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“Literalmente não consegues”: startup de IA Orchid gera polémica com assistente “segundo cérebro”

IA enfrenta o desafio quotidiano de ser um bom parceiro
IA entra na rotina: ser um bom companheiro Direitos de autor  Orchid
Direitos de autor Orchid
De Craig Saueurs
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Uma startup de inteligência artificial, alvo de gozo generalizado, afirma que o seu chatbot consegue tratar de tudo, desde marcar encontros a recordar momentos importantes

Boas notícias para maus parceiros: se é do tipo que se esquece de momentos essenciais como aniversários porque estava ocupado a jogar videojogos, uma nova startup de IA vem em seu auxílio.

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A Orchid é o mais recente “disruptor” de Silicon Valley, a tentar resolver problemas que poucos fora de Silicon Valley parecem ter, oferecendo um assistente de IA que executa tarefas para si através de mensagens de texto, como se fosse um amigo.

Mas o produto não se apresenta exatamente como um assistente. A startup defende que a Orchid não é um assistente, mas sim “um segundo cérebro”, capaz de resolver os problemas mais difíceis da vida dos mais vidrados nos ecrãs, desde organizar voos a avisar quando o leite já passou do prazo.

Recorrer à IA quando um calendário era suficiente

Num vídeo de lançamento, amplamente criticado, divulgado no final da semana passada, a Orchid apresentou o caso de utilização em tons quentes e com a linguagem dos muito ligados ao mundo digital.

O anúncio de dois minutos mostrava como o bot de IA podia salvar o dia numa história construída “à volta de uma situação real”, explicou a equipa num vídeo de bastidores.

Essa situação real é a seguinte: um homem na casa dos vinte anos esquece-se do aniversário porque está demasiado ocupado a jogar. A parceira, surpreendentemente calma e vestida de forma profissional, envia uma mensagem à Orchid para o lembrar de que hoje é o aniversário dos dois e que, talvez, devesse fazer alguma coisa. A Orchid entra então em ação, reserva de imediato um restaurante e compra lírios, porque se lembra de que a parceira prefere lírios a rosas.

“ok, ok, consigo fazer isto”, escreve o homem.

“literalmente não consegues. é por isso que eu estou aqui”, responde a Orchid, numa conversa toda escrita em minúsculas e com emojis.

Uma leitura rápida dos comentários no Instagram mostra até que ponto os consumidores parecem detestar a própria premissa do produto.

“Qual é o sentido de estar numa relação se externalizas todo o esforço e compaixão?”, escreveu um, enquanto outro acrescentou: “Isto é tão repugnante e distópico. Imaginem que agora se pode ter uma relação sem esforço nem intenção. Isto é verdadeiramente nefasto.”

Outro comentou: “isto é nojento e, se isto não acabar, a humanidade está condenada”.

E ainda piora

Como se já não fosse assustador delegar amor e carinho, a Orchid apresentou outras propostas extravagantes sobre a forma como o seu assistente de IA pode otimizar a vida quotidiana.

A Orchid pode responder a emails de marcas que convidam para colaborações quando o utilizador está demasiado assustado para o fazer, e serve para trocar ideias quando se fica bloqueado. Em suma, funções que antes cabiam a amigos, colegas ou vizinhos.

Num anúncio mais preocupante, entretanto apagado, a empresa sugeria ainda que o agente de IA poderia analisar os alimentos e verificar a presença de alergénios antes de comer.

“Pode ser qualquer coisa. E a lista de coisas que me mandam para o hospital é suficientemente longa para que qualquer coisa seja um problema”, dizia o guião – rapidamente alvo de críticas nas redes sociais, perante os riscos óbvios de confiar na IA para verificar alimentos quando se tem alergias graves.

Por mais desconcertante que pareça, o surgimento da Orchid reflete uma tendência crescente de consumidores que recorrem à IA para tarefas mundanas.

No ano passado, economistas da OpenAI e de Harvard analisaram 1,5 milhões de conversas com o ChatGPT ao longo de três anos, entre 2022 e 2025. Concluíram que 75% das interações diziam respeito a tarefas não relacionadas com trabalho (fonte em inglês), como orientação prática, pesquisa de informação e escrita. Isso incluía tudo, desde conselhos de culinária até ajuda para encontrar a farmácia mais próxima.

‘AI situationships’ e o início de uma nova realidade

Com a IA a infiltrar-se em todos os aspetos das nossas vidas, para algumas pessoas está a tornar-se mais do que uma simples ferramenta.

No início deste ano, a aplicação francesa de encontros happn apresentou a “AI situationship” como tendência emergente. Tal como no agora profético filme Her, estas relações informais tornaram-se comuns à medida que as pessoas passam a usar cada vez mais os chatbots como “uma forma de treino emocional” ou “espelhos emocionais, espaços de diálogo e de escuta atenta”.

A transformação do amor pela IA também reflete preocupações crescentes com a solidão.

Um inquérito da YouGov (fonte em inglês), realizado no ano passado, revelou que três em cada dez australianos já se sentiram emocionalmente vulneráveis perante um chatbot de IA.

Um estudo conduzido pelo Austrian Safer Internet Centre (fonte em inglês) chegou a conclusões semelhantes na Europa. Cerca de um quinto dos adultos europeus utiliza chatbots de IA para conversas românticas e mais de um quarto acredita que os jovens podem apaixonar-se por um deles.

Fica por saber se alguém poderá apaixonar-se por um chatbot, esquecer o aniversário e depois depender desse mesmo chatbot para “resolver tudo”, como promete a Orchid.

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