Os eleitores brasileiros escolhem entre um quarto mandato de Lula ou o regresso da família Bolsonaro ao poder. A primeira volta é este domingo, mas uma segunda volta no dia 25 parece inevitável.
Este domingo, dia 4 de outubro, cerca de 158 milhões de eleitores brasileiros são chamados às urnas para a primeira volta das eleições que vão decidir se Lula da Silva, o veterano da esquerda brasileira já com 80 anos, consegue um inédito quarto mandato à frente do país, ou se o bolsonarismo regressa, desta vez não com Jair Bolsonaro, presidente de 2019 a 2023, mas com o filho Flávio.
Nestas eleições cruciais para o futuro do país, não é só o cargo de presidente que está em jogo. São também eleitos o vice-presidente, os governadores e vice-governadores dos 26 estados federados e do Distrito Federal (Brasília), os 513 membros da Câmara dos Deputados, dois terços do Senado Federal, os deputados estaduais e, no caso específico do Distrito Federal, os deputados distritais.
A segunda volta, marcada para 25 de outubro, parece inevitável, com os dois principais candidatos taco-a-taco nas sondagens.
Victor do Prado, professor de Diplomacia Económica no Instituto de Ciências Políticas (SciencesPo) de Paris, diz que a polarização das opiniões no país tem "raízes profundas": "Essas raízes vão muito além da esquerda e da direita e, categorias às quais estamos acostumados na Europa. O centro no Brasil, no fundo, não existe porque não há direita nem esquerda. São categorias que não se casam bem com o sistema brasileiro, onde há uma imensa variedade de partidos e onde não há qualquer noção de fidelidade partidária, em que o Congresso é completamente balcanizado. O que há no Brasil é uma devoção a certas pessoas. Por acaso, um deles é o Lula, que vem de um partido tradicionalmente de esquerda, e outro deles é Bolsonaro, que se identifica mais com partidos de direita".
Em entrevista à Euronews, o académico alerta para uma repetição de episódios como os que se seguiram à vitória de Lula em 2022: "Ouço dizer, de amigos do Brasil, que há muita preocupação com eventuais distúrbios quando sair o resultado da segunda volta. Como naquele famoso 8 de janeiro (de 2023), em que houve um 'quebra-quebra' em Brasília, há muita preocupação com a possibilidade de haver distúrbios caso os resultados sejam muito apertados e é para esse cenário que nos estamos a encaminhar. É um cenário perigoso".
Comunidade dividida
Domingo, não são apenas os brasileiros do país que são chamados às urnas, como também os cidadãos eleitores entre os mais de cinco milhões que vivem no estrangeiro. Uma das comunidades mais importantes está em Portugal, onde os brasileiros representam, de forma esmagadora, a maior comunidade estrangeira, com mais de 600 mil pessoas.
Se no Brasil o eleitorado está extremamente polarizado e dividido entre os dois candidatos, o mesmo se passa entre a comunidade brasileira em Portugal. Proprietária de uma loja que vende produtos brasileiros no centro de Lisboa, Silvana Silva não quer dizer em quem irá votar, pois quer evitar celeumas com os clientes e situações como a que se vive no Brasil. Garante que, no país, há lojas com cartazes a dizer "Petista não entra" ou "Bolsonarista não entra" à porta.
Para Victor do Prado, a popularidade dos grupos de Whatsapp ajudou muito a criar essa polarização e radicalização de ideias junto dos brasileiros: "Os brasileiros gostam muito de novidades e são muito abertos a novas tecnologias. Isso não é um fenómeno só da juventude, mas de pessoas de todas as idades, que aceitam a nova tecnologia de maneira muito fácil e usam essa nova tecnologia com muito entusiasmo. O Brasil é um dos países com maior número de contas do WhatsApp no mundo. Mais do que o TikTok, o Instagram ou o Facebook, são os grupos de família e de amigos de WhatsApp que fazem propagar, muitas vezes, notícias verdadeiras ou falsas que cristalizam determinados pontos de vista. Se o meu primo ou o meu irmão não gosta do meu candidato, isso deixa de ser apenas uma diferença de posição política, torna-se uma inimizade".
