Estes incidentes voltaram a colocar em causa a capacidade da Europa para proteger a navegação e as infraestruturas críticas no Mar Negro, mais de um ano depois de a UE ter lançado uma estratégia para reforçar a segurança na região.
A Roménia informou que sete pessoas estão desaparecidas após um incêndio ter deflagrado numa embarcação com pavilhão de São Marinho na manhã de quinta-feira, o mais recente incidente no Mar Negro, que tem sido palco de uma série de ataques com drones.
A embarcação, denominada "Wine Trader", comunicou um incêndio por volta das 7h00 locais (06h00 em Portugal continental), a cerca de 13 milhas náuticas a sudeste da cidade romena de Sulina, informou a Autoridade Naval romena em comunicado de imprensa.
"Havia 12 pessoas a bordo do navio. Cinco delas estão em segurança, enquanto sete continuam desaparecidas", acrescentou.
Estava em curso uma operação de busca e salvamento, envolvendo um navio e um helicóptero, precisou também a Autoridade Naval.
As autoridades romenas não revelaram se o incêndio foi causado por um drone.
O incidente ocorre depois de a Roménia ter anunciado, na quarta-feira, que estava a investigar um possível novo ataque com um drone a um petroleiro ao largo da sua costa no Mar Negro.
As equipas de socorro acorreram em auxílio ao "Yara J", com pavilhão das Ilhas Comores, após o início do incêndio, mas a tripulação do navio conseguiu extinguir o fogo por conta própria.
"Quer tenha sido atingido por um drone ou não, está atualmente em curso uma investigação", afirmou o ministro da Defesa, Radu Miruta, ao canal de televisão Digi24.
"Trata-se de uma questão de grande gravidade, tendo em conta que tais incidentes estão a ocorrer em águas territoriais romenas", afirmou.
Drones suspeitos de serem russos atingiram vários navios ao largo da Roménia e da vizinha Bulgária desde a semana passada, num efeito colateral da guerra na Ucrânia.
Pelo menos 163 embarcações civis e comerciais foram atingidas no Mar Negro nos primeiros oito meses deste ano, de acordo com a Câmara de Comércio Marítimo da Turquia.
Ataques no mar Negro
Entretanto, também na quarta-feira, a Bulgária afirmou que a Rússia estará provavelmente por detrás dos ataques com drones que, na última semana, atingiram quatro navios no Mar Negro, afundando dois, embora não haja forma de provar a responsabilidade de Moscovo.
As equipas de salvamento continuam à procura de 11 tripulantes desaparecidos depois de ataques com drones na terça-feira terem afundado dois navios na zona económica exclusiva da Bulgária e em águas adjacentes, enquanto outros cinco tripulantes foram resgatados.
Um dos navios está registado na Guiné-Bissau, mas o outro, o Chelsea-3, pertence a interesses ucranianos, está registado em Odessa e navega sob a bandeira de Malta, Estado-membro da União Europeia.
“Não faz sentido a Ucrânia atacar os seus próprios navios e tripulações, tendo em conta que o resultado de todos estes ataques favorece a Rússia e, de facto, a lógica aponta nesse sentido. O problema é que não o conseguimos provar”, declarou o primeiro-ministro búlgaro, Rumen Radev, no Parlamento.
Na terça-feira, Radev convocou a embaixadora russa em Sófia, que afirmou não dispor de qualquer informação do Ministério da Defesa russo, mas não excluiu a possibilidade de “estes ataques serem uma provocação de uma terceira parte”.
O navio de carga Dignity, com pavilhão da Guiné-Bissau, afundou-se na terça-feira depois de ter sido atingido por um ataque militar. Quatro marinheiros, três cidadãos sírios e um egípcio foram resgatados e chegaram ao porto de Varna, indicou o governador distrital, Mario Smarkov.
“Os quatro apresentavam-se em relativamente boas condições e não tinham sofrido ferimentos”, acrescentou. Um quinto marinheiro deverá chegar mais tarde, esta quarta-feira.
Smarkov afirmou que prosseguem as buscas pelos 11 tripulantes desaparecidos.
A Bulgária pediu assistência internacional para a investigação dos ataques contra navios comerciais, bem como apoio da NATO para reforçar os sistemas de vigilância e controlo e a capacidade de resposta a ataques com drones.
Segurança no Mar Negro
Os incidentes reavivaram o escrutínio sobre a capacidade da Europa para proteger a navegação e as infraestruturas críticas no Mar Negro, mais de um ano depois de a UE ter lançado uma estratégia para reforçar a segurança na região.
Quando a Estratégia para a Segurança no Mar Negro foi apresentada em maio de 2025, a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, alertou para o facto de a região estar a sofrer os efeitos colaterais da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.
“A região do Mar Negro é o principal alvo de ações híbridas. A União Europeia pretende reforçar a cooperação para combater ciberataques, desinformação e outras ações hostis”, afirmou.
“As violações recorrentes do espaço aéreo e os ataques contra portos e rotas marítimas de comércio ilustram esta realidade.”
A política visava garantir a segurança deste corredor marítimo, bem como proteger infraestruturas e ativos críticos, como instalações offshore e cabos submarinos.
O plano previa igualmente a criação de um Centro de Segurança Marítima do Mar Negro, destinado a coordenar apoios e reforçar a cooperação entre guardas costeiras, entre outras actividades.
O centro teria também a missão de analisar dados de sensores no fundo do mar e alertar os aliados para perigos potenciais e ameaças iminentes.