Campanhas de desinformação pró-Rússia sobre as eleições na Estónia e na Letónia focam menos candidatos e procedimentos e mais confundir questões de segurança que orientam os eleitores, indica um novo relatório.
Das alegadas ligações entre o presidente da Estónia, Alar Karis, e Jeffrey Epstein a uma campanha de desinformação sobre um militar ucraniano que teria matado três militares da NATO, várias operações de intoxicação associadas ao Kremlin circularam antes e durante as eleições na Letónia e na Estónia, com o objetivo de semear desconfiança e confusão entre os eleitores, segundo um relatório da empresa londrina de inteligência de ameaças Refute, publicado na terça-feira.
“A Rússia está a usar a desinformação como instrumento deliberado, pensado para desorientar os cidadãos, moldar o debate público e aprofundar divisões antes das eleições”, afirmou Tom Garnett, cofundador e diretor-executivo da Refute.
As campanhas em torno das presidenciais de setembro na Estónia e das legislativas de outubro na Letónia exploraram receios reais sobre a guerra da Rússia na Ucrânia, a NATO, os drones e a segurança das fronteiras, colando alegações inventadas a acontecimentos e debates reais para minar a confiança nas instituições, na Ucrânia, na NATO e no mais amplo quadro de segurança.
As narrativas falsas não foram usadas apenas na Letónia e na Estónia, mas difundiram-se também junto de públicos internacionais, “procurando enfraquecer a perceção da segurança báltica no exterior”, de acordo com o relatório.
As campanhas mostram ainda como essas narrativas são reconstruídas repetidamente para diferentes públicos e plataformas, em vez de apenas republicadas. A Refute identificou oito versões de um único vídeo, incluindo montagens adaptadas a audiências de língua árabe e espanhola e versões com imagens geradas por inteligência artificial.
Outras alegações ganharam credibilidade adicional ao serem ligadas a acontecimentos reais, como incidentes anteriores de drones que entraram no espaço aéreo báltico, embora apresentadas num contexto enganador.
Algumas dessas narrativas foram depois publicadas em sítios na internet em várias línguas, o que lhes deu uma forma mais duradoura, passível de ser citada e recirculada mesmo depois de as publicações nas redes sociais terem sido assinaladas ou removidas, segundo a Refute.
De mortes falsas na NATO a dossiers sobre Epstein
Na Letónia, um vídeo fabricado, apresentado como se fosse uma reportagem da Euronews, afirmava que um soldado ucraniano tinha matado três militares da NATO durante o exercício militar Baltic Trust 26 antes de se suicidar, nas vésperas da votação de 3 de outubro de 2026.
A alegação circulou entre 14 de agosto e 6 de setembro, com dezenas de contas a alcançar uma audiência conjunta de mais de 1,85 milhões de pessoas, segundo o relatório. A história inventada foi também associada ao calendário do exercício militar, criando a impressão de que as manobras tinham sido interrompidas devido às supostas mortes, quando na realidade estava previsto que terminassem nessa data.
As Forças Armadas Nacionais da Letónia denunciaram rapidamente o vídeo como parte de uma campanha de desinformação coordenada, mas a refutação não travou a propagação da história. O conteúdo foi traduzido para várias línguas, reaproveitado por influenciadores e depois discutido em ecossistemas de informação pró-russos como se o alegado incidente tivesse realmente ocorrido. A Euronews confirmou que não tinha produzido nem publicado as imagens.
Na Estónia, entretanto, um sítio de notícias falso publicou uma história inventada que ligava o presidente cessante Alar Karis e o presidente lituano Gitanas Nausėda à rede de tráfico de Jeffrey Epstein. O site, euobserver.news, foi concebido para se assemelhar ao meio legítimo sediado em Bruxelas EUobserver, copiando artigos autênticos e biografias de jornalistas.
Objetivo é "minar a confiança"
A história fabricada foi igualmente promovida através de um vídeo narrado por inteligência artificial e de mais de uma dezena de contas nas redes sociais, com cerca de 780 mil seguidores no total, segundo a Refute.
Outro site falso, que imitava a publicação de defesa norte-americana The Defense Post, afirmava que um drone ucraniano tinha entrado no espaço aéreo estónio e danificado dois F-16 portugueses perto da Base Aérea de Ämari, causando prejuízos de cerca de 120 milhões de euros.
A alegação partia de incidentes reais com drones que entraram no espaço aéreo báltico, desviados pela guerra eletrónica russa, mas sugeria de forma falsa que operações ucranianas tinham provocado danos significativos em território da Estónia.
O objetivo: “Minar a confiança na Ucrânia, pôr em causa o apoio estónio e europeu a Kiev e lançar dúvidas sobre a defesa aérea da Estónia”, lê-se no relatório. A história circulou em pelo menos sete línguas e explorou um debate em curso sobre as capacidades de defesa aérea da Estónia e o apoio a Kiev.
“As campanhas identificadas pela Refute refletem táticas repetidas que representam uma mudança qualitativa na forma como a Rússia está a visar de forma sistemática os ecossistemas de informação nos Estados Bálticos e para lá da região”, afirmou Vlad Galu, cofundador e diretor técnico da Refute.
Os Estados Bálticos, membros da NATO e da UE e fortes apoiantes da Ucrânia, estão particularmente expostos à desinformação ligada à Rússia.