Acções da Netflix recuam após resultados dececionarem investidores, numa altura em que o gigante do streaming enfrenta mais concorrência e prevê cortar cerca de mil postos de trabalho
As ações da Netflix caíram mais de 5% na terça-feira depois de os resultados trimestrais não terem dissipado as preocupações dos investidores com a desaceleração do envolvimento dos espectadores e do crescimento das receitas.
“Sabemos que há alguma preocupação dos investidores com o crescimento das horas de visualização”, afirmou a empresa numa carta aos investidores, referindo-se à forma como mede o envolvimento, acrescentando que está “confiante” de que conseguirá acelerar esse crescimento.
A gigante do streaming sediada na Califórnia tem tido dificuldades em corresponder às expectativas dos investidores há vários trimestres, numa altura em que enfrenta concorrência de outras plataformas, dos videojogos e do desporto.
A Netflix “tem ficado significativamente aquém nos últimos 6 a 12 meses” e os investidores estão preocupados “com tendências frágeis de envolvimento, um abrandamento do crescimento das receitas, uma perspetiva de expansão mais lenta das margens e, mais recentemente, alterações na liderança da equipa de conteúdos”, afirmou John Belton, gestor de carteiras na Gabelli Funds, num comunicado enviado à AFP.
No terceiro trimestre, terminado em setembro, a Netflix registou 12,87 mil milhões de dólares (11,09 mil milhões de euros) em receitas e 3,7 mil milhões de dólares (3,19 mil milhões de euros) em lucro líquido, valores acima das expectativas dos investidores, segundo a FactSet.
A empresa não divulgou valores globais para as horas de visualização dos subscritores no trimestre, mas assinalou que, na Índia, este indicador aumentou 24% face ao mesmo período do ano passado.
Em julho, a Netflix indicou que os subscritores passaram 97 mil milhões de horas a ver conteúdos na primeira metade do ano, um aumento de 2% face à primeira metade de 2025.
A empresa deixou de divulgar o número de subscritores na primeira metade de 2025.
Mas a empresa destacou o crescimento fora dos Estados Unidos, reconhecendo ao mesmo tempo os desafios no mercado norte-americano.
“Precisamos de executar melhor nos EUA. Os nossos conteúdos em todo o mundo estão, em grande medida, a funcionar”, disse o co-CEO Ted Sarandos aos investidores numa conferência com analistas na terça-feira, salientando o envolvimento, os subscritores, as receitas e os lucros na América Latina, Europa e Ásia.
“Os EUA também estão a funcionar. Simplesmente não estão a crescer tão depressa quanto poderiam ou quanto gostaríamos”, acrescentou Sarandos.
Cortes de postos de trabalho
Segundo vários órgãos de comunicação social, a empresa deverá também cortar cerca de 6% da força de trabalho, o que corresponde a 1000 postos de trabalho.
Entre estes estarão sete quadros de topo responsáveis por acordos televisivos e conteúdos, noticiou na semana passada a revista The Hollywood Reporter.
A empresa substituiu recentemente a diretora de conteúdos Bela Bajaria, que supervisionava séries de sucesso como “Stranger Things”, “Bridgerton” e “Squid Game”, além de ter impulsionado a estratégia de entretenimento em direto da empresa, segundo a CNBC.
A Netflix nomeou o antigo executivo da Disney Peter Rice como novo responsável máximo pelos conteúdos.
“Peter Rice conhece bem as relações com talentos e, num mercado competitivo, os criadores têm escolha sobre onde querem trabalhar”, afirmou Sarandos na chamada de terça-feira.
Formatos diversificados
A concorrência de outras plataformas de streaming obrigou a Netflix a reforçar o esforço para atrair e reter tanto os subscritores de planos tradicionais como os dos planos com publicidade.
A empresa tem apostado cada vez mais no desporto em direto – com acordos para transmitir grandes eventos como os Jogos Olímpicos e o Mundial – além de videojogos e conteúdos de formato mais curto. A NFL e a WWE também chegaram a acordo para transmitir eventos em direto.
Nos Estados Unidos, a plataforma alcançou 7,8% dos espectadores de televisão em streaming em julho, face aos 14,2% do YouTube, um recorde para o serviço detido pela Google, segundo a empresa de análise de audiências Nielsen.
De acordo com a Nielsen, o Mundial aumentou a audiência global de televisão em julho.
“É muito importante recordar que cerca de 95% da nossa despesa e quase todas as nossas receitas se concentram nesse núcleo, onde vemos uma longa margem para futuro crescimento”, afirmou Sarandos na chamada de terça-feira, sublinhando o compromisso com conteúdos tradicionais de televisão e cinema.
A empresa também ficou aquém das expectativas quanto ao crescimento das receitas de publicidade.
“Estamos atualmente um pouco atrás da nossa meta ambiciosa para o ano. Ainda assim, continuamos a crescer” na área da publicidade, afirmou o co-CEO Greg Peters na mesma chamada.
“Vemos benefícios à medida que continuamos a lançar outros produtos, como novos formatos de anúncios, que ajudam o nosso crescimento”, acrescentou Peters.