Preços de petróleo mais elevados e a venda de uma sociedade conjunta aumentaram os lucros do gigante saudita, enquanto exportações afetadas e um conflito prolongado penalizaram a economia do reino.
A gigante petrolífera saudita Aramco anunciou esta terça-feira um aumento de 34,6% no lucro líquido do terceiro trimestre, numa altura em que a guerra no Médio Oriente mantém os preços do crude elevados e a infraestrutura energética do reino é alvo de ataques regulares.
Os rebeldes Huthis do Iémen, apoiados pelo Irão, têm visado regularmente petroleiros, oleodutos, instalações de armazenamento e refinarias sauditas desde que as hostilidades recomeçaram em julho, intensificando os ataques nas últimas semanas.
Além disso, o reino tem de lidar com os Huthis e o Irão a dificultarem o tráfego nos estreitos de Bab al-Mandeb e de Hormuz, o que complica as exportações.
Ainda assim, a Aramco, pedra angular da economia da Arábia Saudita e uma das empresas mais valiosas do mundo, viu os seus lucros dispararem no terceiro trimestre, apoiados pelos preços mais altos do petróleo e por ganhos com a venda da sua participação numa joint venture.
A empresa afirmou que o lucro líquido atingiu 135,9 mil milhões de riais (€32,3 mil milhões) no terceiro trimestre, face a cerca de 101 mil milhões de riais (€24 mil milhões) no mesmo período do ano anterior.
O resultado inclui um ganho de 25,9 mil milhões de riais (€6,2 mil milhões) com a venda da sua participação na joint venture de refinação e petroquímica PRefChem à Petronas, da Malásia.
Estes resultados surgem numa altura em que os grandes grupos energéticos em todo o mundo têm registado aumentos nos lucros devido às perturbações no abastecimento de petróleo e gás no Médio Oriente, o que tem impulsionado as margens de refinação e os preços.
Mas o responsável máximo da Aramco advertiu que o conflito continua a pesar fortemente sobre a segurança energética.
“A incerteza geopolítica e os ataques contra instalações energéticas-chave continuaram a agravar a crise global de fornecimento de energia no terceiro trimestre de 2026, com sérias implicações para a segurança energética mundial”, afirmou em comunicado o presidente e CEO, Amin H. Nasser.
O lucro líquido ajustado situou-se em quase 117 mil milhões de riais (€27,8 mil milhões), mais 9% do que há um ano, mas cerca de 7% abaixo do segundo trimestre.
Isto superou uma previsão mediana de 30,66 mil milhões de dólares (€27,3 mil milhões) feita por 12 analistas, segundo a Reuters, que cita estimativas de consenso fornecidas pela Aramco.
“Os resultados deverão ser mais animadores em comparação com há um ano, quando os preços do petróleo eram muito mais baixos, mas menos promissores relativamente ao último trimestre”, afirmou à AFP Robert Mogielnicki, investigador do Arab Gulf States Institute.
No segundo trimestre, a Aramco comunicou um aumento anual de 44% no lucro líquido, para 122,6 mil milhões de riais (€29,1 mil milhões).
A guerra no Médio Oriente, que começou a 28 de fevereiro com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, abalou os mercados energéticos globais, levou a uma utilização generalizada de reservas estratégicas e alimentou a inflação.
E enquanto a guerra continua no Golfo, drones ucranianos têm também atingido infraestruturas energéticas russas, o que levou Moscovo a restringir as exportações de combustíveis, incluindo gasolina e gasóleo.
No mês passado, os Huthis afirmaram ter visado a sede da Aramco, um vasto complexo com numerosos edifícios e zonas residenciais no leste do reino.
Responsáveis sauditas disseram que um edifício foi atingido na zona onde se situa o centro de operações da Aramco, enquanto dois trabalhadores da empresa, que falaram à AFP sob anonimato, afirmaram que uma torre da sede foi atingida.
Arábia Saudita: turbulência no mercado petrolífero pesa na economia
Com o Estreito de Hormuz contestado, o apoio naval dos Estados Unidos tem ajudado milhões de barris de crude a atravessar diariamente esta via marítima crucial.
No mês passado, o Comando Central dos Estados Unidos afirmou ter ajudado os países do Golfo a exportar mais de 1,5 mil milhões de barris de crude através do estreito desde o verão e a facilitar a passagem de mais de 3 000 navios comerciais nos últimos seis meses.
Apesar disso, o aumento das exportações do Golfo pouco fez para travar a volatilidade do mercado.
Os preços do petróleo caíram mais de 7% na segunda-feira, à medida que sinais de retoma do diálogo entre Teerão e Washington alimentaram a esperança de pôr fim à guerra no Médio Oriente.
Entretanto, no reino, meses de incerteza têm agravado os ventos contrários na economia.
Apesar de as receitas do governo estarem acima das previsões iniciais, a Arábia Saudita reviu em alta o défice orçamental projetado para 2026, para 245 mil milhões de riais (€58,2 mil milhões), o equivalente a 4,9% do produto interno bruto, face a uma previsão inicial de 165 mil milhões de riais (€39,2 mil milhões).
Prevê-se que a despesa pública exceda as projeções iniciais em 9,3%, enquanto o ministério das Finanças estima que a economia saudita contraia 3,6% em 2026, devido a uma diminuição de 21,8% na atividade ligada ao petróleo.
O reino espera reduzir o défice para 191 mil milhões de riais (€45,4 mil milhões) em 2027, o correspondente a 3,6% do PIB, mantendo o investimento em projetos de diversificação económica.
O FMI prevê que a Arábia Saudita termine o ano com uma contração de 3,3% do PIB, cinco pontos percentuais abaixo da sua previsão anterior de julho.