Os Estados Unidos convidaram formalmente Vladimir Putin para participar na cimeira do G20 em Miami. Já a União Europeia afirma que manterá a sua posição e condenará a guerra da Rússia contra a Ucrânia em qualquer caso.
A União Europeia vai usar a próxima cimeira do G20 em Miami para condenar a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, independentemente de o presidente russo, Vladimir Putin, aceitar ou não o convite norte-americano para participar no encontro de alto nível.
A UE é membro de pleno direito do G20 e está representada pelos presidentes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa.
“O G20 é um fórum fundamental para enfrentar desafios globais existentes e emergentes, alguns dos quais foram criados precisamente pela guerra da Rússia contra a Ucrânia”, afirmou na quinta-feira Olof Gill, porta-voz adjunto principal da Comissão.
“Recordo também que a Rússia está a intensificar os ataques contra civis ucranianos neste momento. Julho e agosto foram os meses mais mortíferos desde o início da guerra”, acrescentou.
“Desde 2022, a UE tem usado de forma consistente e firme as reuniões do G20 para condenar a invasão em larga escala pela Rússia e apelar para que termine. O que posso dizer hoje é que esta abordagem, do ponto de vista da União Europeia, vai continuar independentemente dos participantes em qualquer reunião do G20.”
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, confirmou na quarta-feira que o seu país, que detém a presidência rotativa do G20, convidou formalmente Putin para participar na cimeira que o presidente Donald Trump irá acolher no seu resort de golfe em Miami.
“Consideramos que é uma oportunidade para ele dialogar não apenas com o presidente, mas com outros líderes mundiais. Esperamos que seja um convite que ele aceite”, disse Rubio.
Em resposta, o Kremlin afirmou estar “grato e reconhecido” e que iria analisar o convite. Putin tem faltado às cimeiras do G20 desde o início da guerra. A última participação presencial foi em Osaka, em 2019. Em 2020 e 2021 participou à distância.
A notícia deixou os europeus inquietos, eles que têm defendido de forma consistente o isolamento de Putin e dos seus colaboradores no palco internacional. A administração Trump, porém, não partilha esta estratégia e prefere a inclusão da Rússia nestes formatos de alto nível.
A decisão inesperada de Washington de convidar o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, para uma reunião ministerial em agosto foi recebida com indignação pelos europeus. Após protestos, Siluanov acabou excluído da foto de família.
Questionado sobre se von der Leyen vai boicotar a foto de família se Putin participar, o porta-voz recusou comentar cenários hipotéticos.
“Vamos ver como evolui a situação”, declarou Gill.
Numa entrevista à Sky News, a alta representante Kaja Kallas foi mais crítica em relação a uma eventual presença de Putin - a própria Kallas não está convidada para o encontro de Miami.
“Temos de discutir isto em conjunto com os colegas, mas é claramente, penso eu, o caminho errado normalizar pessoas que iniciam guerras, que vão contra a Carta das Nações Unidas, que matam e dão ordens para matar civis, que ignoram o direito humanitário internacional, que procuram causar o máximo possível de danos e sofrimento às pessoas”, disse.
Entretanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou que a cimeira de Miami pode proporcionar uma oportunidade para a reunião trilateral que há muito propõe com Trump e Putin, apoiada por Trump mas repetidamente rejeitada por Putin.
Kiev tem tentado reativar o processo de paz conduzido por Washington, mas Moscovo revelou pouca vontade de se envolver, preferindo intensificar os ataques aéreos.
“A Ucrânia apoiará, se esse formato for aprovado e houver um acordo correspondente”, disse Zelenskyy.
O G20 inclui vários aliados da Ucrânia: Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e UE. Os líderes da Finlândia, Irlanda, Países Baixos, Noruega, Polónia e Espanha terão também sido convidados.
Mas abrange igualmente países que mantêm laços estreitos com Moscovo, como a China, a Índia e a Arábia Saudita, que veem no G20 um contrapeso ao mais exclusivo G7, de onde a Rússia foi expulsa após a anexação da Crimeia em 2014.