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Cimeira da UE: Líderes debatem preços da energia, discutem orçamento e chegam a um consenso sobre a Ucrânia

Líderes da UE reúnem-se em Bruxelas para cimeira de dois dias
Líderes da União Europeia reúnem-se em Bruxelas para uma cimeira de dois dias -  Direitos de autor  Geert Vanden Wijngaert/Copyright 2026 The AP. All rights reserved.
Direitos de autor Geert Vanden Wijngaert/Copyright 2026 The AP. All rights reserved.
De Jorge Liboreiro
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A cimeira de dois dias dos líderes da UE apresenta uma agenda repleta de temas, com destaque para os preços da energia, o orçamento a longo prazo e a guerra da Rússia contra a Ucrânia. A guerra híbrida, o alargamento e a migração também ocuparão um lugar de destaque.

A escalada dos preços da energia, o orçamento a longo prazo da UE e o apoio à Ucrânia, na sequência da mais recente aproximação de Donald Trump a Vladimir Putin, serão os temas centrais das discussões quando os líderes se reunirem para uma cimeira de dois dias em Bruxelas.

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O alargamento, a guerra híbrida, a estagnação económica, o aumento dos custos de financiamento, os desequilíbrios comerciais e a migração irregular serão também temas abordados nas negociações.

A reunião arranca cedo na quinta-feira com um debate muito aguardado sobre os preços da energia, que os confrontos no Médio Oriente fizeram disparar. O petróleo mantém-se acima dos 100 dólares por barril, apesar de uma libertação coordenada pelo G7, enquanto o gás é negociado ao nível mais alto desde o inverno de 2022, com reservas subterrâneas abaixo da média.

As ondas de choque no mercado abalaram os dirigentes europeus, sob crescente pressão para apresentarem alívio concreto às famílias e às indústrias, numa altura em que as temperaturas descem e começa a época de aquecimento.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, têm tomado a dianteira, a pedir a Bruxelas o relaxamento das regras orçamentais do bloco, para permitir aos governos financiar “medidas temporárias e direcionadas” para amortecer a crise energética.

Outros países, porém, receiam que demasiada flexibilidade acabe por incentivar o consumo de combustíveis fósseis e desincentivar o investimento na transição verde.

Entretanto, seis Estados-membros (Áustria, Alemanha, Itália, Polónia, Portugal e Espanha) propuseram um imposto extraordinário a nível da UE para captar os lucros excessivos das empresas de energia num contexto de preços elevados. Mas a ideia continua a dividir e não ganhou tração suficiente.

Segue-se outro desafio económico premente: a China.

Com um défice comercial de mil milhões de euros por dia, Bruxelas lançou o desafio ao impor um prazo a Pequim para apresentar “resultados concretos” até, o mais tardar, outubro.

Esses resultados começaram a surgir na semana passada, na viagem do comissário do Comércio, Maroš Šefčovič, a Pequim, onde obteve concessões preliminares sobre carros híbridos e híbridos plug-in, terras raras e ímanes permanentes, bem como acesso ao mercado para empresas europeias.

"Estamos satisfeitos com os resultados, mas para nós é apenas um primeiro passo, pois os desequilíbrios não se limitam a um setor, mas sim existem em todos", afirmou um alto diplomata, alertando para o facto de a aplicação ser decisiva para mostrar se Pequim está a levar o assunto a sério.

"Por que razão está a China a aceitar algo que nunca aceitou antes? Porque começa a aperceber-se de que está a destruir os seus clientes. Não somos ingénuos."

As concessões afastam, por agora, o risco de uma guerra comercial em grande escala. Espera-se que os líderes instem a Comissão Europeia a prosseguir um "diálogo orientado para resultados" com a China e a "reforçar com urgência" os instrumentos comerciais para retaliar, se necessário, segundo o projeto de conclusões consultado pela Euronews.

Como sinal de exasperação, a Alemanha e a França apresentaram um "botão de corte" para bloquear o acesso da China ao mercado da UE, caso o défice se mantenha insustentável.

Chanceler alemão Friedrich Merz.
Chanceler alemão Friedrich Merz. AP Photo

O dinheiro fala, mas será que alguém o ouve?

Chega na tarde de quinta-feira o momento mais controverso da cimeira, quando o próximo orçamento de sete anos da UE for colocado em cima da mesa. A disputa decorre num contexto de custos de financiamento acentuados, particularmente alarmantes em França.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, apelou aos Estados-membros para que se afastem das suas linhas vermelhas e cheguem a um acordo até ao final do ano, permitindo concluir todo o complexo trabalho legislativo antes de janeiro de 2028.

