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França: prejuízos dos motins duplicam, quem paga milhares de lojas arruinadas

Pessoas passam por uma loja saqueada após violência durante protestos contra o aumento do custo de vida e as más condições escolares, em Paris, 19 de outubro de 2026
Pessoas passam diante de loja saqueada após violência em protestos contra o custo de vida e más condições escolares, Paris, 19 de outubro de 2026. -  Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved
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De Piero Cingari
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Pelo menos 3 000 lojas em França foram vandalizadas no fim de semana. Seguradoras dizem estar mobilizadas, mas as quebras de faturação podem não estar cobertas. Eis quem paga a fatura dos motins.

Número de lojas danificadas nos motins em França no fim de semana já ultrapassa as 3 000, o dobro do valor avançado apenas um dia antes.

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Ainda assim, as seguradoras, que deverão suportar grande parte da despesa, continuam sem estimativa do custo desta destruição.

A France Assureurs, federação do setor segurador francês, disse à Euronews que os seus membros estão “totalmente mobilizados para apoiar os segurados afetados”.

A federação não conseguiu adiantar uma estimativa inicial de perdas nem o número de participações já apresentadas.

A equipa de crise trabalha agora com as autoridades públicas em todo o país, após aquilo que a federação descreveu como “acontecimentos extremamente violentos”.

França: mercados recuam com subida da fatura dos danos

No domingo, o presidente executivo da Carrefour, Alexandre Bompard, que também lidera a federação do comércio retalhista FCD, estimou que cerca de 1 500 lojas tinham sido afetadas.

Apontou as perdas do setor para várias centenas de milhões de euros.

Na segunda-feira, a contagem do governo já chegava às 3 000.

Só a Carrefour reportou danos em 50 lojas, incluindo 20 saqueadas.

Os mercados financeiros estiveram também sob pressão na segunda-feira. O índice francês CAC 40 fechou a cair 1,1%, um desempenho pior do que o do Euro STOXX 600, que recuou 0,9%.

As ações da Carrefour desvalorizaram 2,2%, enquanto o grupo de luxo LVMH caiu 1,8%. Uma boutique Louis Vuitton em Marselha esteve entre as lojas assaltadas durante o fim de semana.

Os títulos do setor segurador também recuaram. Em Paris, a AXA perdeu 1,3% e a resseguradora SCOR 0,9%. Em Milão, a Generali caiu 2,3% e a Unipol desvalorizou 3,2%.

Os títulos de dívida pública francesa também sofreram pressão vendedora na segunda-feira.

A taxa de juro das obrigações a dez anos subiu cerca de oito pontos base, para 4,94%. A taxa equivalente da Alemanha aumentou menos de quatro pontos base.

A diferença entre os custos de financiamento de França e da Alemanha alargou-se para cerca de 148 pontos base.

França: o que os motins de 2023 revelam sobre os custos

França dispõe de uma referência recente para o que um fim de semana destes pode custar.

Os motins que varreram o país em junho e julho de 2023 provocaram 793 milhões de euros em perdas seguradas, segundo a France Assureurs.

As seguradoras trataram cerca de 17 000 processos, com uma média aproximada de 46 600 euros cada.

Dois terços do total, cerca de 523 milhões de euros, corresponderam a lojas e estabelecimentos comerciais. Um quarto, perto de 200 milhões de euros, foi para autarquias cujas câmaras municipais, escolas e autocarros tinham sido atacados.

Os automóveis representaram os 7% restantes.

Mesmo esses números não refletiram totalmente a dimensão da destruição.

Um inquérito posterior do Senado francês estimou os danos materiais em perto de mil milhões de euros. Parte das perdas nunca foi declarada e outras estavam apenas parcialmente cobertas pelo seguro.

A comparação é particularmente pertinente agora, porque o número de lojas afetadas parece ser mais elevado.

A CCI France contabilizou cerca de 2 500 empresas vandalizadas durante os distúrbios de 2023. A contagem governamental deste fim de semana já ultrapassou esse número.

França: novo regime de seguro contra motins ainda não está pronto

França procurou responder aos problemas de seguro expostos pelos motins de 2023 na lei orçamental de 2026.

A legislação torna obrigatória a cobertura de danos decorrentes de motins em determinadas apólices de seguro de bens e cria um fundo nacional para ajudar as seguradoras a absorver perdas significativas.

As seguradoras financiariam o fundo através de contribuições até 1,5% dos prémios relevantes, enquanto o Estado asseguraria garantias até 4 mil milhões de euros por ano.

Mas o regime ainda não entrou em vigor. Falta a aprovação da Comissão Europeia e um decreto de aplicação do governo.

Para as empresas atingidas pela violência deste fim de semana, isso significa que a indemnização dependerá dos contratos de seguro que já têm.

Seguro pode cobrir os danos, mas e as vendas perdidas?

A maioria das apólices francesas para lojas e edifícios inclui cobertura de “motim e perturbações civis”, segundo a France Assureurs.

Essa cobertura costuma pagar danos por incêndio, roubo, vandalismo e montras destruídas. Em geral também cobre os painéis de madeira e os vigilantes de que uma loja saqueada precisa nos dias seguintes.

É nas quebras de atividade que muitos lojistas ficarão desprotegidos.

A compensação por encerramento total ou parcial depende de uma cobertura opcional de interrupção de atividade.

Essa proteção indemniza a perda de margem bruta, não o volume de vendas, e normalmente apenas quando danos materiais cobertos pela apólice obrigaram ao fecho da loja.

Alguns contratos vão mais longe e pagam mesmo quando o estabelecimento não foi atingido. Isso só se aplica “nas circunstâncias expressamente previstas na apólice”, explicou a federação.

Em regra, os segurados têm cinco dias para comunicar o sinistro à seguradora, e a apresentação de queixa na polícia é condição prévia para certos tipos de cobertura.

Parte da fatura recai sobre o Estado

Na segunda-feira, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou que as empresas afetadas pelos distúrbios poderiam colocar trabalhadores em “activité partielle”, o regime de lay-off financiado pelo Estado francês, a partir de terça-feira.

Pediu ainda às autoridades locais que imponham recolheres obrigatórios seletivos e afirmou que será declarado estado de emergência “se necessário”.

Presidente Emmanuel Macron recusou a demissão do ministro do Interior, Laurent Nuñez, quando o número de detenções ultrapassou 2 400.

Cada euro de apoio pesa num orçamento que deverá registar este ano um défice de 5,4% do PIB, com a dívida pública em 119% do PIB.

E embora o valor final da fatura dos motins continue desconhecido, uma coisa torna-se evidente: o impacto irá muito além das lojas que foram atacadas.

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