Mais de 400 camiões vão participar esta sexta-feira numa marcha lenta entre o norte e centro do país, em protesto contra o aumento do preço dos combustíveis. A iniciativa é promovida por empresas da construção civil, que reclamam do Governo apoios semelhantes aos concedidos ao setor dos transportes.
O aumento do preço dos combustíveis volta a levar protestos às estradas portuguesas esta sexta-feira, com a maior ação prevista para o norte e centro do país. São esperados mais de 400 camiões numa marcha lenta entre Lordelo e Coimbra que deverá ter impacto em três autoestradas: A1, A41 e A42.
O protesto está a ser organizado por grupos do subsetor da construção civil que agrega empresas de terraplanagem, movimentação de terras, escavação e extracção de materiais, que reclamam "respostas concretas" do Governo.
Este movimento ganhou forma devido ao descontentamento que os empresários deste subsetor da construção civil sentiram após o Governo anunciar medidas extraordinárias para alguns setores, nomeadamente os transportes, mas deixando de fora este ramo de empresas.
Miguel Machado Mendes, advogado representante dos promotores da iniciativa, realçou, em declarações à agência Lusa, que este é um subsetor da construção civil "muito exposto e vulnerável ao aumento do custo das energias", nomeadamente do gasóleo, que aumentou 63 cêntimos por litro desde fevereiro até agora, segundo os promotores do movimento.
O combustível pode representar perto de 70% do preço final apresentado por algumas destas empresas aos seus clientes.
A principal reivindicação desta iniciativa passa pela criação de descontos profissionais semelhantes aos existentes para atividades de transporte de passageiros e mercadorias.
O responsável afirmou que as empresas deste subsetor "têm vindo a absorver sucessivos aumentos de custos, novas exigências e alterações às condições de trabalho", mas alertou que "essa capacidade tem limites".
"Se não conseguirem continuar a trabalhar em condições economicamente sustentáveis, muitas obras do país serão inevitavelmente afetadas", garantiu.
A marcha deverá prolongar-se durante várias horas. Por se tratar de uma marcha lenta e não de um corte formal das autoestradas, o objetivo é circular a velocidade reduzida, mas a dimensão prevista da coluna poderá provocar filas e atrasos significativos ao longo do percurso.
A GNR vai estar a acompanhar e a monitorizar a iniciativa, tendo preparado um dispositivo policial "especialmente direcionado" para o acompanhamento da marcha, com forças pré-posicionadas nas zonas de acesso às autoestradas, viadutos e áreas envolventes.
Esta força de segurança apela a todos os condutores que "planeiem antecipadamente as suas deslocações, acompanhem as informações relativas ao trânsito e cumpram as indicações dos militares no terreno".
Confrontado com o anúncio desta marcha lenta, o ministro da Economia afirmou na quinta-feira em Bruxelas que "o governo está sempre atento à realidade e em contacto com as associações empresarias, nomeadamente da área dos transportes", no sentido de perceber que medidas devem ser tomadas em cada momento.
Manuel Castro Almeida lembrou que o Governo acordou apoios seletivos aos transportadores e agricultores e afirmou que o executivo está disponível "para participar neste esforço que os portugueses estão a fazer", mas garantiu que tem um limite: "Não vamos quebrar o princípio das contas certas".
Castro Almeida insistiu ainda numa recomendação já feita pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho: "Se houver alternativa, o conselho que damos é que as pessoas tentem consumir menos", afirmou.
Há ainda outras ações pleaneadas contra o preço dos combustíveis e o custo de vida, embora não façam parte da mesma organização da marcha dos empresários das terraplanagens.
Para Lisboa foi anunciada uma nova ação na Ponte 25 de Abril, promovida pela associação de utentes da ponte. A iniciativa inclui um buzinão e marcha lenta e junta à contestação do preço dos combustíveis reivindicações como a suspensão das portagens, do IVA e do ISP e a aplicação de IVA zero a alimentos e medicamentos.
No sábado há nova contestação. Cerca de 30 empresas de transportes de mercadorias reúnem-se no Carregado, também em protesto contra o impacto do aumento dos combustíveis.
"Até agora ainda ninguém nos deu apoio nenhum, ainda não recebemos nada para contrariar esta situação", reclamou Diogo Mata, um dos organizadores da reunião, em declarações à Lusa.
No encontro estarão transportadores "de todo o país, mas maioritariamente da zona de Lisboa", tendo em vista "discutir medidas de luta" face ao impacto da escalada do preço do gasóleo, que representa cerca de metade dos respetivos custos do setor.
Na semana passada, o Governo acordou um conjunto de medidas para fazer face ao preço dos combustíveis, entre elas um apoio extraordinário de 118 a 458 euros por veículo para o transporte de mercadorias e os veículos de pronto-socorro, num total de 30 milhões de euros, e de 420 euros por autocarro para os operadores privados de transporte de passageiros, num envelope total de cinco milhões de euros.
No entanto, os organizadores da reunião de sábado dizem que "não é suficiente" e que "as empresas pequenas nunca recebem nada". "É só para os grandes", afirmam.
Nas últimas semanas têm ocorrido vários protestos contra a escalada do preço dos combustíveis. No passado dia 7, além de um buzinão na Ponte 25 de Abril, entre Almada e Lisboa, uma marcha lenta de automóveis percorreu as estradas de acesso à refinaria da Galp em Sines, provocando mais de 10 quilómetros de fila no IC33, além de constrangimentos noutras vias.
Os preços do gasóleo na União Europeia (UE) registaram um novo máximo, alcançando 2,23 euros por litro, em comparação com 2,16 euros na semana anterior, segundo dados da Comissão Europeia analisados pela AFP. A escalada de preços fixou recordes em 19 países, impulsionada pelas crises energéticas no Médio Oriente e na Ucrânia.
É esperada uma descida do preço dos combustíveis já a partir de segunda-feira. O gasóleo deverá registar uma descida de 7,5 cêntimos por litro na próxima semana, caindo assim para um preço médio de 2,146 euros por litro.
Também a gasolina deverá baixar, embora de forma menos acentuada. A descida prevista é de 3,5 cêntimos por litro, colocando o preço médio nos 2,08 euros.