidos vestiram capas escarlates e toucas brancas inspiradas em “The Handmaid’s Tale”, de Margaret Atwood, em resposta a legislação anti‑aborto e políticas que ameaçavam os direitos reprodutivos das mulheres. No livro e na série televisiva distópicos, as aias são obrigadas a usar esse uniforme sob a lei de Gilead, o país ficcional onde as mulheres férteis são forçadas a servir como gestantes. O traje reaparece com frequência em manifestações pelos direitos das mulheres em todo o mundo – das mobilizações de 2018 pela legalização do aborto na Argentina aos protestos de 2019 contra as visitas do presidente norte‑americano Trump ao Reino Unido.

Joker

Joker
Joker Warner Bros. Pictures

Na sequência da guerra civil, manifestantes libaneses que protestavam em 2019 contra novas medidas de austeridade do governo adotaram a imagem do Príncipe Palhaço do Crime, inspirando‑se na maquilhagem de Joaquin Phoenix em Joker. É um disfarce reconhecido em todo o mundo, que concede anonimato aos manifestantes e, no caso dos libaneses, permitiu dar maior visibilidade à sua luta. Joker funciona também como símbolo de rebelião, personificando o desprezo pelas normas e convenções sociais. Assim, o uso da cara de palhaço é um lembrete para abraçar a irreverência face à ordem estabelecida, o que torna esta figura um emblema popular em protestos à escala global.

Pepe the Frog

Manifestantes pró‑democracia usam máscaras de Pepe the Frog durante uma marcha em Hong Kong
Manifestantes pró‑democracia usam máscaras de Pepe the Frog durante uma marcha em Hong Kong AP Photo

A extrema‑direita, o movimento MAGA e o próprio Trump, que publicou no Twitter um meme de Pepe durante a campanha presidencial norte‑americana de 2016, adotaram o sapo verde como forma de captar o público jovem. O cartoonista norte‑americano Matt Furie criou a imagem em 2005 e ficou revoltado com a forma como a sua criação foi apropriada num registo de ódio. Antes de “matar” a personagem numa banda desenhada de 2017, escreveu um ensaio para TIME (fonte em inglês)em 2016, onde afirmou: “É completamente absurdo que Pepe tenha sido rotulado como símbolo de ódio e que racistas e anti‑semitas estejam a usar um sapo, antes pacífico, da minha banda desenhada como ícone de ódio.” Apesar de Pepe ter sido usado pela extrema‑direita no Ocidente, foi reapropriado e recuperado por manifestantes em Hong Kong nas manifestações pró‑democracia de 2019.

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