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O que mudou com a morte de Daphne Caruana Galizia?

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O que mudou com a morte de Daphne Caruana Galizia?
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Valeta não esquece a morte de Daphne Caruana Galizia e continua à procura de respostas.A jornalista de investigação denunciou escândalos de corrupção que envolviam o governo de Malta, um pequeno país com menos de 500.000 habitantes. Morreu na explosão de um carro armadilhado.

Quem assassinou a jornalista em Outubro de 2017?

Família

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Corinne Vella, irmã da jornalista, continua a pedir justiça e a exigir que todos os culpados sejam condenados.

“Penso na Daphne todos os dias, claro. E lembro-me dela também por causa da nossa campanha por justiça. Hoje vou a tribunal porque há uma audiência".

Em novembro, o empresário maltês Yorgen Fenech foi detido por suspeita de ter mandado matar a jornalista. Fenech acusa Keith Schembri, o chefe de gabinete do antigo primeiro-ministro, Joseph Muscat.

“A morte da Caruana está está ligada ao seu trabalho. E o Shembri está ligado ao trabalho dela e foi referido no Tribunal. Não é possível que Muscat não soubesse.”

Durante muito tempo, Keith Schembri foi o braço-direito de Joseph Muscat. Depois da morte de Caruana Galizia, o chefe do governo de Malta foi forçado a demitir-se juntamente com vários dos seus ministros. No dia 13 de Janeiro, o país aplaudiu o novo primeiro-ministro, Robert Abela, nomeado pelo Partido Trabalhista. Apesar do escândalo, é o mesmo partido político que permanece no poder, com a confiança de muitos habitantes.

"A pior parte é que eles mobilizaram a opinião das pessoas contra a minha irmã ao ponto de ela não se sentir confortável para andar na rua. Não sabia se ia ser atacada. Colocaram a fotografia dela em materiais de campanha. Havia uma campanha constante, especialmente nos media. Era vista como uma pessoa má e desumana, como uma bruxa. Havia um personagem dela num programa de televisão".

As investigações custaram-lhe a vida. No dia 16 de outubro de 2017, o carro onde seguia explodiu numa pequena estrada, a 200 metros da casa da família.

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Matthew Caruana Galizia, o filho mais velho da jornalista, ouviu a explosão.

"Nessa altura partilhávamos o carro e, por isso, ela disse-me que quando voltasse eu podia usá-lo. Alguns minutos depois de sair de casa ouvi uma explosão. Soube logo que era uma bomba. Corri para a estrada e vi a carnificina. Sabia que as nossas vidas iam ser um pesadelo. Enfim, já eram um pesadelo mas percebi que não ia acabar.”

A casa de Daphne Caruana Galizia foi incendiada em 2006, enquanto a família dormia. Cortaram a garganta a um dos cães da jornalista, que era constantemente processada por difamação e intimidação.

Matthew continua o trabalho da mãe.

“Penso que em qualquer outra sociedade ela teria sido uma figura menos importante porque há muitas pessoas como a minha mãe. Em Malta estava muito isolada, era única, a única jornalista de investigação. Sinto-me muito orgulhoso pelo facto de saber que as pessoas que ela investigava só conseguiram silenciá-la com a derradeira opção. Um assassinato. Com um carro bomba (...) A minha mãe mudou o país e continua a mudá-lo, mesmo depois de morta".

Trabalho

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Daphne Caruana Galizia trabalhou no Times of Malta antes de criar o seu blog. Era um espírito livre, não poupou ninguém e arriscou ser odiada. Mas foi seguida por 400.000 pessoas em todo o mundo, que é quase o número de habitantes da ilha.

Herman Grech, editor chefe do Times of Malta, lembra o impacto do trabalho de Caruana Galizia.

“Tinha uma escrita forte, houve momentos em que as reportagens eram feitas de rumores mas houve dias em que ela conseguia as histórias, e eram histórias muito importantes. Com o escândalo dos Panama Papers ganhou muito respeito".

Política

Os últimos desenvolvimentos judiciais da investigação sobre o assassinato envolvem o governo. As autoridades não responderam aos pedidos de entrevistas da Euronews.

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Simon Busuttil, antigo líder da oposição, fala de um “assassinato conspirado pelo Estado”.

“Um grupo de criminosos tomou conta do nosso país e do nosso povo e conduziu-nos para uma situação desesperada. Precisamos limpar esta confusão de uma vez por todas. Fomos um país europeu normal e queremos voltar a ser porque merecemos (...) As últimas palavras da Daphne foram "a situação é de desespero porque há bandidos por todo o lado". Penso que os seus artigos e o seu assassinato fizeram com que Malta quisesse acabar com esse desespero".

No dia 16 de cada mês, o dia do assassinato de Daphne Caruana Galizia, centenas de pessoas exigem justiça em Valeta. Querem saber o nome de quem tentou silenciar a jornalista, cuja voz se faz hoje ouvir mais alto do que nunca.