A Irlanda, país que detém a presidência rotativa, apresentou uma proposta que reduz em 141 mil milhões de euros o projeto inicial. Mas a tesoura poupa em grande medida a agricultura e os fundos de coesão, incidindo antes na investigação, tecnologia, ação climática, segurança e política externa.

A “nego-box” irlandesa deixou todos insatisfeitos.

Os chamados “frugais” (Áustria, Dinamarca, Finlândia, Países Baixos, Suécia e Alemanha) defendem que os cortes têm de ir muito mais longe e abranger todas as rubricas. Os 17 “Amigos da Coesão” afirmam o contrário, que os cortes já vão demasiado longe. A Comissão Europeia alerta que a sua visão de um orçamento modernizado e flexível está seriamente em risco.

Além disso, ninguém se entende sobre que impostos a nível da UE devem ser aprovados para gerar receitas adicionais para o fundo comum.

O choque de posições e a falta de vontade de compromisso não auguram nada de bom para a ambição de Costa de obter um acordo unânime em dezembro. A decisão inesperada do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de convocar eleições antecipadas acrescenta mais uma camada de incerteza.

“Não creio que vá haver sangue nas paredes, mas é importante, neste tipo de negociações, que os líderes percebam onde estão as contradições”, afirmou outro alto diplomata. “Não temos pressa. Precisamos de um bom acordo. Não sentimos qualquer pressão de tempo.”

O primeiro dia termina com um debate estratégico sobre como preparar o bloco de 27 para a admissão de novos Estados-membros e reformar o seu processo de decisão interna. Montenegro, o país mais avançado na corrida à adesão, pretende encerrar todos os capítulos ainda este ano.

Volodymyr Zelenskyy deverá participar na cimeira em Bruxelas.
Volodymyr Zelenskyy deverá participar na cimeira em Bruxelas. AP Photo

Ucrânia: apoiar Zelenskyy e censurar Trump

Sexta-feira será dedicada à Ucrânia, na presença do presidente Volodymyr Zelenskyy.

Os esforços de paz sofreram uma reviravolta dramática depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter surpreendido os europeus ao fechar um acordo com o homólogo russo, Vladimir Putin, para introduzir dezenas de milhares de toneladas de gasóleo russo no mercado dos Estados Unidos. Washington concedeu uma isenção de sanções até abril de 2027 para permitir uma operação que até agora estaria proibida.

A notícia abalou os europeus e desencadeou uma corrida para fechar fileiras e se unir em torno da Ucrânia, tentando controlar os efeitos de uma decisão unilateral e não coordenada que reavivou memórias do confronto Trump-Zelenskyy na Casa Branca.

Embora o acordo sobre o gasóleo deva ter um impacto limitado nos preços nas bombas, que Trump quer baixar antes das eleições intercalares, maiores são as preocupações com as implicações diplomáticas de aliviar a pressão sobre a Rússia numa altura em que intensifica os ataques para dizimar a economia ucraniana antes do inverno.

As conclusões da cimeira foram alteradas para incluir uma censura: “O Conselho Europeu lamenta a decisão dos Estados Unidos de levantar temporariamente as sanções sobre o gasóleo russo.”

Nos últimos dias, Trump tem pedido a Zelenskyy que suspenda os ataques às refinarias de petróleo russas e respeite o seu cessar-fogo energético. Zelenskyy diz estar preparado para a trégua, desde que a Rússia cumpra, mas Moscovo continua a bombardear as infraestruturas elétricas da Ucrânia.

Os europeus mostram-se relutantes em apoiar o pedido de Trump, porque os ataques de longo alcance são a principal alavanca de Kiev sobre Moscovo. Abdicar dessa capacidade alteraria ainda mais o equilíbrio da guerra.

“Não é a primeira vez que enfrentamos divergências com os Estados Unidos em relação à guerra na Ucrânia, mas discordo da ideia de que estamos a ser ignorados”, afirmou um alto responsável da UE.

“Já vimos que o diálogo com os Estados Unidos nem sempre conduz a um acordo total sobre a forma como a UE e os EUA veem as coisas, mas é sempre melhor do que não haver diálogo”, acrescentou o responsável. “É isso que tem de continuar a ser feito. É o normal.”

O último ponto da cimeira será um debate estratégico sobre migração, que deverá opor Sánchez à maioria liderada por Meloni na sala. Na sequência da crise fronteiriça em Ceuta, Itália introduziu controlos fronteiriços com Espanha e Madrid respondeu na mesma moeda.

Os controlos, realizados aleatoriamente nos aeroportos, mantêm-se até hoje.

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