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Neste hospital português, animais domésticos vão às enfermarias visitar donos. Ensaio para mudar paradigma?

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Paciente internado no hospital de São João recebe visita de animal de estimação, Porto, 2 de outubro de 2026
Paciente internado no hospital de São João recebe visita de animal de estimação, Porto, 2 de outubro de 2026 -  Direitos de autor  Bruno Figueiredo/Euronews
Direitos de autor Bruno Figueiredo/Euronews
De João Azevedo
Publicado a •Últimas notícias
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No norte e centro da Europa, animais de estimação tendem a ficar confinados ao exterior dos hospitais. Modelo flexível do São João combina benefícios clínicos e segurança, não tendo havido, até agora, infeções. "Há receio excessivo", defende médica que ajudou a redigir regulamento do projeto.

Desde 9 de julho que o São João, um dos hospitais públicos universitários de referência no sistema de saúde português, abre as portas das enfermarias às visitas de animais de estimação.

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O "Pets and Company" junta diferentes profissionais do programa One Health São João, bem como da Unidade de Prevenção e Controlo da Infeção e Resistência aos Antimicrobianos e do serviço de Humanização do hospital. A iniciativa está enquadrada numa estratégia destinada a quebrar o isolamento e a aliviar a exaustão de internamentos prolongados.

O potencial terapêutico dos animais está longe de ser uma descoberta recente. Países como o Reino Unido e Alemanha já os usavam em tratamentos psiquiátricos e de problemas físicos de humanos desde o século XIX. O termo "pet therapy" (terapia assistida por animais) foi registado cientificamente, na década de 1960, por um psicólogo norte-americano, que descobriu fortuitamente as virtudes curativas destas intervenções.

Em Portugal, os cães treinados e certificados para sessões de apoio emocional atuam há vários anos em hospitais, incluindo no São João, em parceria com tutores de associações.

A 30 de maio de 2023, uma doente de 77 anos, internada no Hospital de Cascais a recuperar de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico, recebeu a visita do seu próprio cão, num reencontro que aconteceu no espaço exterior da unidade de saúde.

Esta experiência inédita é agora expandida pelo São João, através de um protocolo abrangente, criado de raiz, que dá um passo em frente e normaliza a prática de levar os animais de estimação para o espaço de internamento, reconhecendo-os como parte do núcleo familiar do paciente e proporcionando a quem está há muito afastado de casa momentos de conforto em condições de segurança sanitária.

O que diz o protocolo?

As visitas são requisitadas pelo profissional de saúde (médico ou enfermeiro) que acompanha os doentes e a quem cabe sinalizar o caso, não estando disponíveis para todos os que se encontram internados. É sempre feita uma ponderação individualizada dos riscos e benefícios.

Após ser informada, a equipa responsável pelo programa avalia se existe essa necessidade a nível clínico e se há condições para avançar com a visita em termos de controlo de infeção no local escolhido. É igualmente perguntado aos outros utentes se estão confortáveis com a presença de animais.

Dado o aval, a família do paciente está obrigada a entregar um atestado médico-veterinário para provar que o animal tem a vacinação e desparasitação em dia, além de um comportamento compatível com as exigências associadas à permanência em recintos hospitalares.

Cadela no elevador do hospital de São João antes de visita ao dono, Porto, 2 de outubro de 2026
Cadela no elevador do hospital de São João antes de visita ao dono, Porto, 2 de outubro de 2026 Bruno Figueiredo/Euronews

"Qualquer profissional, desde o segurança ao médico ou enfermeiro, que verifique que alguma coisa não está de acordo com o protocolo, pode interromper a visita", afirma à Euronews Filipa Ceia, porta-voz do Grupo One Health São João.

Se o animal estiver "ansioso" devido ao "barulho da enfermaria", se se apresentar "agressivo" ou "visivelmente sujo", a visita é "imediatamente abortada", ressalva a infeciologista e veterinária.

São admitidos cães, gatos e até "espécies mais exóticas", desde que "cumpridas todas as premissas", adianta Filipa Ceia. Enquanto se encontrar em área hospitalar, o animal tem de estar acompanhado por um adulto.

Cada doente pode desfrutar destes encontros, com duração de meia hora, de sete em sete dias. O projeto dá prioridade àqueles que estão em fase terminal ou em internamento prolongado.

