Responsáveis da Nvidia, OpenAI e Anthropic assinaram terça‑feira um compromisso com a Casa Branca para controlar a IA, sem força legal; na UE arriscam multas até 3% do volume de negócios global se violarem as regras.
Reunidos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, esta terça‑feira, os nomes mais influentes da tecnologia saíram da cimeira com a promessa de manter sob controlo as suas próprias criações.
Trump afirmou que os executivos, entre eles Jensen Huang, da Nvidia, Greg Brockman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, assinaram um compromisso “moralmente vinculativo” para incorporar salvaguardas na inteligência artificial (IA).
O pacto não tem força legal nem define sanções claras em caso de violação.
“Vão ser eles a vigiar‑se”, disse Trump aos jornalistas após a reunião.
O almoço reuniu 31 convidados, incluindo Mark Zuckerberg, da Meta, Elon Musk, o fundador da Amazon Jeff Bezos, Satya Nadella, da Microsoft, e Sundar Pichai, da Google, numa altura em que, em Washington, o clima em relação à IA se torna cada vez mais negativo.
Os legisladores enfrentam uma pressão crescente dos eleitores para travar ou abrandar o desenvolvimento da tecnologia, por receio de que possa substituir trabalhadores e alterar profundamente a sociedade. Uma série de incidentes nos últimos meses, em que sistemas autónomos da OpenAI escaparam aos mecanismos de controlo, veio alimentar esses receios.
O primeiro foi uma violação de segurança na Hugging Face, uma plataforma amplamente usada para partilhar modelos de IA, em julho. Na segunda‑feira, a OpenAI cancelou o lançamento do seu mais recente modelo, Astra 6.1, depois de testes internos concluírem que não cumpria as normas de segurança.
Eis os principais pontos da cimeira.
Estados Unidos: líderes tecnológicos apostam na autorregulação
O documento, batizado Acordo da Casa Branca, estabelece o compromisso da indústria de se autorregular. Não é juridicamente vinculativo, mas deixa em aberto a possibilidade de “transformar estes passos em leis ou regulamentos”, se isso fizer sentido com o tempo.
Zuckerberg afirmou que o acordo pretende garantir aos clientes que a IA “funciona da forma que pretendemos”. Segundo disse, inclui “controlos internos robustos” e várias camadas de auditoria, desde análises internas de risco a auditores externos e supervisão pelos conselhos de administração, e descreveu o texto como um ponto de partida para normas comuns em todo o setor.
Musk foi mais direto. Disse que os executivos concordaram, no essencial, em “avaliar os trabalhos uns dos outros, o que é muito melhor do que se cada um avaliasse apenas o seu próprio trabalho, por razões óbvias”.
Trump afirmou que, nos próximos dias, irá nomear alguém para supervisionar o acordo e sugeriu também a criação de um comité de cerca de dez pessoas para “vigiar todo o empreendimento”.
A empresa de Amodei tem mantido confrontos duros com a Casa Branca sobre segurança na IA, e o executivo deixou um recado mais cauteloso do que os seus pares.
“Como o presidente disse, quem vencer na IA vence. Penso que isso é muito importante”, afirmou Amodei após a reunião. “Mas acho que a tecnologia tem riscos muito reais e o mecanismo, a forma como vamos lidar com esses riscos, continua em discussão.”
A empresa avisou recentemente os investidores, no prospeto da sua entrada em bolsa, para potenciais riscos existenciais para a humanidade. A Anthropic pretende cotar‑se em bolsa já em novembro.
Estados Unidos: incentivos para centros de dados
Aconselhado por Huang e pelo seu antigo “czar” da IA, David Sacks, Trump tem defendido um desenvolvimento sem entraves da tecnologia, para superar a China e alimentar uma economia norte‑americana cada vez mais dependente do crescimento impulsionado pela IA.
Essa aposta passa pelos centros de dados, enormes instalações de computação que consomem muita energia e de que a IA depende. Em ambos os partidos, tornaram‑se tema sensível nas corridas às eleições intercalares, à medida que as comunidades se preocupam com o aumento das faturas de eletricidade e a pressão sobre a água e o território.
Uma sondagem NPR/PBS News/Marist, realizada em 14 e 15 de setembro, concluiu que 65% dos eleitores registados se opunham a que fossem construídos centros de dados nas suas comunidades, sendo que 43% estavam fortemente contra.
Mais de 80% dos Democratas eram contra, enquanto os Republicanos se mostravam divididos, com 44% a oporem‑se e 46% a favor.
Em 16 de setembro, a Câmara dos Representantes aprovou, por 417 votos contra 3, o Ratepayer Protection Act (Lei de Proteção dos Consumidores de Energia). A proposta obriga os estados a ponderar regras que façam os centros de dados pagar pelas melhorias na rede elétrica e pelo aumento dos custos da eletricidade, em vez de os transferirem para as famílias. O diploma ainda não foi aprovado pelo Senado.
No início deste mês, Trump escreveu na rede Truth Social que as comunidades que rejeitam centros de dados estão a escolher ser “atrasadas e pobres”. Após a reunião de terça‑feira, adotou um tom mais brando, afirmando que as empresas de IA “serão muito generosas” com as comunidades que as acolherem.
“Vão ajudar as escolas, vão ajudar os professores”, garantiu.
Estados Unidos: Trump substitui inteligência artificial por super inteligência
Trump confirmou também que irá renomear oficialmente a tecnologia como “super inteligência” em vez de inteligência artificial “porque não é artificial”.
Horas mais tarde, assinou uma ordem executiva instruindo o governo federal a usar os termos super inteligência e SI sempre que possível.
“‘Super Inteligência’ descreve de forma mais adequada a promessa, o potencial e as capacidades em rápida evolução destas tecnologias”, lê‑se na ordem.
União Europeia: Bruxelas impõe regras vinculativas para a IA
Do outro lado do Atlântico, a União Europeia inscreveu as salvaguardas na lei. O AI Act, que Bruxelas apresenta como a primeira legislação abrangente do mundo sobre IA, aplica‑se a qualquer empresa que venda sistemas de IA no bloco, independentemente de onde esteja sediada.
Desde agosto de 2025, as empresas responsáveis por modelos de IA de uso geral, como os desenvolvidos pela OpenAI, Anthropic e Google, são legalmente obrigadas a documentar o funcionamento dos modelos, partilhar informações essenciais com as empresas que constroem produtos a partir deles, respeitar a legislação europeia de direitos de autor e publicar um resumo dos dados utilizados no treino.
Os modelos mais poderosos enfrentam regras mais apertadas. Os seus criadores têm de testá‑los quanto a riscos, incluindo através de “red‑teaming” adversarial, comunicar incidentes graves a Bruxelas e manter os sistemas protegidos contra ciberataques.
Estas regras têm força efetiva. Desde 2 de agosto, o Gabinete da IA da Comissão Europeia pode exigir informações às empresas, realizar avaliações próprias dos modelos e ordenar que sejam restringidos ou retirados do mercado da UE.
As empresas que violarem as regras arriscam multas até 15 milhões de euros ou 3% do volume de negócios anual mundial, consoante o montante mais elevado. Para as grandes tecnológicas, isso pode significar milhares de milhões.
Um código de conduta voluntário acompanha a lei para ajudar as empresas a cumprir. Mas, ao contrário do pacto da Casa Branca, a sua assinatura é opcional — respeitar o AI Act não é.