Mesmo não declarando apoio a nenhum dos candidatos, Silvana reconhece o papel que as políticas sociais de Lula tiveram na melhoria do nível de vida dos brasileiros: "Eu nasci em 1980 e conheço um Brasil que muitos brasileiros não conhecem", conta. "Na década de 1980 o Brasil era, principalmente o norte e o nordeste, miserável. Vivia-se uma grande miséria, as crianças nasciam e morriam de fome, de desnutrição. Hoje isso não acontece tanto, devido a políticas que foram implantadas, políticas públicas que ajudam. Há um auxílio para as mães e para as crianças. A situação melhorou bastante, não é a ideal, mas posso dizer com toda certeza que está muito melhor do que foi nas décadas de 1980 e 1990".
Bernardo Salgado está em Portugal há pouco tempo, a estudar num mestrado, e faz parte dos 18% de indecisos que os dois candidatos tentam conquistar até domingo: "É uma decisão muito difícil, tendo em conta a forma como o Brasil está polarizado entre Bolsonaro e Lula", conta.
Apesar de haver outros candidatos, está seguro de que irá votar num dos dois principais concorrentes, pois "não adianta votar nos outros". Aponta a recente decisão de Lula de ilegalizar as apostas online como uma boa medida, pois este negócio "deixou muitas famílias fortemente endividadas, além de se aproveitar da própria fragilidade das pessoas". "Há várias questões que estão a ser discutidas neste momento, o que nos faz refletir sobre quem queremos como governantes", diz.
À porta do Consulado do Brasil, a Euronews encontrou várias pessoas que já decidiram em quem votar. Duas mulheres jovens prometem dar o seu voto a Flávio Bolsonaro. A primeira é uma defensora idefetível do filho mais velho de Jair Bolsonaro: "Acredito que o Flávio tem as propostas de que o Brasil precisa, estamos a enfrentar um problema muito grande na economia e eu confio na posição política do Flávio. Já confiava no pai, agora confio no filho", conta-nos. A outra diz votar nele por não ter mais opções: "O PT está no poder há muito tempo e teve muitas oportunidades de mudar o país", diz. "Gostaria que houvesse outro candidato, porque não quero votar em Lula nem Bolsonaro. Como não há outra opção, voto em Bolsonaro porque prefiro votar nele do que no PT". Outra mulher, residente em Portugal há 20 anos, vai votar em Lula "para que o Brasil vá para a frente".
Lula, o veterano dos veteranos
Lula da Silva marcou, talvez como ninguém, a política brasileira das últimas décadas: acusado de corrupção no caso "Lava Jato", passou pela prisão, conseguiu "morrer" e "ressuscitar" politicamente. Depois de dois mandatos entre 2002 e 2010, foi eleito para um terceiro mandato nas eleições de 2022 e procura agora mais quatro anos no Palácio do Planalto.
Da sua herança política, quase todos, pelo menos aqueles que o apoiam, destacam a transformação de um país marcado pela pobreza extrema e pelo analfabetismo num Brasil mais próspero e mais igualitário, através de medidas como a introdução da "Bolsa Família" em 2003.
Luiz Inácio Lula da Silva - "Lula" começou por ser um diminutivo e foi mais tarde oficialmente incorporado no nome - é o paradigma do operário tornado político: foi como sindicalista e líder das greves dos metalúrgicos na região de São Paulo, durante a ditadura militar, que se tornou conhecido. Da fase em que trabalhava como operário metalúrgico ficou o acidente laboral que lhe causou a perda de um dedo e valeu a alcunha, dada depreciativamente pelos adversários, de "nove dedos".
Foram estas greves, que protagonizou entre 1978 e 1980, que estiveram na origem da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Este haveria de emergir como principal partido da esquerda brasileira após a democratização do país no período 1985-88 e Lula como sua figura cimeira. Candidato derrotado nas eleições de 1989, 1994 e 1998, chegou finalmente à presidência em 2022.
