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O choque ideológico que divide o Brasil: quem são Lula da Silva e Flávio Bolsonaro?

Flávio Bolsonaro e Lula da Silva disputam segunda volta das presidenciais no Brasil
Flávio Bolsonaro e Lula da Silva disputam segunda volta das presidenciais no Brasil -  Direitos de autor  AP Photo, File
Direitos de autor AP Photo, File
De João Azevedo & Ricardo Figueira
Publicado a •Últimas notícias
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Acentuou-se a polarização política na maior economia da América do Sul. A diferença entre os dois principais candidatos foi inferior a 2%, ainda menor do que na etapa inicial do sufrágio de 2022. A Euronews traça o perfil dos dois homens que lutam pela presidência do Brasil a 25 de outubro.

Sabia-se, à partida, que a eleição presidencial no Brasil em 2026 seria a mais acirrada de sempre desde a redemocratização do país, mas os resultados da primeira volta acabaram por ser surpreendentes.

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Embora nenhum dos dois principais candidatos tenha obtido mais de 50% dos votos válidos nesta fase inicial, como já se antecipava, Flávio Bolsonaro ficou à frente de Lula da Silva, o que contraria a tendência ditada pela maioria das sondagens, que apontavam uma vantagem curta do incumbente.

A primeira volta deste sufrágio apresentou a menor margem de votos entre os dois maiores contendores na história recente da política brasileira.

Flávio Bolsonaro**,** de direita radical**,** alcançou mais de 56 milhões de votos(47,03%), ao passo que Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, mereceu a confiança de quase 53,9 milhões de eleitores (45,16%).

Ou seja, a separá-los estão pouco mais de 2,2 milhões de votos, o que representa menos de dois pontos percentuais (1,87%), um valor abaixo dos 5,23% que distanciaram Lula de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, no primeiro turno de há quatro anos.

Com um país mais extremado do que nunca, a campanha para a segunda volta promete ser intensa. A Euronews traça o perfil dos dois homens que, nas próximas três semanas, vão lutar para chegar ao Palácio do Planalto e ao cargo de nono presidente do Brasil desde a queda do regime militar.

Flávio e a herança do nome Bolsonaro

Flávio Bolsonaro conseguiu vencer em 14 estados, quatro dos quais do Norte (Acre, Rondônia, Tocantins e Roraima), e no Distrito Federal, tendo conquistado as regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste.

Embalado pelo triunfo inopinado na primeira volta, o candidato do Partido Liberal (PL) apressou-se a afirmar que os resultados significam o "fim da era do PT".

Filho mais velho de Jair Bolsonaro, com 45 anos, Flávio segue as pisadas do pai na política e é senador, eleito pelo Rio de Janeiro, desde 2019.

Flávio concorre na impossibilidade de Jair Bolsonaro em apresentar-se a um novo mandato. Após a derrota para Lula nas eleições de 2022, uma multidão invadiu as principais sedes do poder em Brasília a 8 de janeiro de 2023, tentando impedir a posse de Lula. Um ataque em tudo semelhante ao protagonizado pelos apoiantes de Donald Trump dois anos antes, no Capitólio, quando este perdeu a reeleição para Joe Biden.

Por este facto, Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado a 27 anos de prisão. A cumprir a pena e sem poder recandidatar-se, o filho declarou ter sido nomeado pelo pai para concorrer no seu lugar.

Flávio Bolsonaro cultiva a imagem criada pelo pai Jair Bolsonaro
Flávio Bolsonaro cultiva a imagem criada pelo pai Jair Bolsonaro Bruna Prado/AP

As parecenças das ações de 8 de janeiro com a invasão do Capitólio em 2021 não são uma mera coincidência: o alinhamento com Donald Trump foi uma constante na presidência de Jair Bolsonaro e isso é algo a que Flávio quer dar continuidade se for eleito presidente.

A presidência de Jair Bolsonaro, marcada pela reversão de várias políticas de Lula e pela pandemia de Covid-19 (o presidente foi um forte opositor das políticas de confinamento e das vacinas) foi altamente polémica, em grande parte devido ao estilo turculento ao qual o meio político brasileiro não estava habituado.

