Segundo o jornal “El Mundo”, os EUA alertaram países do sul para um possível ataque de Moscovo com drones Gerbera lançados de navios contra Espanha, França e Itália. Explicamos o que se sabe e como a ameaça está a crescer.
Serviços de informação dos Estados Unidos enviaram a vários países europeus um relatório que aponta para uma possível operação russa com drones contra alvos em Espanha, França ou Itália.
A notícia, avançada pelo jornalista Xavier Colás no diário “El Mundo”, antigo correspondente em Moscovo, indica que a origem do alerta está na visita, em agosto passado, do diretor da CIA John Ratcliffe a Moscovo e descreve um cenário de ataque muito específico: drones lançados a partir de navios mercantes disfarçados de tráfego comercial normal.
Gerbera: drone barato e difícil de detetar
De acordo com informação recolhida junto de fontes anónimas do Ministério da Defesa da Lituânia, citadas pelo “El Mundo”, o aparelho em causa será o Gerbera, um drone russo de pequeno porte (apenas dois metros de comprimento e 18 quilos de peso) capaz de percorrer até 600 quilómetros a cerca de 160 km/h.
A reduzida carga explosiva – entre quatro e cinco quilos – não visa uma destruição em larga escala, mas sim um efeito simbólico e perturbador: encerrar temporariamente um aeroporto, provocar um incêndio ou demonstrar que Moscovo consegue atingir a retaguarda europeia sem necessidade de atravessar qualquer fronteira terrestre.
O método não é uma hipótese remota. O Kremlin já testou lançamentos de drones a partir de plataformas marítimas. Em fevereiro passado, por exemplo, uma unidade naval sueca detetou um aparelho a descolar de um navio russo de informações no estreito de Öresund. A isto soma‑se o precedente do ataque com drones armados no aeroporto alemão de Leipzig, que Berlim atribui aos serviços de informação russos, e o episódio dos 19 drones que sobrevoaram, sem munição, o espaço aéreo da Polónia há um ano.
Sul da Europa em causa, não só o flanco oriental
A lógica do Kremlin, segundo os analistas ouvidos pelo jornal espanhol, não responde à proximidade geográfica, mas à vulnerabilidade política. O especialista britânico Keir Giles, dedicado à estratégia militar russa, defende que Moscovo procurará “o ponto mais fraco da Europa” e menciona expressamente países como Espanha, que não dispõem de sistemas integrados de defesa aérea adequados para este tipo de ameaça.
Esta ideia liga‑se diretamente ao aviso que o secretário‑geral da NATO, Mark Rutte, já fez há meses: um míssil russo demoraria apenas mais dez minutos a chegar a Madrid do que a Varsóvia. Rutte quis assim desfazer a perceção de que o sul da Europa fica fora do “flanco oriental” e, portanto, fora do raio de risco e da guerra que a Rússia iniciou em 2022 contra a Ucrânia e que ameaça todo o continente.
A intimidação com drones lançados a partir do Mediterrâneo, mais lenta mas igualmente simbólica, vai no mesmo sentido: a distância deixou de ser garantia de segurança para qualquer país europeu.
Espanha, França e Itália partilham ainda outro fator de risco sublinhado na investigação: os três realizam eleições em 2027 e têm forças políticas capazes de capitalizar o cansaço social gerado por anos de guerra na Ucrânia (apesar dos desejos de Trump de pôr fim ao conflito antes do início do inverno), algo que o governo de Vladimir Putin poderá tentar explorar com uma ação de baixo custo e elevado impacto mediático.
Sánchez, as despesas com a Defesa e as tensões com Washington
O relatório surge num momento particularmente delicado para Espanha em matéria de segurança. O governo de Pedro Sánchez tem mantido uma posição reticente quanto ao aumento da despesa em Defesa até ao novo patamar exigido pela NATO, resistência que se traduziu numa tensão aberta com Donald Trump e numa relação bilateral praticamente rompida. Um dos últimos exemplos foi a Assembleia Geral das Nações Unidas, onde Sánchez recusou comparecer à receção oferecida por Trump em Nova Iorque.
Neste contexto, um alerta de informações como este aumenta a pressão sobre a Moncloa: a falta de investimento em sistemas antiaéreos e antimísseis é um ponto fraco exposto precisamente numa altura em que cresce a perceção de ameaça direta sobre território espanhol.
Diáspora russa e ligações patrimoniais na Costa del Sol
O debate sobre a exposição de Espanha aos interesses russos não se limita ao plano militar. Há vários anos que diferentes investigações jornalísticas documentam a presença de património ligado ao círculo do Kremlin na costa andaluza. Entre os casos mais conhecidos está o de Liudmila Ocheretnaya – antes Liudmila Putina –, ex‑mulher de Vladimir Putin, que, juntamente com o atual marido, Artur Ocheretny, chegou a possuir duas habitações de luxo no complexo Lomas del Rey (Marbelha), avaliadas em 2,2 milhões de euros.
Na altura, a própria informação apontava para uma venda apressada desses imóveis, perante o receio de virem a ser incluídos na lista de sanções da União Europeia, depois de o Reino Unido já os ter sancionado. Investigações jornalísticas posteriores continuaram a documentar a teia de sociedades e fundações ligadas a Ocheretny e ao seu círculo, o que mantém viva a questão sobre a verdadeira dimensão dos interesses económicos russos, diretos ou indiretos, em território espanhol. Não há confirmação pública recente sobre se a propriedade chegou a ser vendida nem sobre o estatuto atual de residência de Ocheretnaya na Costa del Sol.
Europa já não pode tratar esta ameaça como distante
O próprio relatório citado pelo “El Mundo” recorda que Moscovo atua há meses “abaixo do limiar bélico”, combinando atos de sabotagem pontuais com testes de reação como os da Polónia ou da Alemanha.
A novidade agora é que, segundo a CIA, esse padrão de escalada poderá estender‑se ao Mediterrâneo, quebrando a falsa sensação de distância que durante anos protegeu, pelo menos no imaginário coletivo, países como Espanha. Como resume Rutte, na Europa atual dez minutos de diferença já não separam um país seguro de outro em risco.