A edição deste ano apresentou mais de 280 filmes de autores consagrados e emergentes, oriundos de 50 países.
O Animasyros, a grande festa do cinema de animação grego, realizou-se pela 19.ª vez consecutiva em Ermoupoli.
Com um programa mais abrangente do que nunca, o maior Festival Internacional de Cinema de Animação na Grécia,e um dos 20 principais do género na Europa, reuniu durante uma semana (21-27 de setembro) mais de 280 filmes de autores consagrados e novos criadores de 50 países diferentes.
Para além das 7 secções competitivas (Internacional, Estudantil, K.ID.S, AnimaPride, Competição Nacional, TV & Commissioned Films & Longas-Metragens), a edição deste ano incluiu um foco especial na animação irlandesa, uma programação temática pelos 200 anos de Ermoupoli, oficinas educativas, atividades paralelas, parcerias internacionais e um Mercado que se afirma como centro de referência para toda a indústria da animação no Mediterrâneo Oriental.
Vassilis Karamitsanis, presidente do Festival Internacional Animasyros, falou à Euronews sobre o que a iniciativa já alcançou e o que está previsto para o próximo ano, quando o Animasyros assinala duas décadas de existência:
“O Animasyros, nestes 18-19 anos em que está no centro das atenções, ou que passaram desde a sua criação, em já distante 2008, creio que se tornou o mais importante pólo para o cinema de animação no Mediterrâneo e na Grécia. É uma grande promoção internacional do talento grego e europeu em todo o mundo e procura, ao mesmo tempo, destacar novas técnicas e tecnologias no domínio da animação, que considero serem a chave para um futuro sustentável do sector audiovisual em geral e da animação europeia em particular", diz.
“Quanto a 2027, ano em que se completam 20 anos desde a fundação do festival, diria que, em primeiro lugar, queremos continuar a ser um pólo sustentável para a animação grega e europeia", adianta. "Em segundo lugar, queremos conseguir renovar-nos e captar o interesse de um público cada vez mais vasto. E, em terceiro lugar, o nosso grande objetivo, o nosso novo ‘bebé’, é o Animasyros Espace", conclui.
O "Animasyros Espace" é "um edifício autónomo no coração de Ermoupoli, que terá também funções de espaço social, para acolher a comunidade local. Não se destina apenas ao universo audiovisual, mas à sociedade da cidade e da ilha no seu conjunto. E, claro, haverá quartos para podermos organizar residências artísticas e intercâmbios. O projeto avança com o apoio dos EEA Grants, da Noruega, Islândia e Liechtenstein, países doadores que apoiam a recuperação do edifício e a integração de novas funções neste espaço", afirma.
Uma das presenças mais marcantes desta edição foi o reconhecido e multi-galardoado sound designer Olivier Calvert .
Com uma longa carreira e colaborações com alguns dos principais realizadores e instituições, o criador canadiano, sediado em Montreal, tem desenhado o universo sonoro de numerosas produções de prestígio, entre as quais a curta-metragem galardoada com Óscar "The Girl Who Cried Pearls", além de ter integrado a equipa de som vencedora de Óscar do filme "Arrival", de Denis Villeneuve.
No âmbito do festival, apresentou uma masterclass dedicada ao som como ferramenta narrativa determinante, acompanhada de um foco na sua obra, com uma seleção de filmes.
“O sound design molda o som global de um filme, por isso pode trabalhar-se todo o ambiente sonoro. Pode ser realista, com pássaros, sons do trânsito, do mar, das ondas. Mas também pode funcionar a um nível mais subconsciente", esclarece adianto que esta área, da qual é apaixonado, pode " de facto, criar tensão numa cena, construindo outros sons por baixo da música, por baixo da voz, ou retirando sons. Podemos criar tensão dessa forma. É importante, porque o som é o filtro através do qual vemos a imagem. Dá-nos a emoção com que olhamos para essa imagem. Há uma frase de que gosto muito e que foi o subtítulo da minha masterclass: ‘A imagem é o corpo, mas o som é a alma’.”
“Para mim, é todo o sentimento do filme. É todo o som, não apenas a música. De certa forma, todos os sons são música, por isso contribuem para a emoção do filme. Há uma grande diferença entre filmes de imagem real e filmes de animação. Nas obras com atores, o ponto de partida é criar som para um ambiente natural. Na animação, tudo é construído, é um mundo totalmente novo, por que razão o som há de ser natural e verdadeiro? Num filme de animação não precisamos que o som seja realista. Podemos criar um mundo completamente diferente, único. Um novo universo por descobrir, tanto do ponto de vista da imagem como do som."
