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Portugal reinventa a cortiça: de rolhas a foguetões

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De Monica Pinna
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Portugal produz cerca de metade da cortiça mundial. A Corticeira Amorim, líder do setor, abre novos mercados ao transformar este recurso ancestral em materiais de alta tecnologia. Este relatório acompanha o processo, do montado à fábrica.

Começa ao amanhecer o trabalho nas florestas de sobreiros da Corticeira Amorim. A extração da cortiça decorre entre o final de maio e agosto e grande parte ainda é feita à mão.

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Carlos Cardoso, tirador de cortiça na Corticeira Amorim, na herdade de Rio Frio.
Carlos Cardoso, tirador de cortiça na Corticeira Amorim, na herdade de Rio Frio. © Monica Pinna

“Em média, uma árvore pode produzir durante 170, 200 anos, mais ou menos, o que nos dá entre 15 e 17 tiragens.” explica Carlos Abreu, do Departamento de Comunicação da Amorim Florestal.

Um sobreiro demora pelo menos nove anos a regenerar a casca e cerca de 25 até poder ser descortiçado pela primeira vez. Estes prazos longos são difíceis de conciliar com as necessidades dos pequenos e médios produtores, que representam 90% dos fornecedores da Amorim.

A campanha de extração de cortiça em Portugal decorre do final de maio a agosto.
A campanha de extração de cortiça em Portugal decorre do final de maio a agosto. © Monica Pinna

“Com as iniciativas nas nossas florestas, procuramos mostrar a outros proprietários que é possível gerir a floresta de forma diferente e garantir um bom rendimento.” afirma Nuno Oliveira, diretor florestal da Amorim Florestal.

A herdade de Rio Frio é vitrina das mais recentes inovações da Amorim. Uma das maiores florestas de sobreiro plantadas pelo homem em todo o mundo, funciona como um laboratório ao ar livre. Aqui, os investigadores testam formas de acelerar a primeira tiragem, selecionar as melhores plantas e aumentar a produtividade sem perturbar o ecossistema. Árvores saudáveis também produzem cortiça de melhor qualidade.

A extração é apenas o primeiro passo. O desafio, ainda mais complexo, é transformar esta matéria-prima numa gama de produtos em constante expansão. Viajo até ao norte de Portugal, às fábricas históricas da Amorim, onde a cortiça entra numa das indústrias mais avançadas do mundo.

Trabalhador numa das unidades da Corticeira Amorim em Mozelos, perto da cidade do Porto.
Trabalhador numa das unidades da Corticeira Amorim em Mozelos, perto da cidade do Porto. © Monica Pinna

Fundada como empresa familiar em 1870, a Amorim é hoje uma multinacional com cerca de 4 000 trabalhadores, presente em mais de 100 países e com um volume de negócios anual superior a mil milhões de euros.

Hoje, a cortiça é utilizada em mais de 30 setores, da construção e isolamento aos pavimentos e sistemas de vedação. A indústria aeroespacial está entre as áreas de crescimento mais rápido e também entre as mais protegidas pelo segredo industrial. Mas na sala de exposição é possível ver e tocar estes materiais de alta tecnologia. Eduardo Soares, diretor de Inovação e Desenvolvimento de Negócio, mostra-me um dos produtos de referência da empresa.

Compósito de cortiça utilizado em várias fases de lançadores de foguetões.
Compósito de cortiça utilizado em várias fases de lançadores de foguetões. © Monica Pinna

“O P50, um dos nossos materiais mais conhecidos, é essencialmente um compósito de cortiça, um escudo de proteção térmica utilizado em várias fases de um veículo lançador, sempre que é necessária proteção contra o calor.”

A Amorim afirma ter investido mais de 90 milhões de euros em investigação e desenvolvimento nos últimos dez anos. Essa aposta de alta tecnologia transformou também o seu negócio principal: as rolhas de cortiça. A empresa declarou há muito ter vencido o TCA, o composto responsável pelo sabor a rolha que pode estragar o vinho.

Para Portugal, a cortiça é mais do que um negócio. Faz parte do património natural e cultural do país. Encontrar novas formas de a utilizar significa também manter vivo esse património.

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