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Regras “fabricado na Europa” podem somar 2100 € ao preço de carros elétricos

Foto de arquivo. Trabalhadores montam modelos elétricos Zeekr 001 na fábrica da fabricante chinesa Zeekr em Ningbo, província de Zhejiang, leste da China, 17 de abril de 2025
ARQUIVO. Trabalhadores montam modelos elétricos Zeekr 001 na fábrica da Zeekr em Ningbo, província de Zhejiang, leste da China, 17 abril 2025 Direitos de autor  AP Photo/Andy Wong
Direitos de autor AP Photo/Andy Wong
De Quirino Mealha
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A estratégia europeia para o setor automóvel em dificuldades protege os fabricantes instalados à custa de consumidores e contribuintes, em vez de os ajudar a competir, segundo um novo relatório

Bruxelas está a proteger os seus construtores automóveis quando deveria estar a ajudá-los a mudar, sustenta o Bruegel, instituto de investigação independente e um dos think tanks económicos mais conhecidos de Bruxelas.

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As recentes medidas da UE, desde tarifas sobre veículos chineses até propostas de requisitos de conteúdo local e um abrandamento da proibição de 2035 de novos motores de combustão, estão a colocar o setor numa trajetória errada e podem aumentar o custo de um automóvel elétrico em mais de 2 000 €, afirma.

“Esta abordagem é errada”, lê-se no relatório, que acrescenta que “por razões de clima e de custos, o futuro é elétrico. As discussões sobre abrandar a transição para os veículos elétricos são uma distração inútil”.

Pacto pago pelos consumidores

O relatório descreve a política atual como “um pacto implícito” em que a UE protege os produtores da concorrência estrangeira e, em troca, estes trazem as respetivas cadeias de fornecimento para a Europa.

“Consumidores e contribuintes vão suportar os custos deste pacto”, lê-se.

Por exemplo, exigir que as células das baterias sejam fabricadas na UE faria subir o seu preço de 50 € para 85 € por quilowatt-hora, acrescentando cerca de 2 100 € ao preço de um automóvel elétrico típico. Uma obrigação de utilização de aço de baixo carbono somaria mais 200 €, enquanto as regras simplificadas de homologação de veículos propostas pela Comissão permitiriam às marcas poupar apenas 61 € por veículo.

O impacto é maior nos modelos mais baratos e nos compradores com menos recursos.

A tensão de fundo, argumenta o Bruegel, é que a via mais barata para a eletrificação passa por cadeias de abastecimento globais, enquanto a mais resiliente assenta em cadeias domésticas.

“O pacote automóvel tenta fazer ambas ao mesmo tempo, com os custos amplamente ocultados”, escrevem os autores do relatório.

ARQUIVO. Veículos elétricos produzidos pela Volkswagen Saxony estacionados nas instalações da fábrica de Zwickau, leste da Alemanha, 14 set. 2023
ARQUIVO. Veículos elétricos produzidos pela Volkswagen Saxony estacionados nas instalações da fábrica de Zwickau, leste da Alemanha, 14 set. 2023 AP Photo

A França oferece uma antevisão: o seu regime de subsídios ao consumo, que na prática exclui os fabricantes chineses, levou a que as vendas de modelos elétricos não elegíveis caíssem 60 % em comparação com os elegíveis e poderá ter abrandado o ritmo geral de aquisição de carros elétricos.

Revisões constantes de política agravam os danos, alerta o relatório, ao afirmar que “a imprevisibilidade regulatória é, por si só, um custo de competitividade”.

O estudo identifica também uma falha nas tarifas da UE sobre veículos elétricos chineses, impostas em outubro de 2024 até um máximo de 35,3 %. Aplicam-se a automóveis totalmente elétricos, mas não a híbridos plug-in.

Desde então, as importações dos primeiros estagnaram, enquanto as dos híbridos dispararam, “minando o valor destas taxas como proteção da produção europeia” e favorecendo veículos mais poluentes.

