A Europa Ocidental registou o verão mais quente de que há registo, com cerca de 540 mil hectares ardidos na União Europeia entre meados de junho e o início de setembro.
Depois de um verão extenuante, a deslizar sobre lagos e zonas costeiras para largar milhares de toneladas de água sobre incêndios florestais numa Europa ressequida, a frota italiana de aviões Canadair amarelos e vermelhos regressou finalmente à base, perto de Roma, para manutenção.
Itália opera uma das maiores frotas mundiais de aeronaves anfíbias Canadair, meio avião, meio embarcação, capazes de responder rapidamente a um foco de incêndio porque não precisam de aterrar para recolher água de lagos, albufeiras ou do mar.
Este verão foi a quarta pior época de incêndios desde 2006, com 113 800 hectares ardidos em 645 fogos, segundo dados do sistema europeu EFFIS, mantendo os 18 aviões bombardeiros de água em permanente atividade.
Mas os aparelhos foram também mobilizados para combater grandes incêndios noutros países, no âmbito dos recursos de combate partilhados da União Europeia, num ano em que o continente enfrenta uma época histórica de fogos.
“No início do verão, deslocámo-nos para Portugal e Espanha, onde enfrentámos duas situações bastante difíceis”, disse Francesco Morgante, piloto da Avincis, empresa que gere a frota em nome do serviço de bombeiros italiano.
Ambos os países registaram incêndios devastadores, que ameaçaram cidades e destinos turísticos.
“Depois disso, o próprio país passou a exigir toda a nossa atenção, sobretudo devido à situação de emergência no norte de Itália, que este ano foi bastante inesperada e invulgar”, explicou Morgante à agência AFP.
Os bombardeiros de água Canadair são produzidos exclusivamente pela De Havilland, com sede em Calgary.
Itália opera o modelo CL-415, mas, tal como muitos países europeus, aguarda a entrega de aeronaves de nova geração, o DHC-515, cujo custo ronda os 100 milhões de euros.
Ferramenta ideal
O Canadair é capaz de recolher mais de 6000 litros de água em apenas 12 segundos, sem aterrar, graças a duas tomadas sob a fuselagem, e de largar a carga em três segundos, o que o torna numa “ferramenta ideal” para o combate a incêndios, afirmou Morgante.
“É um meio versátil e flexível, capaz de enfrentar incêndios de média e grande dimensão” e “permite conter um fogo mesmo quando já está completamente desenvolvido”, disse, a partir da apertada cabine de um dos bombardeiros de água.
Num hangar amplo, recentemente renovado, estão alinhados os aviões em inspeção, incluindo um com os dois motores turbo-hélice totalmente à vista.
As verificações aprofundadas são realizadas em todas as aeronaves da frota ao longo de várias semanas após o verão, explicou à AFP Maurizio Tomassi, responsável pelas operações de manutenção na Avincis, acrescentando que esperam concluir os trabalhos até março.
Entretanto, o encerramento da última base operacional, na Calábria, em 31 de outubro, assinalará o fim oficial da época estival deste ano.
Sem pausa meteorológica
A Europa Ocidental registou o verão mais quente de que há registo, com cerca de 540 000 hectares consumidos pelas chamas em toda a União Europeia entre meados de junho e o início de setembro.
Isto torna ainda mais premente a questão do número de frotas de Canadair disponíveis para os Estados-membros.
Ao longo dos anos, tem havido “um aumento lento e gradual da necessidade” destes bombardeiros, apontou Morgante.
“Ter uma frota que responda às nossas necessidades, tanto a nível nacional como europeu, é essencial”, sublinhou.
Para pilotos, técnicos e coordenadores operacionais, este verão ficará inscrito nos registos como um período excecional.
“Não tivemos aquele momento em que chega uma trovoada de verão, a temperatura desce três ou quatro graus e se ganha uma pausa de dois dias antes de, eventualmente, voltarem os incêndios, se é que voltam”, descreveu Morgante.
“Essa ‘pausa’ meteorológica simplesmente não aconteceu.”
Alessandro Sette, chefe da sala de operações que gere os pedidos provenientes da Agência de Proteção Civil italiana, concorda que foi “um verão excecional”.
“O trabalho começava de madrugada, porque os aviões descolavam ao romper do dia… e as operações terminavam geralmente ao anoitecer, o que se traduzia em dias longos e intensos”, relatou.
Mas, nesta tranquila manhã de fim de setembro, não há qualquer movimento no ecrã que acompanha as trajetórias dos aviões.
“Praticamente todos os aviões estão em terra”, disse, satisfeito.