Preços de energia voláteis têm impulsionado os índices de preços no consumidor nas principais economias da UE. Agora quase duplicam a meta de inflação de 2% do BCE.
A taxa anual de inflação na Zona Euro foi estimada em 3,8% em setembro de 2026, face aos 3,2% registados em agosto, segundo os dados mais recentes publicados pelo Eurostat.
Espanha é o país mais afetado, com a inflação a subir para 5% devido ao aumento dos custos da energia. Na Bélgica, a taxa atingiu 4,69% (o valor mais elevado desde 2023) e em Itália chegou aos 4,2%. França manteve-se nos 3,4%, ainda abaixo da maioria dos seus vizinhos, enquanto a Alemanha subiu para 3,3%.
As estimativas são em grande medida impulsionadas por fortes aumentos nos preços do gás natural, da eletricidade e dos combustíveis para automóveis. A valorização do dólar norte-americano no final do verão agravou estas pressões, tornando mais caras as importações denominadas em dólares para os compradores da UE. O impacto varia entre setores e está a criar pressão financeira adicional sobre os agregados familiares europeus.
Europa: preços nas prateleiras dos supermercados sobem
O mais recente painel de condições dos consumidores da Comissão Europeia indica que 35% dos cidadãos temem não conseguir pôr comida na mesa.
A inflação dos alimentos e dos bens para o lar continua elevada, entre 3% e 7% consoante o país. A guerra no Médio Oriente e os choques energéticos daí resultantes mantêm as contas do supermercado acima dos níveis anteriores à pandemia, já que os preços dos combustíveis e do gás natural aumentam os custos de produção, transporte e fertilizantes.
Produtos essenciais como os laticínios registaram fortes subidas: a manteiga custa mais 50% do que antes da pandemia e o leite mais 40%. Café, chá, cacau, açúcar, chocolate e produtos de confeitaria foram particularmente afetados por fenómenos meteorológicos extremos e más colheitas.
A carne também se torna menos acessível, à medida que os choques energéticos fazem subir o custo das rações para animais. Os preços da carne de bovino, aves e porco continuam 30% acima dos níveis de 2019.
Os preços das batatas aliviaram temporariamente no início do ano, mas as ondas de calor e secas recorde nas regiões agrícolas europeias fizeram disparar os preços da fruta e dos legumes frescos. Os hortícolas custam agora mais 25% a 30%.
Entretanto, os bens embalados e produtos essenciais como alimentos para bebé foram atingidos pela “reduflação”: os fabricantes reduzem discretamente o tamanho das embalagens (por exemplo, diminuindo uma lata de leite em pó de 800 g para 750 g ou reduzindo o volume de detergente), mantendo os preços inalterados.
Para ajudar a enfrentar este problema, a UE introduziu regras de preços unitários que obrigam os retalhistas a indicar os preços por quilograma, facilitando aos consumidores a identificação de aumentos e a comparação entre produtos.
Paralelamente, o Banco Central Europeu (BCE) tem recorrido a subidas das taxas de juro para conter a inflação geral, embora estas não permitam responder diretamente a desafios do lado da oferta, como quebras de produção agrícola.
Para apoiar os agricultores confrontados com estes desafios, a UE lançou iniciativas como o Mecanismo Europeu de Preparação e Resposta a Crises de Segurança Alimentar (EFSCM), instrumentos de emergência da Política Agrícola Comum (PAC), incluindo seguros agrícolas subvencionados, fundos mútuos e regimes de estabilização de rendimentos, bem como financiamento do programa Horizonte Europa para inovação agrícola adaptada ao clima.
Europa: contas de energia e preços de gás e petróleo sobem
As faturas de energia pressionam também pelo menos 35 milhões de europeus que, segundo o Eurostat, vivem em situação de pobreza energética. A inflação da energia na zona euro disparou para 18,8%, agravando os custos noutros setores e nas contas dos consumidores.
