O movimento liceal, reforçado na quinta-feira pelos estudantes, endureceu em várias cidades francesas. Em Lille, Paris e Nantes houve confrontos e danos, levando Sébastien Lecornu a reunir uma célula de crise.
O movimento de contestação nos liceus ganhou uma nova dimensão esta quinta-feira, 1 de outubro. Com estudantes a juntarem-se aos protestos para exigirem também mais meios para a educação, os alunos do ensino secundário multiplicaram os bloqueios em várias cidades francesas. Mas em diversos locais as mobilizações foram marcadas por episódios de violência, atos de vandalismo e incêndios.
Segundo dados da polícia, estavam em curso durante a manhã 340 ações em frente a liceus e tinham sido registados 169 bloqueios.
Na Île-de-France, mais de 200 estabelecimentos foram perturbados, cerca de 50 dos quais tornaram-se palco de violência, confrontos ou destruições.
Confrontos em Lille e Paris
Em Lille, a mobilização deu origem a cenas particularmente tensas. Caixotes do lixo foram virados para a estrada, foram lançados projéteis e mobiliário urbano acabou danificado. As forças de segurança intervieram para dispersar os manifestantes, recorrendo nomeadamente a cargas policiais e disparos de gás lacrimogéneo.
Em Paris e em vários municípios da Île-de-France, os confrontos opuseram também jovens às forças de segurança. O movimento já tinha levado a várias centenas de detenções desde o início da semana, principalmente de menores.
Foram ainda abertas três investigações pela Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN) após ferimentos registados durante bloqueios.
Em Tours, um aluno do secundário ferido na cabeça na quarta-feira tindo sido hospitalizado. Segundo a procuradora, as lesões eram “compatíveis” com o impacto de um projétil de tipo LBD.
Liceu incendiado em Nantes
Em Nantes, o movimento assumiu contornos mais preocupantes. Um incêndio deflagrou no átrio do liceu Nelson Mandela. O fogo danificou a entrada e parte da fachada do estabelecimento. De acordo com a vice-diretora, o incêndio terá sido provocado, mas a origem exata ainda está por determinar. Não há registo de feridos e a escola deverá permanecer encerrada durante vários dias.
Em Marselha, a manhã ficou igualmente marcada por vários incidentes graves. Funcionários do liceu Victor-Hugo foram regados com gasolina por indivíduos que atacavam contentores. Noutro estabelecimento marselhês, jovens atacaram um veículo de bombeiros que tinha ido apagar um incêndio e acabaram depois por atear fogo ao camião.
Estes episódios de violência não resumem, no entanto, a totalidade da mobilização. Os alunos do secundário denunciam sobretudo a falta de professores, as turmas sobrelotadas, o mau estado de alguns edifícios escolares e a escassez de meios. O movimento, nascido na região parisiense após problemas na substituição de docentes, foi alargando progressivamente ao resto do país.
Estudantes juntam-se ao movimento
Depois de uma primeira jornada nacional de mobilização na terça-feira, os estudantes juntaram-se ao movimento na quinta-feira. Segundo a Union étudiante, cerca de trinta campi universitários estavam bloqueados. Em algumas regiões, também colégios foram afetados.
As organizações de alunos do secundário exigem mais recursos, substituição de professores e melhores condições de ensino. Pretendem manter a mobilização, numa altura em que o governo tenta conter a violência e garantir o acesso aos estabelecimentos.
A jornada de quinta-feira marca assim uma nova etapa num movimento que, em menos de duas semanas, passou de alguns bloqueios locais a uma mobilização nacional.
Sébastien Lecornu reúne célula de crise
Perante a multiplicação de incidentes, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, convocou esta quinta-feira uma célula de crise interministerial no Ministério do Interior.
Lecornu pediu também aos seus ministros que anulassem ou adiassem as deslocações oficiais previstas para os próximos dias, para permitir que as autarquias concentrem os meios na gestão da mobilização.
Segundo o jornal Le Figaro, Gérald Darmanin vai ainda reunir de urgência, às 17h30, os 36 procuradores-gerais perante os incidentes ligados ao movimento dos liceus.
O ministro da Justiça pretende transmitir aos ministérios públicos uma orientação de “firmeza da resposta penal”.
De acordo com Matignon, os serviços de informações franceses consideram que o movimento de bloqueio dos liceus resulta de uma “manobra organizada pela LFI e pelos seus ‘proxies’ da ultra-esquerda”.
O governo procura assim evitar novo agravamento da situação, garantindo ao mesmo tempo que quer responder às dificuldades sentidas nos estabelecimentos escolares.
O ministro da Educação Nacional, Édouard Geffray, propôs na quarta-feira a criação de uma plataforma de concertação aberta aos alunos do secundário.
Na quinta-feira, anunciou também que as aulas podem ser asseguradas à distância nos estabelecimentos bloqueados ou danificados, sempre que as condições de segurança já não permitam receber os alunos. “A violência não privará os nossos alunos do seu direito fundamental à instrução”, escreveu na rede X.
O ministro da Educação condenou ainda os atos de violência.
Reações políticas
Marine Le Pen reagiu às violências em torno dos liceus, acusando diretamente a França Insubmissa (LFI) de atiçar a mobilização. Na sua opinião, já não se trata hoje de contestação de alunos do secundário, mas de motins organizados por profissionais e enquadrados por deputados do LFI
A resposta da LFI, pela voz de Jean-Luc Mélenchon, não se fez esperar.