Vendas de novos carros elétricos cresceram quase dois terços em agosto de 2026 face a 2025, com combustíveis em máximos na UE, mas construtores alemães pouco beneficiam da recuperação do mercado automóvel
As novas matriculações de carros elétricos dispararam na UE em agosto, num contexto de subida dos preços dos combustíveis e de incerteza geopolítica.
As matriculações de carros elétricos a bateria aumentaram 62,7% face a um ano antes, segundo a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA). A respetiva quota em todas as novas matriculações de carros na UE subiu de 17,8% para 27,7% no mesmo período.
A subida impulsionou também o mercado no seu conjunto. As vendas de carros novos nos 27 países da UE aumentaram 4,5% em agosto em relação ao mesmo mês do ano anterior e cresceram 5,3% nos primeiros oito meses de 2026 face ao mesmo período do ano passado.
De acordo com uma análise da EY, dois fatores ajudaram a impulsionar este crescimento: subsídios à compra de carros elétricos e um dia de trabalho extra em muitos países face a agosto passado.
Constantin M. Gall, responsável global da prática de indústria aeroespacial, defesa e mobilidade da EY, advertiu contra a leitura desta subida como sinal de uma recuperação mais ampla. “A tendência ascendente no mercado europeu de carros novos é sobretudo impulsionada por subsídios à e-mobilidade”, afirmou, acrescentando que as vendas de veículos elétricos podem cair de forma acentuada se esses apoios terminarem.
Em toda a UE, as matriculações de híbridos plug-in aumentaram quase 11% face a agosto passado, enquanto as de híbridos elétricos subiram mais de 2%. Esta última categoria manteve-se como o tipo de motorização mais popular, representando cerca de um terço das novas matriculações em agosto e 36,6% nos primeiros oito meses de 2026.
Desde o início do ano, os carros elétricos a bateria e os modelos a gasolina responderam cada um por 21,7%.
A Alemanha liderou as vendas de carros elétricos na UE em agosto, com quase 69 000 novos veículos elétricos, seguida de França, com mais de 36 000. A Dinamarca surgiu de seguida, com quase 13 900, à frente da Bélgica e dos Países Baixos. O crescimento mais rápido registou-se na Estónia (mais 278%) e na Eslovénia (mais 266%), embora essas subidas correspondessem apenas a 174 e 1 651 carros, respetivamente.
Os preços dos combustíveis na UE atingiram novos máximos na semana iniciada em 21 de setembro, segundo a Comissão Europeia. O preço médio da gasolina chegou aos 2,092 € por litro, enquanto o gasóleo subiu para 2,226 € por litro. Ambos os valores foram os mais elevados desde o início da série da Comissão, em 2005. Peritos do BCE esperam que as margens de refinação do gasóleo, e não os preços na bomba, atinjam o pico em outubro. Essa previsão foi feita antes de os Estados Unidos começarem a analisar uma possível proibição parcial ou total das exportações de gasóleo.
Grupos automóveis chineses ganham terreno
Grupos automóveis de propriedade chinesa estão a ganhar quota no mercado da UE, numa altura em que os fabricantes europeus enfrentam forte concorrência, tarifas dos Estados Unidos e os custos da transição para veículos elétricos.
As vendas dos cinco grupos de propriedade chinesa listados pela ACEA aumentaram cerca de 71% em agosto face a um ano antes. A sua quota combinada no mercado total de carros novos subiu de 6,6% para 10,8% — aproximadamente um em cada nove carros novos vendidos na UE. O número inclui marcas de origem europeia, como a Volvo Cars, que a ACEA contabiliza dentro do grupo Geely.
Entre os fabricantes com crescimento mais rápido estiveram a Leapmotor (mais 211%), a Chery (201%), a BYD (129%) e o grupo Geely (24%). A Tesla, construtor norte-americano, cresceu 53%. Estes valores abrangem todos os carros vendidos por cada fabricante, não apenas veículos elétricos.
Os grupos automóveis alemães perderam terreno. As vendas combinadas do grupo Volkswagen, do grupo BMW e da Mercedes-Benz recuaram 1,1%, ao mesmo tempo que a sua quota no mercado da UE desceu de 41,3% para 39,1%.
“As atuais medidas de subsídio nos países europeus estão a beneficiar de forma desproporcionada os fabricantes chineses e a Tesla, que oferecem modelos altamente competitivos — sobretudo nos segmentos de preços baixos e médios —, frequentemente com condições de financiamento atrativas”, afirmou Gall. O especialista espera que os fabricantes chineses continuem a ganhar quota, sobretudo nos segmentos mais baratos e no sul da Europa.
Construtores europeus podem ter de apertar o cinto
A EY alerta que o crescimento de agosto pode não se manter se os subsídios forem retirados. Gall apontou também o fraco crescimento económico, os elevados preços do petróleo e a incerteza geopolítica como motivos para muitos compradores adiarem a aquisição de um carro novo. O responsável instou os fabricantes a prepararem-se para anos mais difíceis e para uma pressão acrescente sobre os preços.
Há outra fonte de pressão sobre os preços: um relatório recente citado pela Euronews defendia que as propostas de regras de baterias “fabricadas na Europa” podem acrescentar cerca de 2 100 euros ao custo de um carro elétrico. Isso pode dificultar a oferta de modelos mais baratos por parte dos fabricantes europeus, numa altura em que a concorrência aumenta.