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25 anos depois do 11 de Setembro: as histórias dos portugueses que morreram nas Torres Gémeas

João Aguiar Jr. no escritório do World Trade Center
João Aguiar Jr. no escritório do World Trade Center Direitos de autor  Arquivo da família
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De Lina Ferreira
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O jornalista Henrique Mano procurou identificar e contar as histórias dos portugueses e luso-americanos que morreram nos atentados. A irmã de uma das vítimas, João Aguiar Jr., quer lembrar que o irmão “morreu como um herói”.

Quando aconteceram os ataques do 11 de setembro, Henrique Mano estava em Nova Jérsia, na redação do jornal Luso-Americano, o mais antigo jornal de língua portuguesa em publicação contínua nos Estados Unidos.

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Nova Iorque, onde dois aviões se despenharam contra as Torres Gémeas do World Trade Center, ficava do outro lado do rio. As duas torres acabaram por colapsar.

“Ficámos completamente incrédulos”, diz o jornalista, que hoje é chefe de redação do jornal. “Primeiro, durante umas horas, não se sabia bem o que se tinha passado, quantos aviões mais iriam cair.”

“Foi uma sensação de insegurança também muito grande. De certa maneira, de perda e de não acreditar que um ataque terrorista daqueles pudesse acontecer com aquele requinte.”

O resto do dia foi passado a refazer a edição do jornal que ia ser publicada no dia seguinte. Uma edição ainda com mais perguntas do que respostas sobre o que estava a acontecer.

Naquele dia todos os acessos a Nova Iorque, onde ainda hoje vive, estavam fechados. Henrique Mano só conseguiu pôr-se a caminho de casa no dia seguinte. Mas antes passou por uma comunidade portuguesa que existia nas zonas de Tribeca e Soho, a poucos minutos do World Trade Center.

“Estavam aflitos porque eram muito amigos de um casal que tinha um filho, o António Rocha, que trabalhava nas torres e do qual não sabiam nada”, recorda o jornalista. “E eu disse: bem, não me digam que há vítimas portuguesas.

O jornalista Henrique Mano junto ao nome de António Rodrigues no memorial do 11 de Setembro, Nova Iorque, 11 de setembro de 2021
O jornalista Henrique Mano junto ao nome de António Rodrigues no memorial do 11 de Setembro, Nova Iorque, 11 de setembro de 2021 Henrique Mano

Dois anos a investigar

Iniciou-se, assim, uma investigação jornalística de dois anos para identificar e escrever as histórias dos portugueses e luso-americanos que morreram no 11 de setembro. Enquanto Henrique Mano se dedicava às vítimas mortais residentes em Nova Iorque, Fernando Santos, o então chefe de redação do jornal Luso-Americano, concentrava-se nas vítimas de Nova Jérsia. No total, identificaram nove pessoas.

Uma dessas vítimas foi precisamente António Rocha, que espoletou esta procura.

“O corpo do António Rocha foi dos primeiros a ser encontrado, foi dos primeiros funerais. Eu lembro-me bem disso, na Catedral em Newark”, recorda Henrique Mano.

Segundo o perfil no jornal Luso-Americano, tinha 34 anos e tinha chegado aos Estados Unidos ainda bebé, acompanhado pelos pais. Era casado e tinha dois filhos. Naquela manhã estava no 105.º andar da Torre Sul, onde trabalhava na Cantor Fitzgerald, uma empresa de serviços financeiros.

Mas não foram encontrados os corpos de todas as vítimas dos atentados. Foi o caso de João Aguiar Jr., um jovem de 30 anos, que também trabalhava no setor financeiro.

“É uma história triste porque o corpo dele, os restos mortais, nunca foram encontrados”, diz Henrique Mano, recordando um dos casos que mais o impressionou.