Flávio Bolsonaro começou a fazer falar de si quando concorreu, em 2016, ao cargo de prefeito do Rio de Janeiro, tendo ficado em quarto lugar. Durante a presidência do pai, manteve-se uma figura próxima. Mais recentemente, protagonizou a campanha para libertar Jair Bolsonaro quando a administração Trump aumentou as taxas alfandegárias para 25%, depois de outros aumentos, depois revertidos, como arma para obrigar à libertação do seu aliado.

Flávio viajou aos Estados Unidos e tentou convencer Trump a não aplicar as tarifas, deixando entender que elas não se justificariam caso fosse eleito e aproveitando assim as ações do presidente norte-americano em seu favor.

Assim, se Flávio Bolsonaro for eleito, espera-se um novo eixo Washington-Brasília em tudo igual ao período em que Jair Bolsonaro e Donald Trump coincidiram na liderança dos seus países, entre 2019 e 2021.

Se Lula tem esqueletos no armário, Flávio Bolsonaro não fica atrás e é apontado, nomeadamente, pelas ligações estreitas que manteve com membros das milícias (forças parapoliciais ilegais responsáveis por assassínios), nomeadamente com Adriano Nóbrega, morto numa operação em 2020, figura da milícia "Escritório do Crime", apontada como responsável pelo assassínio da militante de esquerda Marielle Franco em março de 2018.

Lula, o veterano dos veteranos

Lula da Silva foi o mais votado em 12 estados, nomeadamente nos nove do Nordeste, o seu bastião eleitoral, bem como no Amazonas, Pará e Amapá.

Em 2022, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), que persegue um quarto mandato não consecutivo, tinha vencido em 14 estados. Desta feita, deixou escapar Tocantins e Minas Gerais.

Reconhecendo que a derrota na primeira volta foi "uma lição", Lula mantém a confiança e, em tom de desafio, diz a Flávio Bolsonaro que é "muito bom no mata-mata".

Lula da Silva marcou, talvez como ninguém, a política brasileira das últimas décadas: acusado de corrupção no caso "Lava Jato", passou pela prisão, conseguiu "morrer" e "ressuscitar" politicamente. Depois de dois mandatos entre 2002 e 2010, foi eleito para um terceiro mandato nas eleições de 2022 e procura agora mais quatro anos no Palácio do Planalto.

Da sua herança política, quase todos, pelo menos aqueles que o apoiam, destacam a transformação de um país marcado pela pobreza extrema e pelo analfabetismo num Brasil mais próspero e mais igualitário, através de medidas como a introdução da "Bolsa Família" em 2003.

Luiz Inácio Lula da Silva - "Lula" começou por ser um diminutivo e foi mais tarde oficialmente incorporado no nome - é o paradigma do operário tornado político: foi como sindicalista e líder das greves dos metalúrgicos na região de São Paulo, durante a ditadura militar, que se tornou conhecido. Da fase em que trabalhava como operário metalúrgico ficou o acidente laboral que lhe causou a perda de um dedo e valeu a alcunha, dada depreciativamente pelos adversários, de "nove dedos".

Lula marcou, como ninguém, a política brasileira nas últimas décadas
Lula marcou, como ninguém, a política brasileira nas últimas décadas Silvia Izquierdo/AP

Foram estas greves, que protagonizou entre 1978 e 1980, que estiveram na origem da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Este haveria de emergir como principal partido da esquerda brasileira após a democratização do país no período 1985-88 e Lula como sua figura cimeira. Candidato derrotado nas eleições de 1989, 1994 e 1998, chegou finalmente à presidência em 2022.

Os escândalos de corrupção a envolver os nomes de Lula e do PT haveriam de apanhá-lo. O megaprocesso "Lava Jato" e os subsequentes julgamentos conduzidos pelo juiz Sérgio Moro (futuro ministro de Bolsonaro) ocuparam toda a segunda metade da década de 2010 e levaram inúmeras cabeças a rolar e dezenas de políticos de vários quadrantes à prisão. O processo, envolvendo um complicado esquema de luvas e devio de fundos tendo no centro a petrolífera semi-estatal Petrobrás e a construtora Odebrecht, foi fulcral na instalação de um sentimento de desconfiança relativamente à classe política brasileira e na emergência do populismo de direita personificado por Jair Bolsonaro.

Lula seria preso em março de 2018, após ter sido condenado a nove anos de prisão, por alegadamente ter recebido um apartamento em troca de favores políticos. Acabou por ser solto e branqueado em novembro de 2019, depois de impedido de se candidatar às presidenciais de 2018, que foram ganhas por Jair Bolsonaro.

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