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Ucrânia: Kiev prepara-se para mais um inverno de ataques russos

Documentário exclusivo da Euronews “A guerra no céu”
Documentário exclusivo da Euronews “A guerra no céu” -  Direitos de autor  Euronews
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De Sasha Vakulina
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Documentário da Euronews acompanha a luta da Ucrânia para defender o céu, das equipas de defesa aérea aos civis que reparam estragos e se preparam para novo inverno de ataques.

Há anos que os ucranianos vivem com uma guerra que se desenrola não só na linha da frente, mas também por cima das suas cabeças. Em Kiev, a batalha no céu tornou-se parte da rotina diária, marcada pelos alertas de ataque aéreo, pelo som da defesa antiaérea e pelas explosões que se seguem.

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Numa posição de defesa antiaérea que protege a capital, o trabalho começa antes de qualquer coisa surgir no céu. Os soldados preparam as armas e procuram ameaças que podem chegar a velocidades muito diferentes e de várias direções.

O desafio já não é apenas o número de armas que a Rússia consegue lançar ao ar. Os ataques combinam cada vez mais tipos de ameaça: drones de ataque do tipo Shahed que chegam em grandes vagas, mísseis balísticos que deixam pouco tempo de reação aos defensores e novos drones mais rápidos que acrescentam outro perigo.

As rotas mudam. Os horários mudam. As armas aproximam-se por diferentes direções. O objetivo é encontrar falhas e saturar as várias camadas de defesa que protegem a cidade.

Para os soldados que vigiam o céu, tudo se transformou numa corrida tecnológica. Sempre que a Ucrânia encontra uma forma mais barata ou mais eficaz de travar os drones russos, a Rússia ajusta a forma como as suas armas voam, a velocidade a que se deslocam ou a maneira como se aproximam dos alvos.

A Ucrânia adapta-se. A Rússia adapta-se. E o ciclo recomeça.

Pavlo Tsugunov, comandante de uma bateria antiaérea, tem acompanhado essa evolução a partir do solo.

“Nas últimas semanas temos assistido a ataques constantes contra Kiev, os seus subúrbios, o centro da cidade, a região de Kiev e a região de Chernihiv”, afirma. “Ou seja, contra as casas onde vivem os nossos entes queridos.”

Tsugunov considera que a pressão sobre os civis é, em si mesma, parte da estratégia da Rússia.

“Esta tática pretende muito provavelmente intimidar a população civil”, diz. “Como neste momento não conseguem avançar nas operações de combate direto na linha da frente, tentam intimidar a população para que deixe de apoiar o exército e, consequentemente, para que o exército aceite render-se.”

Tropas de defesa antiaérea na região de Kiev, Ucrânia, 29 de setembro de 2026
Tropas de defesa antiaérea na região de Kiev, Ucrânia, 29 de setembro de 2026 Euronews

Mas os limites da defesa antiaérea são visíveis por toda a cidade de Kiev.

À porta de um jardim-de-infância danificado num ataque, um rapaz aponta para o edifício e conta à Euronews que viu o drone atingi-lo.

“O drone passou mesmo por cima das nossas cabeças e atingiu aqui”, relata.

Quando as armas conseguem passar

Quando uma arma consegue passar, começa outra corrida, desta vez no solo.

Um dos principais alvos da Rússia continua a ser o sistema energético ucraniano. Numa instalação elétrica danificada na região de Kiev, as equipas de reparação trabalham para restabelecer a rede enquanto persiste a ameaça de novo ataque.

Trabalham para a DTEK Kyiv Regional Grids, o operador de distribuição responsável pela rede que leva eletricidade, através de linhas e subestações, às comunidades de toda a região de Kiev.

As equipas só podem começar a reparar os danos quando a situação de segurança o permite. Após um ataque, têm de aguardar autorização das forças armadas e dos serviços de emergência antes de entrarem nos locais atingidos.

Serhii, técnico de reparação, explica que os residentes aguardam o regresso da eletricidade, mas que os sucessivos alertas de ataque aéreo estão a atrasar o trabalho.

“As pessoas pedem-nos para voltarmos a ligar a luz, mas não o podemos fazer porque os alarmes disparam constantemente, todos os dias, o dia inteiro”, diz.

Enquanto fala à Euronews, ouvem-se explosões ao perto. Outro drone dirige-se para a zona.

“Vamos afastar-nos um pouco do local, porque consegue ouvir-se o que está a acontecer”, propõe Serhii.

É um dilema que se tornou familiar para os profissionais da energia na Ucrânia: os mesmos ataques que cortam a eletricidade podem também impedir que as equipas a restabeleçam em segurança. Muitas vezes, aliás, têm como alvo as próprias pessoas que estão a reparar os danos.

A DTEK Kyiv Regional Grids afirma que as suas equipas restabeleceram a eletricidade em mais de 700 mil casas na região após ataques russos. Em alguns casos, tiveram de repor a energia nas mesmas habitações mais do que uma vez.

Os invernos anteriores também mudaram a forma como a empresa se prepara para o próximo. Proteger a infraestrutura é apenas parte da tarefa. Ser capaz de a reparar rapidamente depois de novo ataque tornou-se igualmente importante.

Oleksii, responsável pelas operações da rede de alta tensão na DTEK Kyiv Regional Grids, descreve a relação entre quem tenta travar as armas no ar e quem tem a missão de reparar os danos quando estas conseguem passar.

“Espero muito que os nossos sistemas de defesa antiaérea nos ajudem, abatendo a grande maioria das armas atualmente utilizadas”, afirma.

“A partir daí, cabe-nos a nós. Vamos reparar tudo o que tiver sido destruído.”