Para surpresa dos responsáveis, são os pacientes do sexo masculino que mais têm solicitado a presença dos patudos no hospital, embora a amostra reduzida não permita tirar conclusões definitivas. "Provavelmente a fragilidade nos homens doentes é maior. Eles apercebem-se de que há coisas com muita importância na vida e querem tê-las por perto durante o internamento", refere Ceia.

Visita de animal de estimação ao dono numa enfermaria do Hospital de São João, Porto, 2 de setembro de 2026
Visita de animal de estimação ao dono numa enfermaria do Hospital de São João, Porto, 2 de setembro de 2026 Bruno Figueiredo/Euronews

Benefícios para o doente e para o animal

Os estudos realizados nas intervenções assistidas por animais treinados dão conta de melhorias efetivas na condição clínica dos pacientes - a tensão arterial baixa e é inibida a produção de hormonas ligadas ao stress e à ansiedade. Quando está envolvido o animal doméstico, há "um benefício maior", destaca Filipa Ceia.

A Euronews seguiu a visita de Princesa,que foi ao São João pela segunda vez em 15 dias para matar saudades do dono, António, internado há três meses. A cadela foi levada ao hospital pela esposa do doente que a encaminhou pela trela até à enfermaria.

Assim que a porta do elevador se abriu, Princesa não conteve a euforia e o mesmo aconteceu com António.

Cadela visita dono numa enfermaria do Hospital de São João, Porto, 2 de outubro de 2026
Cadela visita dono numa enfermaria do Hospital de São João, Porto, 2 de outubro de 2026 Bruno Figueiredo/Euronews

"O coração bateu muito de alegria. É como se fosse família. É uma filha para mim", confessou o homem de 65 anos que está em reabilitação devido a dificuldades de equilíbrio e na marcha.

O diagnóstico ainda não está fechado, mas suspeita-se que sofra de uma doença rara do sangue. O reencontro com a cadela, que lhe foi entregue há cinco anos depois de resgatada da rua, é um bálsamo para a alma.

"Parece que quero andar melhor e tudo. Isto é o gozo que uma pessoa tem", contou. Estes reencontros trazem "sorrisos, colaboração no tratamento e um incentivo a sair do hospital", nota Filipa Ceia, identificando ainda benefícios para o próprio animal e até para os profissionais de saúde.

"Risco residual"

Esta iniciativa arrancou no início de julho e, até ao momento, não há registo de quaisquer infeções.

A equipa por trás do projeto quer avaliar o protocolo numa fase posterior para corrigir eventuais falhas. Considerando os procedimentos adotados, um cenário de "intercorrências" é, contudo, "altamente improvável", salienta Filipa Ceia.

No norte e centro da Europa, as normas de controlo de infeção e saúde pública são mais rígidas. Priorizam-se as intervenções por cães de assistência e as visitas de animais particulares, quando autorizadas (normalmente para doentes em cuidados paliativos), acontecem em infraestruturas isoladas, nomeadamente em pátios abertos ou em jardins anexos à estrutura principal.

Veja-se o exemplo do Hospital Sint-Trudo em Sint-Truiden, na Bélgica. Em julho de 2023, esta unidade de saúde inaugurou um pavilhão independente do edifício central, embora com ligação ao hospital, para que os pacientes terminais ou em internamentos longos pudessem interagir com os seus animais de estimação. O acesso dos patudos é feito por fora, através de um pátio, sendo que estes estão proibidos de, em qualquer circunstância, passar pelo interior do recinto hospitalar.

Em vez de erguer barreiras físicas com a construção de estruturas secundárias, o São João desenhou um conjunto de normas que, mantendo o rigor clínico, estão integradas num protocolo ágil moldado pela evidência científica.

"Há um receio excessivo de transmissão de zoonoses que depois não se corrobora nos estudos", assevera Filipa Ceia. Na verdade, nota a médica infeciologista, "é mais fácil a transmissão da maioria das doenças de humano para humano do que de um animal para um humano".

"Como tentamos ao máximo que a segurança seja preservada e como o doente, quando for para casa, vai conviver com o seu animal, o risco é mesmo residual. Temos de perceber se, para mitigar o risco, não estamos a impedir os doentes de terem o benefício", reforça.

A audácia do São João está não só no equilíbrio entre empatia e controlo sanitário, mas também na autonomia e capacidade para humanizar os cuidados sem esperar pelos legisladores, ao contrário de Itália, por exemplo, onde se avançou por impulso de decretos de governos regionais.

Hospital de São João, Porto, 2 de setembro de 2026
Hospital de São João, Porto, 2 de setembro de 2026 Bruno Figueiredo/Euronews
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