Os veículos elétricos fabricados na China já representam mais de 20 % das vendas de elétricos na UE este ano, mais de metade com marcas ocidentais.

Indústria automóvel sob pressão

Como a Euronews tem vindo a relatar ao longo deste ano, a indústria automóvel europeia está a ser atingida por vários lados em simultâneo, em especial a alemã.

A Volkswagen anunciou na sexta-feira cerca de 10 mil milhões de euros em encargos extraordinários, reduziu a previsão de margem de lucro para, no máximo, 1 % e foi retirada do índice Euro Stoxx 50 na segunda-feira.

A Stellantis, grupo franco-italiano proprietário da Peugeot e da Fiat, já tinha sido excluída do mesmo índice no ano passado.

Para agravar, algumas fábricas estão a abandonar por completo a produção de automóveis.

No início do mês, a Volkswagen acordou vender a sua fábrica de Osnabrück ao estado da Baixa Saxónia e à firma de investimento Aurelius Capital, sediada em Telavive, que planeiam colaborar com a Rafael, uma das empresas por detrás do sistema de defesa Cúpula de Ferro de Israel, na produção de componentes de defesa aérea.

O grupo de defesa Rheinmetall também tem vindo a converter partes da sua produção automóvel civil para uso militar.

Os números do Bruegel ilustram ainda a dimensão deste recuo.

A produção automóvel na UE diminuiu cerca de 2,6 milhões de unidades desde 2019, o equivalente a 19 %, enquanto os europeus compraram, no ano passado, menos 2,2 milhões de carros novos do que em 2019. Ainda assim, o setor emprega 14 milhões de pessoas ao longo da cadeia de valor, 6 % de todos os postos de trabalho na UE.

Apesar destes números, o think tank insiste que não se trata de um colapso, já que a indústria continua a ser uma grande exportadora líquida, registou margens de lucro historicamente elevadas e investe cerca de 3 mil milhões de euros por trimestre em fábricas de baterias e de veículos elétricos.

“O risco para o setor não é o colapso, mas a erosão dos mercados de exportação, da liderança tecnológica e das redes de fornecedores”, lê-se, acrescentando que “para isso, a UE precisa de uma estratégia de ajustamento e não de um escudo contra a mudança”.

Propostas alternativas do Bruegel

O think tank recomenda alinhar as tarifas entre os dois tipos de veículos e negociar um acordo limitado no tempo com Pequim que estabeleça quotas de exportação para ambos, apoiado por um mecanismo de reversão automática caso seja violado.

Segundo informações, a UE deu este mês um primeiro passo junto da China precisamente para limitar as exportações de híbridos, e a sugestão tem precedentes.

A Europa limitou as importações de automóveis japoneses durante a década de 1990, o que fez subir os preços para os consumidores, mas deu margem de manobra aos produtores europeus e levou fábricas japonesas a instalarem-se no continente.

O Canadá abriu este ano uma quota que permite a entrada de 49 000 veículos elétricos chineses com uma taxa de 6,1 %, aumentando para 70 000 até 2030, mantendo em vigor a sobretaxa de 100 % para além desse limite.

O Bruegel também não ignora que esta abordagem tem custos.

Uma quota poderá ser juridicamente contestável à luz das regras da Organização Mundial do Comércio, embora o instituto veja alguma margem de flexibilidade, e entregaria lucros adicionais aos exportadores chineses. Qualquer acordo, insiste, tem de ser estritamente temporário.

O investimento estrangeiro deve ser encarado como uma oportunidade de recuperação e não restringido, acrescenta, já que empresas sul-coreanas detêm 65 % da capacidade operacional de produção de células de bateria na Europa e firmas chinesas 55 % da capacidade atualmente em construção.

“O objetivo não deve ser impedir a concorrência com a China, mas dar tempo aos produtores europeus para recuperarem terreno”, conclui o relatório.

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