Das pescas à agricultura, passando pelos transportes de mercadorias e de passageiros, são vários os setores que têm vindo a sentir o impacto dos expressivos aumentos registados, desde o início da guerra no Médio Oriente, nos preços dos combustíveis em Portugal.
"Qualquer setor que integre os combustíveis rodoviários na cadeia [de valor] vai ter um sobrecusto por culpa da tendência de aumento dos preços nos últimos meses." Quem o diz é Nuno Figueiredo, porta-voz da DECO PROteste, organização portuguesa de defesa do consumidor, numa altura em que os preços de venda ao público destes bens energéticos, em Portugal, estão várias dezenas de cêntimos acima do registado no dia em que teve início a guerra no Médio Oriente.
Apesar do ligeiro alívio registado nos preços dos combustíveis na segunda-feira, a monitorização feita pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) permite concluir que a 28 de fevereiro, data em que estalou o conflito, o preço médio do gasóleo simples e da gasolina simples 95 era de 1,596 e 1,681 euros por litro em Portugal Continental, respetivamente. Quase sete meses depois, a 27 de setembro, os valores fixavam-se já em 2,219 e 2,113 euros por litro, por esta ordem. Mais 62 e 43 cêntimos por litro em cada um destes casos.
Uma realidade que surge num contexto de fortes perturbações nos mercados petrolíferos provocadas pelo conflito travado entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão, que tem resultado em danos significativos em infraestruturas energéticas e refinarias na região do Médio Oriente. Mas também pelas restrições à circulação de embarcações no Estreito de Ormuz, por onde passava, antes da guerra, cerca de 20% do consumo mundial de petróleo.
Com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a inflação em Portugal, o porta-voz da DECO PROteste destaca que, no mês de agosto, esta taxa acelerou para 3,3%, num fenómeno "quase na totalidade" explicado "pelo aumento do preço do gasóleo", segundo esta entidade. Contas feitas, nesse mesmo mês, os preços dos produtos energéticos subiram para 12,2% face ao período homólogo. Desta forma, sustenta Nuno Figueiredo, é possível "afirmar assertivamente que o efeito [dos altos preços dos combustíveis] será quase transversal a toda a economia".
Porém, numa altura em que "praticamente todos nós dependemos diretamente ou indiretamente dos combustíveis", alguns setores sentem "de forma mais imediata" as consequências destas subidas, sublinha Nuno Figueiredo em declarações à Euronews. Neste artigo, explicamos quais as atividades que mais sofrerão o impacto dos elevados preços praticados nas estações de serviço nas últimas semanas.
Das pescas à agricultura (mas não só)
Entre os setores onde esses efeitos poderão ser notados de forma mais expressiva nos próximos tempos, encontra-se o das pescas. Isto porque "o custo de cada saída para o mar, com o combustível mais caro", será mais elevado à partida, pelo que "vai refletir-se mais rapidamente no preço do produto final", diz à Euronews o porta-voz da organização portuguesa de defesa do consumidor.
O mesmo deverá acontecer com a agricultura. "Os custos vão-se acumulando ao longo de todo o período de cultivo e depois, mais tarde, por culpa disso, vão refletir-se também nas carteiras dos consumidores."
Em ambos os casos, "o consumidor sofre indiretamente com as consequências dos preços" dos combustíveis. Até de forma "indireta", devido a "toda a logística envolvida" na disponibilização dos produtos ao cliente. "Todo o tipo de transportes associados à indústria" e à circulação de mercadorias vai, portanto, "ter também custos acrescidos", aponta Nuno Figueiredo.
"Portanto, automaticamente, vai ser o consumidor, como o último da cadeia, a despender mais dinheiro para comprar aquilo que antes comprava mais barato", conclui o representante da DECO PROteste.
De facto, ao "Dinheiro Vivo", a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) e a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) avisaram que esta subida dos preços dos combustíveis acabaria por ser paga, em última análise, pelos consumidores.