Refere que as equipas já passaram pelo cenário mais complicado dos últimos anos, quando Moscovo tentou deliberadamente gelar a população, deixando-a sem eletricidade, aquecimento e até água.

Tropas de defesa antiaérea na região de Kiev, Ucrânia, 29 de setembro de 2026
Tropas de defesa antiaérea na região de Kiev, Ucrânia, 29 de setembro de 2026 Euronews

Preparar outro inverno

Para os trabalhadores do setor energético ucraniano, os preparativos para o inverno praticamente nunca param.

A DTEK Kyiv Regional Grids indica que, desde o início do ano, reparou mais de 1 200 quilómetros de linhas elétricas e modernizou mais de 400 instalações energéticas em toda a região de Kiev.

A empresa tem igualmente criado reservas de equipamentos e materiais de substituição, reforçado a proteção em redor das infraestruturas energéticas e preparado equipas de emergência para responderem rapidamente quando alguma coisa é atingida.

Essas equipas só podem entrar em ação quando a situação de segurança o permite. Num inverno de ataques repetidos, a capacidade de restabelecer a energia rapidamente pode ser quase tão importante como as medidas tomadas antecipadamente.

Mas há um limite para aquilo que a preparação consegue garantir. Nenhuma rede elétrica pode estar totalmente protegida contra mísseis e drones.

Por detrás dessas linhas elétricas e subestações existem milhões de rotinas comuns que dependem delas.

Depois de vários invernos de guerra, os ucranianos já não precisam de imaginar o que podem significar cortes prolongados de energia. A eletricidade pode desaparecer. O aquecimento torna-se incerto. As comunicações tornam-se mais difíceis. A vida quotidiana passa a depender de baterias, geradores e de qualquer eletricidade disponível.

Também os agregados familiares se vão preparando.

“Toda a gente se está a preparar para o inverno”, conta Anna, residente em Kiev. “Toda a gente se está a preparar muito bem. Até os meus pais, até os meus amigos.”

Alguns destes preparativos são marcadamente domésticos. Com a Rússia a atacar cada vez mais armazéns de alimentos, as pessoas procuram novas formas de armazenar comida para o inverno.

“Os meus amigos mais novos nunca tinham feito conservas de alimentos, mas agora já aprenderam”, explica. “Pode dizer-se que é um bom hábito. Há quem instale inversores e painéis solares, outros montam baterias e fazem reservas de power banks”.

Há algo revelador na simplicidade desta lista. Comida em conserva. Baterias. Painéis solares. Inversores. Depois de anos de ataques ao sistema energético da Ucrânia, medidas que antes pareceriam excecionais passaram simplesmente a fazer parte da preparação para o inverno.

Anna já fugiu uma vez à guerra da Rússia. Deixou Luhansk após a primeira invasão de Moscovo, em 2014.

Permaneceu na Ucrânia quando começou a invasão em larga escala, em 2022, em parte por causa dos pais idosos. Mas, depois das dificuldades do último inverno, diz que pondera agora deixar o país pela primeira vez.

“Se a situação se tornar mesmo extrema, vou embora. Vou porque estou preocupada com o meu filho.”

Para o filho, de 10 anos, esta é a segunda fase da guerra da Rússia que vive. Nascido em Luhansk, era ainda pequeno quando forças apoiadas por Moscovo tomaram a cidade em 2014.

“Acho isso verdadeiramente assustador. Há pessoas que nem aos 25 anos falam desta maneira, como as crianças falam agora”, admite Anna, emocionada.

“Quando falam de algo que faz ‘boom’ algures, dizem: ‘Se for a minha morte, então aceito.’ As crianças já dizem coisas destas. O meu filho também me diz isso.

“O meu filho diz-me: ‘Se for a minha morte, eu aceito. E se não for, então, claro, sou um sortudo.’”

Crescer sob ataque

Para Maryna, outra residente em Kiev, a sobrevivência começa com o som que sai do telemóvel.

“Ponho sempre o volume do telemóvel no máximo para conseguir perceber exatamente que tipo de alarme está a tocar”, diz.

Se o aviso é de mísseis, o cálculo é imediato.

“Depois temos dois segundos para ir para o corredor. Não conseguimos chegar ao abrigo. Não há tempo, porque em dois segundos já estamos no corredor ou na casa de banho e as explosões fortes e estrondosas já começaram.”

A filha, Emma, tem nove anos. Nunca conheceu a escola sem guerra e não se lembra de dias de paz.

Para as crianças da sua geração, o vocabulário dos bombardeamentos aéreos foi incorporado na infância. Conhecem os alertas. Conseguem até distinguir o som das explosões sobre as suas cabeças e reconhecer a sua natureza. Sabem para onde ir. E têm maneiras próprias de descrever sons que os adultos identificam de imediato.

Questionada sobre como soa quando a defesa antiaérea está ativa perto da escola, Emma responde de forma simples:

“Como pipocas.”

“A interceção da defesa antiaérea soa como pipocas a estourar?”

“Sim.”

É a descrição de uma criança para um som que se tornou parte de crescer numa Kiev em guerra.

A batalha pela Ucrânia continua a travar-se em trincheiras e localidades ao longo de uma frente que se estende por centenas de quilómetros. Mas a mesma guerra é também combatida nos céus sobre cidades longe dessa frente.

E, à medida que se aproxima mais um inverno, o que acontece nesse céu ajudará a determinar o que acontece cá em baixo: se as casas se mantêm aquecidas, se as luzes ficam acesas, se as crianças podem continuar nas salas de aula e se a vida normal pode prosseguir.

A Ucrânia aprendeu a adaptar-se. Mas a Rússia também.

E, para milhões de ucranianos, a pergunta é brutalmente simples:

Quando chegar o próximo míssil, ainda haverá algo capaz de o deter?

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