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“Não sou terrorista, sou apenas jornalista”: fazer jornalismo sobre a Rússia e Bielorrússia no exílio

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De Amandine Hess
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Alina Koushyk e Maxim Katz, dois jornalistas da oposição a viver no exílio após fugirem, respetivamente, da Bielorrússia e da Rússia, explicam como prosseguem o seu trabalho a partir do estrangeiro.

“O jornalismo não é um crime”, afirma a diretora de informação da Belsat, Alina Koushyk, um canal de televisão criado na Polónia em 2007 que emite notícias independentes para a vizinha Bielorrússia, em declarações à Euronews.

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O regime de Lukashenko, que reprime a oposição e a imprensa, classificou a jornalista bielorrussa como “terrorista” e “extremista”, e Moscovo acrescentou-a à sua lista de pessoas procuradas.

“Não sou terrorista, sou apenas jornalista. Há muitos anos que trabalho apenas para dizer a verdade, para oferecer um ponto de vista alternativo. E isso não é um crime.”

Uma dúzia de jornalistas da Belsat foi detida na Bielorrússia. O regime libertou a maioria no ano passado.

Além disso, Minsk libertou em março 250 presos políticos, entre os quais a jornalista da Belsat TV Katsyaryna Andreeva, num acordo mediado pelos Estados Unidos, em troca de um alívio das sanções norte-americanas.

Mas o antigo colaborador da Belsat Ihar Ilyash, tal como outros jornalistas bielorrussos de destaque, como Denis Ivashin, continua na prisão.

Jornalista Katsyaryna Andreeva, uma das presas políticas bielorrussas libertadas, fala com um jornalista à chegada a Vilnius, Lituânia, quinta-feira, 19 de março de 2026.
Jornalista Katsyaryna Andreeva, uma das presas políticas bielorrussas libertadas, fala com um jornalista à chegada a Vilnius, Lituânia, quinta-feira, 19 de março de 2026. Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.

Já o opositor russo e youtuber Maxim Katz deixou a Rússia três dias antes do início da invasão em larga escala da Ucrânia por parte de Moscovo, por acaso, para gravar em Londres parte da sua série documental sobre a Segunda Guerra Mundial.

Quando a guerra começou, afirma ter percebido que já não podia regressar à Rússia, antecipando a repressão de Moscovo contra as vozes dissidentes.

E tinha razão. Algumas semanas após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, Moscovo introduziu leis de censura sobre a guerra que proibiam as pessoas de a designarem por “guerra” em vez de “operação militar especial”, com os dissidentes a arriscarem até 15 anos de prisão.

A Rússia declarou Katz “agente estrangeiro” e “pessoa procurada” e condenou-o à revelia a oito anos de prisão.

Atualmente, Katz vive em Israel com a família.

“Isto dá-me a possibilidade de me sentir livre no que faço”, afirma.

Já Koushyk diz que, embora se sinta segura na Europa, está sempre alerta e sublinha que a cibersegurança e a literacia mediática são essenciais para proteger os jornalistas.

“Os serviços secretos bielorrussos e russos trabalham aqui. Há agentes, há espiões, e isto não é cinema. É a nossa realidade.”

Agente do Ministério do Interior bielorrusso filma jornalistas junto ao canal Belsat durante uma busca às instalações da estação em Minsk, Bielorrússia, em 21 de março de 2017.
Agente do Ministério do Interior bielorrusso filma jornalistas junto ao canal Belsat durante uma busca às instalações da estação em Minsk, Bielorrússia, em 21 de março de 2017. Copyright 2017 The Associated Press. All rights reserved.

Satélite é essencial

Koushyk diz que pensa todos os dias em como informar sobre o seu país, apesar da distância.

“Tentamos manter o contacto o mais estreito possível com a Bielorrússia e com o terreno mas, claro, estamos no exílio”, afirma Koushyk.

Assim, a jornalista acompanha fontes oficiais, sites das autoridades mas também canais de Telegram e o TikTok: “As pessoas comuns informam-nos muito sobre o que se passa no país.”