E em declarações proferidas no início de setembro à rádio Antena 1, quando o preço dos combustíveis ultrapassava já os dois euros por litro, o diretor-geral da APED - Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, Gonçalo Lobo Xavier, alertou igualmente que tal iria "repercutir-se no preço final dos bens" à venda nos supermercados. O efeito, porém, não seria necessariamente imediato ou integral, assegurava a APED, dizendo que o retalho tem absorvido parte do aumento através de "reduções de margens” de lucro.
O impacto recente no cabaz alimentar
Apesar deste enquadramento, acrescenta ainda Nuno Figueiredo, o cabaz alimentar de 63 bens essenciais monitorizado por esta organização portuguesa de defesa do consumidor registou, na semana entre 16 e 23 de setembro, uma descida de preço de 1,86 euros face aos sete dias anteriores. Um "contrassenso", nas palavras de Nuno Figueiredo, já que "contrariou a tendência de subida dos combustíveis" registada durante "três ou quatro semanas seguidas", no período que antecedeu essa análise.
E como se explicam esses números? "Há produtos que baixaram de valor e que não tiveram uma relação direta, ou que não atribuímos uma relação direta, ao preço dos combustíveis, caso contrário, teriam aumentado também." O país está, portanto, a viver uma situação em que não se consegue "sequer fazer uma previsão" sobre "o que vai acontecer amanhã", evidencia o porta-voz da DECO PROteste.
Perante este cenário, Nuno Figueiredo aconselha os consumidores a "recuperar o que se fazia antigamente e a fazer as compras do mês", optando por ir ao supermercado "nas semanas em que haja uma tendência de descida dos valores" do cabaz. Isto de modo a evitar "oscilações semanais" que possam ser penalizadoras para a carteira.
"O melhor conselho que pode haver é tentar aproveitar alturas em que os preços baixaram, no caso da alimentação em concreto, e tentar comprar uma quantidade maior daquilo que é necessário", afirma o representante.
Transportes? "Veículos elétricos vão sentir menos"
Tal como acontecerá com as mercadorias, também ao nível do transporte de passageiros poderão ser sentidos os efeitos dos aumentos dos preços do gasóleo e da gasolina. Especialmente os serviços que dependem "em exclusivo" deste tipo de combustíveis, explica Nuno Figueiredo à Euronews.
Facto é que, salienta ainda o porta-voz da DECO PROteste, "os veículos elétricos vão sentir menos" estas consequências, ainda que também "a eletricidade não esteja, propriamente, aos melhores preços".
Ao "Jornal de Negócios", Sónia Ferreira, presidente da Associação Nacional de Transportes de Passageiros (ANTROP), informou a 22 de setembro que a subida dos preços dos combustíveis pode representar um encargo adicional estimado em 35 milhões de euros para o setor dos transportes de passageiros em Portugal.
Subidas também estão a ser sentidas noutros setores
Representantes de outras atividades têm também vindo a alertar para as consequências que estes aumentos de preços nos combustíveis podem vir a ter sobre as empresas do setor. Foi esse o caso da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), que, segundo o "Jornal Económico", sublinhou que tal evolução é particularmente penalizadora para a construção, pelo facto de ser uma área indissociável do funcionamento de maquinaria e do transporte rodoviário de materiais.
Em particular, os empresários da terraplanagem saíram às ruas, na semana passada, tendo organizado uma marcha lenta com vista a alertar o Governo para as dificuldades enfrentadas. Os promotores da iniciativa referiram que o combustível representa quase 70% do preço final apresentado aos clientes, tendo depois, de acordo com a SIC Notícias, o Executivo liderado por Luís Montenegro aceitado estender o apoio de 10 cêntimos por litro já em vigor para o gasóleo profissional e agrícola a este setor.
Por sua vez, a AIMMAP – Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal, através do seu vice-presidente executivo, Rafael Campos Pereira, indicou que o custo do transporte rodoviário é uma das principais preocupações, reportando que as empresas que operam no setor estão a reduzir margens para continuarem competitivas "nos mercados”, noticia o ECO - Economia Online.
E à RTP, o setor da distribuição de medicamentos admitiu até limitar as entregas diárias, interrompendo-as aos fins de semana, estimando prejuízos derivados das subidas dos custos nas suas operações que podem chegar aos quatro milhões de euros este ano.