João salvou a vida dos colegas

João Aguiar Jr., conhecido como J.J., tinha 30 anos e trabalhava para a empresa Keefe, Bruyette & Woods. Era filho de pai português e mãe norte-americana e, apesar de ter nascido nos Estados Unidos, passou parte da adolescência em Portugal. Em breve, ia viver com a namorada.

“Eu quero lembrar o meu irmão. Mas eu acho importante saber que ele morreu como um herói”, diz a irmã Taciana Aguiar, que hoje vive em Portugal.

“Ele simplesmente percebeu que tinham que sair do prédio. Então, andou pelo escritório a pedir a todos para saírem. E aquelas pessoas, com quem ele trabalhava, saíram. Ele assegurou-se de que eles chegaram ao elevador. E eles sobreviveram. Sem ele, essas pessoas provavelmente não teriam sobrevivido.”

O irmão tomou a iniciativa de avisar os colegas logo a seguir ao embate do primeiro avião no edifício ao lado. Mas quando o segundo avião embateu no edifício onde se encontrava, a Torre Sul, ele próprio ainda não tinha conseguido escapar.

“Então, nós nunca soubemos onde ele estava na altura do impacto. Mas nós pensamos que talvez ele tenha ido para cima para salvar mais pessoas”, explica a irmã, lembrando que a maioria dos trabalhadores da empresa acabou por sobreviver.

Taciana Aguiar, na altura a morar em São Francisco, foi alertada por um vizinho para o que estava a acontecer.

“Ele tinha telefonado à namorada dele e disse: ‘o prédio um foi atingido, nós vamos sair’”, lembra. “Mas quando vi a imagem do segundo avião a cair no segundo prédio, por alguma razão, eu soube imediatamente que ele tinha morrido.”

A história de João Aguiar Júnior acabou por ser imortalizada num dos capítulos do livro O Cérebro Oculto, de Shankar Vedantam (The Hidden Brain, no original).

João Aguiar Jr. salvou os colegas antes de morrer
João Aguiar Jr. salvou os colegas antes de morrer Arquivo da família

O polícia que procurou um emprego mais seguro

Tal como João e António, outras três vítimas mortais trabalhavam em empresas do setor financeiro, no World Trade Center. Segundo o jornal Luso-Americano eram Raymond James Rocha, de 29 anos; Dennis Gomes, de 40 anos; e Mark Jardim, de 39 anos.

Outras duas vítimas trabalhavam na Autoridade Portuária, que tinha sede nas Torres Gémeas. Eram Carlos da Costa, de 41 anos, e António Rodrigues, de 37 anos. Isto apesar de, no momento do impacto dos aviões, António Rodrigues não estar nas torres, mas no terminal de autocarros da Rua 42.

“Só que, nesse dia, a maior parte dos polícias da Autoridade Portuária foram todos, em diferentes alturas, chamados para o Ground Zero para ajudar. Aliás, ele fez parte do último contingente de polícias que entraram mesmo nas torres. Eram 14 e morreram todos”, lembra Henrique Mano.

Esta história acabou por ser contada no filme World Trade Center, realizado por Oliver Stone. O ator Armando Riesco desempenhou o papel de António Rodrigues.

“Ele era polícia do NYPD, mas depois disse à mulher: ‘eu se calhar vou mudar para a Autoridade Portuária, porque é sempre mais seguro’ e não era colocado naqueles bairros mais problemáticos”, lembra Henrique Mano. “Ele achava que estava mais seguro e acabou assim.”

Trailer do filme World Trade Center, de Oliver Stone, onde António Rodrigues é retratado.

Manuel da Mota não trabalhava nas Torres Gémeas. Mas este marceneiro, de 43 anos, estava lá naquela manhã, a instalar uma garrafeira no Windows on the World, um restaurante localizado num dos últimos andares da Torre Norte. O avião da American Airlines embateu alguns andares abaixo, deixando encurraladas as pessoas que estavam no restaurante.