Os escândalos de corrupção a envolver os nomes de Lula e do PT haveriam de apanhá-lo. O megaprocesso "Lava Jato" e os subsequentes julgamentos conduzidos pelo juiz Sérgio Moro (futuro ministro de Bolsonaro) ocuparam toda a segunda metade da década de 2010 e levaram inúmeras cabeças a rolar e dezenas de políticos de vários quadrantes à prisão. O processo, envolvendo um complicado esquema de luvas e devio de fundos tendo no centro a petrolífera semi-estatal Petrobrás e a construtora Odebrecht, foi fulcral na instalação de um sentimento de desconfiança relativamente à classe política brasileira e na emergência do populismo de direita personificado por Jair Bolsonaro.
Lula seria preso em março de 2018, após ter sido condenado a nove anos de prisão, por alegadamente ter recebido um apartamento em troca de favores políticos. Acabou por ser solto e branqueado em novembro de 2019, depois de impedido de se candidatar às presidenciais de 2018, que foram ganhas por Jair Bolsonaro.
Flávio e a herança do nome Bolsonaro
Filho mais velho de Jair Bolsonaro, com 45 anos, Flávio segue as pisadas do pai na política e é senador, eleito pelo Rio de Janeiro, desde 2019.
Flávio concorre na impossibilidade de Jair Bolsonaro em apresentar-se a um novo mandato. Após a derrota para Lula nas eleições de 2022, uma multidão invadiu as principais sedes do poder em Brasília a 8 de janeiro de 2023, tentando impedir a posse de Lula. Um ataque em tudo semelhante ao protagonizado pelos apoiantes de Donald Trump dois anos antes, no Capitólio, quando este perdeu a reeleição para Joe Biden.
Por este facto, Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado a 27 anos de prisão. A cumprir a pena e sem poder recandidatar-se, o filho declarou ter sido nomeado pelo pai para concorrer no seu lugar.
As parecenças das ações de 8 de janeiro com a invasão do Capitólio em 2021 não são uma mera coincidência: o alinhamento com Donald Trump foi uma constante na presidência de Jair Bolsonaro e isso é algo a que Flávio quer dar continuidade se for eleito presidente.
A presidência de Jair Bolsonaro, marcada pela reversão de várias políticas de Lula e pela pandemia de Covid-19 (o presidente foi um forte opositor das políticas de confinamento e das vacinas) foi altamente polémica, em grande parte devido ao estilo turculento ao qual o meio político brasileiro não estava habituado.
Flávio Bolsonaro começou a fazer falar de si quando concorreu, em 2016, ao cargo de prefeito do Rio de Janeiro, tendo ficado em quarto lugar. Durante a presidência do pai, manteve-se uma figura próxima. Mais recentemente, protagonizou a campanha para libertar Jair Bolsonaro quando a administração Trump aumentou as taxas alfandegárias para 25%, depois de outros aumentos, depois revertidos, como arma para obrigar à libertação do seu aliado.
Flávio viajou aos Estados Unidos e tentou convencer Trump a não aplicar as tarifas, deixando entender que elas não se justificariam caso fosse eleito e aproveitando assim as ações do presidente norte-americano em seu favor.
Assim, se Flávio Bolsonaro for eleito, espera-se um novo eixo Washington-Brasília em tudo igual ao período em que Jair Bolsonaro e Donald Trump coincidiram na liderança dos seus países, entre 2019 e 2021.
Se Lula tem esqueletos no armário, Flávio Bolsonaro não fica atrás e é apontado, nomeadamente, pelas ligações estreitas que manteve com membros das milícias (forças parapoliciais ilegais responsáveis por assassínios), nomeadamente com Adriano Nóbrega, morto numa operação em 2020, figura da milícia "Escritório do Crime", apontada como responsável pelo assassínio da militante de esquerda Marielle Franco em março de 2018.