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Entre as lendas do futebol da União Soviética, está o chamado “jogo da morte”. Segundo a propaganda, os nazis mataram todos os jogadores da equipa de Kiev, o Start, depois desta ter derrotado e humilhado o Flakelf, a equipa das baterias antiaéreas do exército de ocupação.

O mito durou muitos anos, mas depois do colapso da URSS muitos dos antigos jogadores contaram a verdade.

Houve de facto um jogo, mas não houve consequências graves para os jogadores locais. Foi um jogo tenso, não mais que outro qualquer jogo importante.

Foi o que contou à euronews a última testemunha do jogo. Filho de um dos jogadores, Vladlen tinha na altura oito anos e participou como apanha-bolas: “O jogo não foi tão duro como dizem. Foi tenso, de facto. Dizem que alguns jogadores levaram pontapés nas pernas, mas eu não vi isso. Olhando para a fotografia que foi tirada depois do jogo, toda a gente parece bem, isso prova que o jogo correu bem”.

Muitos dos jogadores foram presos meses mais tarde, entre eles o pai de Vladen. Trabalhavam todos numa fábrica de pão na rua Degteriska em Kiev.

“No dia 18 de agosto foram presos, o mei pai contou-me como foi. Um carro aproximou-se da fábrica e eles disseram: este, este, este e aquele, saiam. Levaram-nos para a Gestapo e passaram lá 23 dias”, recorda.

O jogo que deu origem a esta lenda foi disputado no estádio Zenit em Kiev, no dia 6 de agosto de 1942. Em 1981, o estádio foi rebatizado “Start”, em homenagem à equipa. Muitos dos operários tinham sido futebolistas profissionais, do Dínamo e do Lokomotiv de Kiev, antes da guerra.

Entre os jornalistas e historiadores, Valentyn Shcherbachov foi um dos primeiros a tentar escrever sobre a verdade dos factos, mas a censura soviética impediu-o. Só mais tarde publicou um livro onde conta a história.

“O jogo da morte não existiu como tal. Houve, sim, uma série de jogos em que os de Kiev derrotaram todas as outras equipas. Por isso, em agosto de 1942, o comandante das forças de ocupação proibiu os jogos de futebol, para que os alemães não ficassem desacreditados aos olhos dos habitantes da cidade”, lembra o jornalista.

Mas também é verdade que muitos jogadores foram presos e o Dínamo foi desmembrado. Conta Vladen: “Os alemães sabiam que o Dínamo era uma estrutura dos serviços secretos soviéticos e os jogadores tinham sido mandados para aqui para exercerem atividades clandestinas. Por isso, os jogadores foram presos e interrogados, em celas separadas. Quando não conseguiam provar as acusações, mandavam-nos para o campo de concentração de Syrets”.

Valentyn Shcherbachov acrescenta: “Só três jogadores tinham pertencido ao Dínamo: Trusevich, Klymenko e Komarov. Os outros jogavam todos em equipas diferentes. Estavam todos em Kiev, muitos iriam juntar-se ao Dínamo, mas isso só aconteceria mais tarde. Havia, na verdade, só três jogadores do Dínamo, que era, de facto, a equipa dos serviços secretos. O Start era, simplesmente, uma equipa de Kiev”.

Vladlen Putistin conta o que aconteceu aos presos: “Quando os nove jogadores foram presos, foram divididos em três grupos. Os do primeiro foram fuzilados. O segundo grupo incluía Tyutchev, Putistin e Komarov. Goncharenko e Sviridovsky trabalhavam como sapateiros fora do campo. Foram presos, mas não no campo de concentração. Tinham estado juntos e foram presos juntos”.

Os jogadores que foram fuzilados foram Nikolaj Trusevich, Aleksej Klimenko, Nikolaj Korotkich e Ivan Kuzmenko, todos do Dínamo. Mas as razões da execução não tiveram nada a ver com o resultado do jogo. Vladlen Putistin processou um jornal russo, que alegou que todos os jogadores que sobreviveram à detenção pela Gestapo colaboravam com os nazis e por isso foram poupados.

Recentemente, foi produzido um filme na Rússia, “Match”, sobre a história deste jogo. Mas o filme não vai passar na Ucrânia, já que é considerado ofensivo para a memória de quem viveu os acontecimentos.

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