Quase 40 milhões de europeus não conseguem manter as suas casas suficientemente quentes, enquanto 15% dos agregados familiares acumularam atrasos nas contas de serviços públicos. Na Bulgária (16,1%), na Grécia (18,1%) e em Portugal, cerca de 30% da população está a racionar o aquecimento de inverno para evitar o colapso financeiro.
A principal causa é a guerra entre os Estados Unidos e o Irão, com 20% do petróleo mundial a passar pelo estreito de Ormuz. O encerramento da passagem retirou do mercado uma média de 14 milhões de barris por dia. As travessias diárias de navios caíram de 129 para apenas 3 a 5 após a escalada. Petróleo bruto e 20% do fornecimento mundial de gás natural liquefeito (GNL) permanecem retidos na região.
No início deste mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, contornou as sanções ocidentais e acordou um “cessar-fogo energético” com Vladimir Putin, comprometendo-se a importar gasóleo russo barato antes das eleições intercalares norte-americanas. Isto deixa a UE sozinha a lidar com o encerramento do estreito e dependente de fornecimentos de energia reduzidos. A União tem de superar as ofertas dos compradores asiáticos por alternativas e recorrer a rotas de importação mais longas, o que aumenta ainda mais os custos.
Para ajudar países e cidadãos a enfrentar a situação, a UE procura acelerar um plano de resposta coordenada para proteger a população de picos nos preços da energia, gerir reservas estratégicas de petróleo e fornecer apoio de emergência.
Uma nova força-tarefa para a procura de energia e a Plataforma Europeia de Energia e Matérias-Primas (antiga AggregateEU) visam reforçar a cooperação e melhorar a segurança e a acessibilidade dos fornecimentos de energia. A nível nacional, medidas como proibições de cortes de fornecimento, tarifas de emergência e vales de energia direcionados podem ajudar a proteger os agregados familiares vulneráveis da subida dos custos.
A UE está também a analisar maior flexibilidade nos requisitos de armazenamento estratégico de energia, incluindo reduções potenciais até 80% para alguns países, para ajudar a gerir a pressão sobre o abastecimento e a volatilidade dos mercados.
Europa: crise da habitação
A subida dos custos da habitação é um dos principais motores dos protestos contra o custo de vida que se têm espalhado pela Europa nas últimas semanas, incluindo em Espanha, França, Portugal, Grécia e Itália.
Em comparação com a média anual de 2025, os preços das casas subiram mais do que as rendas em 19 países da UE, liderados por Portugal (+10,3%), Bulgária (+9,4%) e Eslováquia (+9,1%). As rendas aumentaram em todo o lado, exceto na Eslovénia (-0,9%) e na Finlândia, onde permaneceram inalteradas. Nos restantes, as maiores subidas registaram-se na Croácia (+21,9%), Bulgária (+6,4%) e Grécia (+5,0%), de acordo com o Eurostat.
A urbanização, o crescimento demográfico e a migração fizeram com que a procura de habitação ultrapassasse a oferta. A Comissão Europeia estima que, até 2035, a Europa precisará de mais de 2 milhões de novas casas por ano, enquanto o Eurostat apurou que os custos de construção aumentaram 56% entre 2010 e 2024.
Os custos elevados limitam a mobilidade laboral e levam a uma má distribuição de trabalhadores qualificados. Segundo o Fundo Monetário Internacional, ao longo da última década perderam-se cerca de um milhão de mudanças de residência ligadas ao trabalho dentro da UE porque os trabalhadores não conseguiam suportar o custo de se aproximar dos locais de emprego. As empresas têm dificuldade em atrair talento, o que limita o crescimento e a inovação e as obriga a relocalizar-se e a expandir-se noutros locais, fora das regiões de elevado custo.
