Vitória eleitoral da Lista dos Estudantes põe fim a 14 anos de poder de Vučić e alimenta esperanças de novo arranque com a UE, mas posição sobre sanções à Rússia e Kosovo deixa Bruxelas cautelosa.
A vitória esmagadora da Lista dos Estudantes nas eleições legislativas de domingo alimentou a esperança de que a Sérvia venha a reparar as relações com Bruxelas e relançar a candidatura à adesão à UE, mas continua pouco claro se Belgrado irá de facto alterar a sua política externa.
Ao fim de meses de protestos estudantis, o movimento conseguiu uma maioria absoluta no parlamento, pôs termo aos 14 anos de governação do Partido Progressista Sérvio (SNS) de Aleksandar Vučić e reforçou a expectativa de que o novo governo possa procurar laços mais estreitos com a UE.
“Estamos mesmo no início de um novo caminho. Mas, pelo menos, é um novo caminho. Não temos garantias de nada. Há apenas uma garantia: agora temos possibilidade, temos esperança. E isso é uma enorme conquista”, declarou à Euronews o eurodeputado Matjaž Nemec (Eslovénia/S&D).
Movimento de protesto
A Lista dos Estudantes é o braço eleitoral de um movimento liderado por estudantes que nasceu de uma catástrofe mortal numa estação ferroviária recentemente renovada, em novembro de 2024, episódio que levantou questões sobre a responsabilidade do governo e a corrupção.
Ao fim de quase dois anos, os protestos transformaram-se num desafio à escala nacional ao sistema político sérvio, exigindo reformas institucionais e responsabilização democrática e marcando uma ruptura histórica com os 14 anos de poder do SNS.
O movimento elegeu um conjunto de figuras exteriores à classe política tradicional, entre estudantes, professores, médicos, artistas e empresários.
Para Bruxelas, o facto de esta nova classe política ter raízes num movimento pró-democracia e anti-corrupção é um sinal encorajador de que Belgrado poderá alinhar-se com os valores da UE e avançar com reformas, há muito aguardadas, no Estado de direito.
Ao mesmo tempo, o movimento estudantil é muito heterogéneo, acolhendo por vezes posições divergentes, o que significa que, para lá da oposição a Vučić, continua pouco claro o que defende exatamente.
“Retirar Vučić do poder foi o pré-requisito para o futuro europeu da Sérvia”, afirmou à Euronews Jelena Vasiljević, investigadora sénior na Universidade de Belgrado. “Agora espero que possamos ter uma discussão aberta e democrática sobre o caminho de adesão à UE.”
Mudança democrática
A campanha porta a porta do movimento centrou-se na corrupção e na responsabilização, estabelecendo paralelos entre a derrota de Vučić e a saída de Viktor Orbán do poder na Hungria, ao fim de 16 anos. O novo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, concorreu com uma plataforma semelhante.
Magyar foi o primeiro líder estrangeiro a telefonar à Lista dos Estudantes para a felicitar pelo resultado. “Fiquei muito satisfeito por ouvir o quanto a nossa vitória em abril lhes deu força durante esta difícil luta”, escreveu na rede X.
A votação, considerada justa e competitiva, e a transferência pacífica de poder, depois de Vučić reconhecer a derrota, são vistas como prova de que o processo democrático na Sérvia está a funcionar.
Resta saber se a mudança de governo se traduzirá num alinhamento mais amplo com Bruxelas e em progressos na adesão à UE.
“Não é totalmente claro qual é a sua posição em matéria de política externa. Muitos países da UE vão acompanhar de muito perto”, disse a Euronews um diplomata europeu, apontando para o fraco alinhamento da Sérvia com o bloco na política externa. “Veremos se isso muda.”
Adesão à UE
Responsáveis de topo da UE saudaram o resultado. A comissária para o Alargamento, Marta Kos, chegou a afirmar que “a porta da UE está aberta e estamos prontos para avançar em conjunto”.
Em julho, a Comissão Europeia tentou abrir o "Cluster" 3 das negociações de adesão da Sérvia, paralisadas há anos, mas oito Estados-membros bloquearam a iniciativa, alegando retrocessos democráticos e falta de alinhamento na política externa.
O programa que a Lista dos Estudantes divulgou no mês passado, porém, concentra-se apenas na governação interna: contratação pública, educação, liberdade dos media, independência judicial e cuidados de saúde.
Bojan Vranić, professor de ciência política na Universidade de Belgrado, aconselhou os responsáveis europeus a moderar o entusiasmo, afirmando que a mudança de governo dificilmente se traduzirá num avanço decisivo na integração europeia.
“Até agora, a Lista dos Estudantes tem sido muito conservadora no que toca à União Europeia. Pretende, antes de mais, melhorar o sistema interno. E só quando, como dizem, se tornar um parceiro credível numa negociação, é que a União Europeia será o seu parceiro”, explicou Vranić.
Avançar com cautela
O otimismo em Bruxelas é moderado pela história. Em 2003, o primeiro-ministro sérvio Zoran Đinđić foi assassinado por antigos elementos dos serviços de segurança do país por perseguir uma agenda pró-Ocidente de laços mais estreitos com a Europa, reformas económicas e combate ao crime organizado.
O executivo comunitário deverá apresentar na próxima semana o pacote de alargamento, um relatório anual sobre a situação nos países candidatos que dará um primeiro sinal sobre se a abordagem do bloco à Sérvia está a mudar, embora seja pouco provável que o novo governo sérvio esteja em funções antes de terminar o período de referência do documento.
Talvez mais reveladoras sejam as conclusões que o Conselho da União Europeia vier a adotar sobre o pacote, que mostrarão a posição dos Estados-membros e se pretendem incentivar Belgrado.
Um teste importante poderá ser a forma como o governo liderado pela Lista de Estudantes tratar o Montenegro, o país mais avançado no processo de adesão à UE. Vučić e o SNS procuraram minar essa adesão, fomentando divisões assentes em políticas de identidade.
“Acredito firmemente que se abre um novo capítulo para o Montenegro e a Sérvia, assente no respeito e no diálogo aberto, sem escaladas desnecessárias de tensão”, escreveu na rede X o primeiro-ministro montenegrino, Milojko Spajić.
Política externa
As sanções contra a Rússia são um dos principais pontos de fricção entre Bruxelas e Belgrado, que se tem recusado a alinhar com as medidas impostas pela UE após a invasão em larga escala da Ucrânia por Moscovo, em 2022.
“A República da Sérvia manterá a sua posição de princípio de não introduzir medidas restritivas contra a Federação Russa”, escreveu o movimento estudantil na rede X, em setembro, evocando a experiência histórica da Sérvia com sanções.
Para lá da forte dependência do gás russo, Belgrado conta com o apoio diplomático de Moscovo para impedir o reconhecimento internacional da independência do Kosovo, independência que o movimento estudantil rejeitou abertamente num memorando publicado em maio.
A própria Lista dos Estudantes está dividida entre figuras firmemente pró-europeias e outras que defendem uma agenda nacionalista sérvia tradicional. A fação que prevalecer irá moldar a política externa do país.
“Existem vozes nacionalistas fortes na Lista dos Estudantes que querem manter a Rússia por perto por causa do Kosovo. Os laços energéticos vão manter-se também. As relações com a China poderão ser um pouco reduzidas, mas o investimento direto estrangeiro e os vínculos económicos já existem”, afirmou Dimitar Bechev, investigador sénior no think tank Carnegie Europe.
Vincenzo Genovese contribuiu para esta reportagem.