Mas não pode entrevistar bielorrussos na rua nem sequer telefonar-lhes, porque seriam detidos de imediato, explica.

As autoridades bielorrussas classificaram o canal, sediado na Polónia, como organização “extremista” em 2021 – tal como fizeram com a Euronews em 2026 –, deixando funcionários e telespectadores da Belsat TV sujeitos a penas até sete anos de prisão.

Mikhas Yanchuk, jornalista do canal Belsat, à direita, mostra o passaporte com um carimbo que lhe proíbe sair do país, em Minsk, Bielorrússia, quinta-feira, 15 de março de 2012
Mikhas Yanchuk, jornalista do canal Belsat, à direita, mostra o passaporte com um carimbo que lhe proíbe sair do país, em Minsk, Bielorrússia, quinta-feira, 15 de março de 2012 Copyright 2023 The Associated Press. All rights reserved

Por isso, diz Koushyk, as redes via satélite são cruciais para chegar a públicos em países sujeitos a censura.

“O satélite é importante, sobretudo para a Bielorrússia, porque, se vê televisão por satélite, não tem ameaças digitais. Não o conseguem rastrear.”

A organização Repórteres Sem Fronteiras lançou em 2024 o satélite Svoboda para difundir, em russo, informação independente e fiável em países afetados pela censura.

Além disso, a Belsat TV recorre a várias plataformas, incluindo o Instagram e o YouTube, para chegar ao seu público.

Segundo Koushyk, ao contrário do que acontece na Rússia, é possível aceder aos seus conteúdos digitais na Bielorrússia sem recurso a VPN.

Katz acrescenta que a melhor forma de chegar ao público na Rússia é através do YouTube, seguido do Telegram.

Embora as autoridades russas tenham bloqueado o acesso ao YouTube desde fevereiro, a plataforma continua acessível com uma VPN.

O canal de YouTube de Katz tem um alcance diário de um milhão de pessoas, valor comparável ao de alguns canais de televisão russos, afirma.

Opositor russo e youtuber Maxim Katz, durante uma entrevista na Euronews, em Bruxelas, segunda-feira, 28 de setembro de 2026.
Opositor russo e youtuber Maxim Katz, durante uma entrevista na Euronews, em Bruxelas, segunda-feira, 28 de setembro de 2026. Euronews

Como desmontar a propaganda

Para Koushyk, a melhor forma de desmontar a propaganda de Minsk passa por informar o público com base em factos, oferecendo um ponto de vista alternativo.

“Não penso que seja preciso dizer que eles estão errados e nós certos.”

Katz acrescenta que os jornalistas têm de adaptar a linguagem se quiserem chegar ao público russo, falando de problemas que as pessoas “veem da janela” e de questões “do quotidiano”.

“Obviamente, sou contra a guerra e contra Putin. Mas a questão é: como se diz isso?”, questiona.

“Se quer falar com o público russo, deve falar como falaria numa cozinha em São Petersburgo e não numa ação de protesto em Riga.”

Apesar de criticar o regime de Lukashenko, Koushyk afirma ser “muito patriótica”.

“O jornalismo é uma missão. É muito mais do que informação, porque não estamos apenas a informar o nosso público, estamos também a promover a língua bielorrussa, a cultura bielorrussa. Isso torna a nossa sociedade mais resistente à propaganda russa.”

Katz pondera regressar à Rússia após uma eventual queda do regime de Putin.

Espera que o próximo governo russo seja pró-europeu e sublinha que o sentimento pró-europeu entre a população é mais forte do que se pensa.

Mas receia que as atrocidades cometidas pelo exército russo na guerra contra a Ucrânia impeçam Moscovo de regressar, em breve, à mesa europeia de negociações.

Koushyk, por seu lado, está confiante de que um dia voltará à Bielorrússia.

“Tudo o que fazemos é para podermos voltar ao nosso país.”

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