O primeiro-ministro húngaro Péter Magyar queria receber em Budapeste líderes de topo para os 70 anos da revolução de 1956, mas convites tardios e desentendimentos com Paris e Kiev afastaram Macron, Tusk e Zelenskyy, ficando apenas Ursula von der Leyen e António Costa
O primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, tentou reunir em Budapeste vários dirigentes europeus para uma grande comemoração do 70.º aniversário da revolução de 1956, mas acabou por se confirmar a presença apenas da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, em representação da liderança da UE.
Os convites enviados demasiado tarde e as tensões diplomáticas contribuíram para a ausência de figuras-chave, entre elas o presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro polaco Donald Tusk e o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy.
Magyar planeado uma grande comemoração internacional esta sexta-feira, 23 de outubro, para assinalar o levantamento anti-soviético, afirmando, no dia seguinte à sua vitória eleitoral esmagadora, que queria receber em Budapeste alguns dos dirigentes mais importantes do mundo.
“Esperamos mesmo que, no 70.º aniversário da revolução de 1956, a 23 de outubro, quando recebermos aqui líderes mundiais, o secretário de Estado, o vice-presidente ou o presidente dos Estados Unidos possam visitar-nos”, disse Magyar aos jornalistas a 13 de abril.
Em junho, Magyar convidou pessoalmente Macron em Paris, estendendo convites semelhantes a Tusk em Varsóvia, ao presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, ao chanceler austríaco, Christian Stocker, e ao chanceler alemão, Friedrich Merz.
Cerca de 40 delegações estiveram em Budapeste, embora a maioria dos Estados-membros da UE estivesse representada por ministros ou presidentes de parlamentos e não por chefes de governo. Deslocaram-se também à capital húngara a presidente moldava, Maia Sandu, e o primeiro-ministro georgiano, Irakli Kobakhidze.
“Foi um erro terem criado expectativas tão elevadas”, afirmou István Szent-Iványi, especialista em assuntos externos e antigo diplomata, à Euronews. "A Europa e os seus Estados-membros enfrentam mil problemas e não acharam que valesse a pena vir”, acrescentou.
A Euronews contactou o governo húngaro, mas até ao fecho desta edição não tinha obtido resposta.
Convites tardios
Fontes próximas do governo húngaro, que falaram sob anonimato, disseram que a cerimónia foi dificultada por atrasos no envio dos convites oficiais, muitos dos quais só foram despachados em setembro, quando as agendas dos líderes já estavam preenchidas.
Tusk já tinha agendada uma deslocação à Índia, enquanto a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, planeava uma visita ao Kuwait.
Uma das fontes afirmou que o governo agiu de boa fé, mas que a comunicação entre o gabinete do primeiro-ministro e o ministério dos Negócios Estrangeiros foi deficiente.
“Vamos fazer melhor no futuro”, acrescentou a mesma fonte.
Declarações irritam Paris e Kiev
Os comentários de Magyar, que associaram os distúrbios em França à migração, podem ter contribuído para a decisão de Macron de não comparecer.
“Ao ver esta destruição sem sentido e esta violência injustificada, talvez fique agora claro para todos porque é que a Hungria assume a posição mais dura possível em relação à migração”, escreveu Magyar numa publicação nas redes sociais no último domingo, suscitando críticas na Hungria e em França.
No dia seguinte, a embaixada francesa em Budapeste anunciou que Macron não iria participar, sublinhando que a visita nunca tinha sido confirmada por Paris.
Na quarta-feira, Macron criticou aquilo a que chamou “comentários estúpidos” de dirigentes estrangeiros que ligam a migração aos distúrbios. Além de Magyar, o presidente dos EUA Donald Trump e o primeiro-ministro polaco Donald Tusk fizeram observações semelhantes.
“Houve pessoas a afirmar que fomos invadidos por hordas de migrantes e islamistas, o que é completamente falso”, disse Macron. “O facto é que todos os que falam mal do nosso país neste momento são pessoas que não gostam do nosso país. E essas pessoas irritam-me.”
Magyar enfrentou igualmente críticas pelo convite a Zelenskyy, como a Euronews noticiou em primeira mão na semana passada.
Na cimeira da UE em Bruxelas, Zelenskyy mostrou abertura para visitar Budapeste, mas Magyar desvalorizou essa possibilidade poucos dias depois. O conselheiro de Zelenskyy, Dmytro Lytvyn, também contestou essas declarações.
A Ucrânia está representada na comemoração desta sexta-feira pelo presidente do parlamento. O gabinete do presidente ucraniano afirmou que a visita foi organizada de forma independente e não pretendia substituir a presença de Zelenskyy.
Dániel Hegedűs, diretor-adjunto do Institut für Europäische Politik, considerou que as declarações públicas de Magyar não ajudaram a comemoração.
“Essas aparições nas redes sociais podem ser interpretadas como interferência na política interna francesa e, obviamente, não facilitaram a visita de Macron”, afirmou.
Acrescentou que a resposta de Magyar ao convite a Zelenskyy, ao dizer que todos tinham sido convidados, “passa a mensagem aos parceiros de que, venham ou não, isso não é uma questão estratégica”.
Geórgia: presença do primeiro-ministro gera polémica
A lista de convidados inclui também Irakli Kobakhidze, controverso primeiro-ministro da Geórgia. Bruxelas critica o partido Sonho Georgiano, de Kobakhidze, pelos seus estreitos laços com a Rússia, pelo papel que desempenhou ao desviar o percurso de integração da Geórgia na UE e pela repressão da dissidência.
“Sabemos que se trata de um regime pró-russo e repressivo, por isso não faz realmente sentido aqui, junto de um memorial à revolução de 1956. Mas aqui dizem que é uma questão de protocolo, todos foram convidados e ele disse que viria”, afirmou Szent-Iványi.
O Tribunal Constitucional da Geórgia iniciou audiências sobre um pedido do partido no poder para banir cinco partidos pró-ocidentais.
Von der Leyen e Costa marcam presença
Von der Leyen e Costa são as figuras europeias de mais alto nível presentes, sinalizando o apoio de Bruxelas às políticas pró-europeias de Magyar após o fim do mandato de Viktor Orbán.
“Há seis meses, o povo húngaro votou por um novo capítulo. Para virar a página de anos de divisão, de confiança erodida, de liberdades recuadas, de prosperidade minada”, declarou a presidente da Comissão Europeia em Budapeste.
Estava inicialmente previsto que Ursula von der Leyen e António Costa faltassem à comemoração devido a uma reunião entre a UE e o Conselho de Cooperação do Golfo, marcada para sábado em Riade. O adiamento desse encontro, na semana passada, abriu caminho para a presença de ambos em Budapeste.
Szent-Iványi considera que a ausência de dirigentes europeus de topo na cerimónia não significa que estejam a virar costas a Magyar.
“Esta é uma lista modesta de participantes; isso é um facto. Mas penso que a presença de von der Leyen confirmou a mensagem de que estas eleições significaram o regresso da Hungria à Europa”.