A invasão da RUC por um grupo de 17 elementos do partido de direita populista, incluindo as deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro, aconteceu depois de o partido ter sido impedido de estar presencialmente num debate e convidado a participar apenas por via remota.
O que era para ser um debate entre elementos de várias juventudes partidárias sobre as implicações do Orçamento de Estado de 2027 para os alunos do Ensino Superior acabou por transformar-se, esta segunda-feira de manhã, numa ação de campanha mediática do Chega, quando 17 elementos do partido de direita radical entraram à força nas instalações da Rádio Universitária de Coimbra (RUC), exigindo participar no debate. O grupo era encabeçado pelas deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro.
As deputadas justificaram a ação num vídeo publicado nas redes sociais, onde explicam que, ao contrário dos representantes dos outros partidos, o Chega foi convidado a participar apenas à distância, já que uma deliberação de fevereiro da Associação Académica de Coimbra (AAC) impede o Chega de aceder ao edifício-sede, onde se situam os estúdios da RUC.
No vídeo, Rita Matias diz que o Chega é "incancelável" e que o partido foi "proibido de estar fisicamente no debate, por isso decidiu ir fisicamente às instalações para debater por via das ideias". O vídeo mostra também as duas deputadas a tentar interromper o debate radiofónico, tentando chegar aos microfones perante a recusa dos responsáveis pelo programa, até que estes decidem pôr fim à emissão.
Perante o convite "condicional" feito ao Chega, o líder da distrital de Coimbra do partido, Jaime Seco, tinha respondido que o partido não estaria presente.
Jaime Raposo, responsável pelo departamento de informação da RUC, contou a sua versão dos acontecimentos à agência Lusa: "Ignorámos a presença do Chega e continuámos o debate, mas, a determinado momento, a Rita Matias pegou num microfone do estúdio e eu decidi cortar a emissão. Vários membros estavam a gravar tudo com os seus telemóveis. Pedi-lhes para pararem de gravar e saírem do estúdio, mas disseram que iriam ficar e que também queriam participar no programa", conta.
Ainda segundo Jaime Raposo, os elementos do Chega só abandonaram o estúdio quando chegaram três agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), chamados ao local.
A AAC enviou posteriormente um comunicado às redações, no qual diz que os acontecimentos desta manhã constituem “um claro desrespeito para com a soberania da Associação Académica de Coimbra”. O comunicado diz que “durante cerca de uma hora viveram-se momentos de grande tensão, após este conjunto de indivíduos se ter barricado insubordinadamente no interior do edifício, invadindo os estúdios da RUC e os gabinetes da direção-geral”.
Chega proibido desde fevereiro de entrar na AAC
A deliberação que proíbe os elementos do Chega de entrar nas instalações da AAC foi aprovada no dia 25 de fevereiro, na Assembleia Magna, com 273 votos a favor, três contra e 30 abstenções.
O voto foi então justificado como “uma posição clara e consolidada da comunidade estudantil” face ao partido de André Ventura. O Chega ficou então excluído, citando o documento, "de visitas ao edifício-sede, em moldes eleitorais, políticos, institucionais ou em demais situações extraordinárias", ficando "igualmente vedada a sua participação em eventos ou iniciativas cívicas, sociais, económicas, mediáticas ou políticas dos órgãos centrais, intermédios e estruturas da AAC".
O documento, intitulado “Posicionamento global da Associação Académica de Coimbra perante o partido Chega”, foi inicialmente proposto no dia 1 de fevereiro pela direção da AAC e aprovado por larga maioria.
Não foi uma decisão tomada como resposta a um episódio específico, mas, segundo a direção da AAC, foi motivada pelo “discurso de ódio e xenófobo promovido pelo Chega", que a organização estudantil considera "incompatível com os princípios estatutários da instituição". A AAC referiu, nomeadamente, a “materialização negativa política de minorias, em particular de etnia cigana ou indostânica", que "espelha uma clara visão desigual da sociedade, firmando-se numa narrativa profundamente xenófoba”, segundo o comunicado então emitido.
A decisão motivou, na altura, o repúdio por parte das estruturas do Chega em Coimbra, que rejeitaram, como "difamatórias e infundadas", as acusações de racismo e xenofobia e consideraram o documento "um ato de censura política e intolerância ideológica".