“Por vezes, envolvo-me muito cedo no processo criativo, especialmente com realizadores com quem já trabalhei. Chamam-me cada vez mais cedo, porque podemos ajudar a dar forma ao filme usando o som como ferramenta de narração. Pode contar-se uma história apenas com imagens e pode contar-se uma história apenas com sons. O desafio é construir uma narrativa através da colaboração entre imagem e som. Aí, posso ajudar o realizador a conseguir esse resultado. Sou uma espécie de diretor artístico para o som.”
“Assumo também, de certo modo, o papel de conselheiro. Assim que sou contratado para um filme, começamos a discutir as ideias em torno do projeto. E trabalhamos em conjunto com o compositor. Eu não sou compositor, por isso colaboro sempre com outra pessoa responsável pela música. Esse trio (realizador, compositor e sound designer) é muito importante. Para mim, a banda sonora do filme é um todo. Há a música, por um lado, e os efeitos sonoros, por outro. Tudo funciona em conjunto, é uma grande colaboração entre realizador, compositor e designer de som. Sim, há uma grande sinergia entre os três.”
O festival deste ano abriu com a estreia pan-helénica do filme Decorado, do espanhol galardoado com Goya Alberto Vásquez (Unicorn Wars, Birdboy: The Forgotten Children), apoiada pela Embaixada de Espanha na Grécia e pelo Instituto Cervantes.
A obra, distinguida com o Prémio Paul Grimault no festival de Annecy deste ano, evoca o universo de “The Truman Show” em versão animação.
É uma comédia negra existencial sobre o absurdo da vida contemporânea e o controlo que se procura exercer sobre nós, com o estilo visual macabro característico do realizador, que combina inocência e humor negro com uma realidade distópica muito próxima. Em Ermoupoli esteve presente José Luis Ágreda, diretor criativo do filme:
O filme "Decorado" de Alberto Vazquez é "uma parábola", avança o diretor criativo. "Uma parábola sombria sobre a nossa sociedade e sobre a forma como cada um de nós, cada indivíduo, se sente dentro dela. O filme fala também da forma como a sociedade, ou mais concretamente as empresas, tentam desumanizar as pessoas. A história acompanha um homem desempregado, para quem tudo é estranho. Não reconhece o que o rodeia como realidade, porque nada tem que ver com ele. Há humor e há estas personagens animalescas muito cómicas. Mas, quando o público entra no mundo do filme, percebe que se trata de uma distopia, de um universo que se torna cada vez mais escuro. E compreende que isso lhe diz respeito, porque espelha o mundo de hoje. Foi a nossa forma de levar os espectadores a refletir sobre o que está a acontecer à nossa volta.”
“O estilo de animação que usamos tem muitas referências aos clássicos desenhos animados da Disney, ou seja, à animação americana clássica. Mas introduzimos um toque diferente, para que os espetadores não reconheçam imediatamente essas referências e, ao mesmo tempo, sintam que há algo estranho. É como um mundo muito feliz, como a sociedade que nos tentam vender, mas com algo podre no seu interior. Trabalhamos essas personagens e esse tipo de ambiente, criando cores estranhas, combinações de cores inesperadas. No fim, o público sente: ‘Está bem, isto é um pesadelo, não um sonho’.”
“O que acontece ao protagonista, Arnold, é semelhante ao que vivemos nas redes sociais. Sentes que estás no centro de tudo, no centro da atenção, mas não estás. Tudo à tua volta é construído, falso, não é real. Isso tem que ver com o facto de vivermos numa sociedade centrada na aparência e não no ser. Essa é a ideia que está por detrás do nosso filme: estamos num palco, num cenário, onde desempenhamos um papel sem perceber o que está realmente a acontecer à nossa volta. Não percebemos que tudo é fabricado. Isso dá-nos a impressão de que tudo é perfeito. E, como consequência, deixamos de olhar para os grandes problemas da nossa sociedade.”
Prémios
O Grande Prémio da Competição Internacional do 19.º Animasyros foi atribuído ao filme “Please”, de Anna Mantzaris, enquanto o prémio da Competição Grega foi para Konstantinos Demis, por “The Dog”.
Na Competição Estudantil, o prémio foi para Gauze, um filme sobre a Palestina criado por uma equipa de cinco estudantes da escola GOBELINS Paris, Noran Fikri Alezabi, Nicholas Arujah, Xinyue Ma, Yulin YUE e Xiaonan Zhou.
Na categoria Televisão e Filmes Encomendados, o galardão foi para Saltwater, de Eilidh Nicoll, do Reino Unido.
A secção competitiva Animapride reúne filmes com conteúdos LGBTQI+ e destaca a criatividade, a expressão queer e a aceitação.
O júri atribuiu o prémio ao filme Eyeliner, de Aisha Boujilouli. O primeiro prémio na categoria K.ID.S foi para The Eagle and the Kinglet, de Paul Jadoul, da Chéquia.
O Prémio do Público do ANIMASYROS 2026 foi para o filme Unstoppable, de Martin Lund, uma aventura irreverente, cheia de humor e emoção.