Das nove vítimas identificadas pelo jornal, apenas uma estava num dos aviões sequestrados. Chamava-se Christopher Mello e viajava com um colega no AA11 da American Airlines, que embateu na Torre Norte. Este bisneto de açorianos estava numa viagem de trabalho a caminho de Los Angeles.

“O Christopher Mello, que vinha no avião, curiosamente das vítimas portuguesas era a mais nova. Tinha 25 anos, estava na aurora da vida”, lembra Henrique Mano.

Uma montanha de escombros

Henrique Mano passou dois anos a seguir pistas e nomes de origem portuguesa. Antes da publicação, as identidades das vítimas eram comunicadas ao Consulado de Portugal.

“Só consideramos a vítima de origem portuguesa depois da confirmação da família”, explica.

“Falar com os familiares era talvez o aspeto mais difícil da cobertura jornalística”, diz o jornalista, lembrando o encontro com a mulher de uma das vítimas que acredita que o marido ainda pudesse estar vivo.

“Dizia aos filhos que o pai está a ajudar as pessoas, há de aparecer, há de chegar a casa. Mas obviamente nunca chegou."

O jornalista também cobriu outras histórias do 11 de Setembro, com um enfoque na comunidade luso-americana. Desde aqueles que escaparam à morte por acaso, salvos por uma pausa para fumar ou um atraso a chegar ao emprego, até às pessoas envolvidas nas operações de salvamento e remoção dos escombros.

Aliás, a montanha de escombros e o cheiro que dali emanava foram o que mais o impressionou nos primeiros dias.

“Estavam ali quase três mil pessoas mortas. Foi um cheiro que, aliás, durante alguns dias, eu diria que mesmo uma semana, se espalhou por Manhattan inteiro”, lembra. “Quando finalmente à noite depois voltei e fui para casa, quando entrei no meu apartamento, eu senti esse cheiro. E depois falei com outras pessoas, com vizinhos, e todos disseram ‘está em todo o lado’”.

Primeira página do jornal Luso-Americano com as fotografias das vítimas portuguesas do 11 de setembro
Primeira página do jornal Luso-Americano com as fotografias das vítimas portuguesas do 11 de setembro Luso-Americano

Possível décima vítima mortal

No fim de setembro de 2001, a família de João Aguiar Jr. fez uma cerimónia de despedida, junto à praia, em Nova Jérsia. Alguns colegas de trabalho estiveram presentes.

“Várias pessoas vieram ter comigo e disseram: ‘não podemos acreditar que Jay não tenha saído do prédio, eu devo-lhe a minha vida’”, lembra a irmã

“Senti que eles tinham quase um pouco de culpa de sobreviventes, porque eles estavam lá (na cerimónia) e ele não estava.”

Esta sexta-feira marca os 25 anos desde os ataques do 11 de Setembro. Para Taciana Aguiar, é um dia para lembrar o irmão. Planeia ir com o filho à escola St. Julian's, em Carcavelos, que João frequentou na adolescência.

“Depois de ele morrer, eles (a escola) instalaram um banco com uma pequena placa de metal com o nome dele”, explica Taciana. “Então, eu geralmente vou lá e ponho flores. Porque não apareceu o corpo, então, esse é o sítio que eu associo a ele.”

Neste aniversário, Henrique Mano voltou a escrever sobre as vítimas e testemunhas do 11 de Setembro no jornal Luso-Americano. Mas, tantos anos depois, vão também surgindo histórias novas.

“Agora surgiu o nome de uma mulher que estou a tentar investigar, tentar saber se ela é ou não de origem portuguesa”, diz, explicando as dificuldades de chegar aos familiares.

Se confirmada, esta será a décima vítima portuguesa e a primeira mulher.

“É sempre uma caixa de Pandora inacreditável”, diz Henrique Mano, referindo-se às muitas histórias do 11 de Setembro. “Afetou tanta gente de formas tão diferentes que a gente nunca sabe.”

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