Em setembro, a Comissão Europeia propôs a Lei da Habitação Acessível (Affordable Housing Act), a mais recente medida da UE para enfrentar a crise. O diploma define uma “zona sob pressão habitacional” como aquela em que o preço médio de uma casa equivale, pelo menos, a oito anos de rendimento disponível. Se as áreas atingirem este limiar, as autoridades podem intervir para proteger a acessibilidade e a disponibilidade da habitação, por exemplo limitando os arrendamentos de curta duração e o uso de segundas residências, ou reservando casas acessíveis para compradores pela primeira vez ou agregados familiares de baixos e médios rendimentos.
A lei baseia-se no Plano de Habitação Acessível de 2025 (Affordable Housing Plan) e no Plano Europeu de Ação para a Habitação (European Housing Action Plan) para aumentar a oferta e reduzir os custos de construção e licenciamento. Em setembro de 2026, a política de coesão acrescentou 4,7 mil milhões de euros aos 10,4 mil milhões já destinados à habitação energeticamente eficiente e à habitação social para pessoas vulneráveis. Os Planos de Parceria Nacionais e Regionais (NRP) irão aprofundar estes investimentos no âmbito do Quadro Financeiro Plurianual (QFP) da UE para 2028-2034.
Europa: custos da educação alimentam protestos estudantis em toda a UE
O relatório da UE “Investir na Educação” (2026) conclui que o investimento em educação se manteve estável em 9,7% da despesa pública total em 2024, mas continua 0,3% abaixo do nível registado antes da pandemia. A pressão da dívida está a levar os governos nacionais a cortar na despesa de educação. Prioridades geopolíticas e económicas em mudança estão a desviar fundos públicos para setores considerados mais urgentes, como a defesa e a energia.
Esta situação desencadeou protestos em meados de setembro, quando estudantes franceses saíram às ruas contra a falta de professores, turmas sobrelotadas e infraestruturas degradadas. As manifestações espalharam-se entretanto para a Irlanda, Portugal, Grécia e Bélgica, com estudantes a exigir propinas mais baixas, mais financiamento e políticas económicas melhoradas para aliviar a crise do custo de vida. Em França e Itália, os protestos tornaram-se violentos no último fim de semana, com confrontos com a polícia e centenas de detenções após semanas de ocupação de escolas e atos de vandalismo.
As gerações mais jovens na Europa exigem perspetivas de futuro estáveis através de sistemas de educação melhores, numa altura em que o aumento dos custos educativos aperta os orçamentos familiares e transforma o acesso à educação em algo menos associado a um direito e mais dependente da origem familiar.
Os custos de alojamento universitário aumentaram 11% em 2024, segundo o ICEF Monitor, enquanto o relatório mais recente da Erasmus Student Network conclui que as bolsas são insuficientes para cobrir o aumento do custo de vida para 35,63% dos estudantes.
Embora a educação continue a ser uma prioridade dos Estados-Membros, a UE apoia os investimentos nacionais. Os principais instrumentos no atual orçamento 2021-2027 incluem o programa Erasmus+ (26 mil milhões de euros), o Corpo Europeu de Solidariedade (1,01 mil milhões de euros), o programa de investigação e inovação Horizonte Europa (93,5 mil milhões de euros), o Fundo Social Europeu+ (95 mil milhões de euros) e o programa Europa Criativa (2,53 mil milhões de euros).
Numa perspetiva futura, a Comissão propôs 40,8 mil milhões de euros para o Erasmus+ no orçamento de longo prazo 2028-2034, incluindo apoio à habitação para estudantes, de modo a facilitar e ampliar o acesso à mobilidade, ao voluntariado e à aprendizagem. O Parlamento Europeu defende o aumento do financiamento para 47,39 mil milhões de euros e a introdução de mecanismos de apoio financeiro que tenham em conta as diferenças nos custos de vida e de habitação entre Estados-Membros.
O novo programa AgoraEU representa um desenvolvimento importante na área da educação. No âmbito do novo QFP, apoiará a cultura, os media e a sociedade civil, baseando-se em programas já existentes, como o Europa Criativa e o programa Citizens, Equality, Rights and Values (CERV).