A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, considerou legítimos os ataques ucranianos a refinarias russas e Kiev promete retomá-los apesar da trégua energética anunciada por Trump.
A alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, defendeu os ataques da Ucrânia contra refinarias de petróleo russas como um meio legítimo para pôr fim à guerra da Rússia, afirmando que a forma mais rápida de os travar é terminar o conflito.
“Se olharmos para o direito internacional, é claro que [atingir refinarias] é em defesa da Ucrânia, porque é daí que vem o financiamento desta guerra que mata ucranianos todos os dias”, afirmou em entrevista exclusiva à Euronews.
As declarações surgem depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter anunciado um acordo para a Rússia fornecer mais de 300 000 toneladas de gasóleo, numa altura de aperto energético global, seguido de um “cessar-fogo energético” ao abrigo do qual Rússia e Ucrânia deixariam de atacar as infraestruturas energéticas dos dois lados.
“Se olharmos para o quadro geral, a maior parte do financiamento desta guerra vem do petróleo. E é por isso que a Ucrânia também os [as refinarias] está a atacar, enquanto a Rússia mira a infraestrutura energética dentro da Ucrânia para provocar o máximo de sofrimento possível à população ucraniana no próximo inverno”, acrescentou.
Kallas salientou, contudo, que a guerra tem um agressor e uma vítima bem definidos e que os Estados Unidos devem juntar-se aos europeus na pressão sobre a Rússia, e não sobre a Ucrânia, já que a UE vai continuar a apoiar Kiev, que não se rendeu.
Volodymyr Zelenskyy afirmou que Kiev vai retomar os ataques contra refinarias de petróleo russas, acusando Washington de suspender a partilha de informações de inteligência e de perturbar os serviços de internet por satélite Starlink numa altura de intensificação dos ataques russos contra a Ucrânia.
“O bloqueio (aos ataques às refinarias) acabou. Terminámos”, disse Zelenskyy ao Financial Times numa entrevista publicada apenas algumas horas antes da cimeira da UE.
Segundo o Ministério da Defesa ucraniano, a Ucrânia intensificou de forma significativa a campanha contra a infraestrutura petrolífera da Rússia, atingindo, só em setembro, 12 grandes refinarias.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), apenas cinco das 32 principais refinarias da Rússia tinham escapado a ataques de drones ucranianos até ao final de agosto, havendo instalações atingidas até 15 vezes desde que a Rússia lançou a invasão em grande escala em 2022.
Zelenskyy confirmou que a Ucrânia interrompeu durante três dias os ataques contra infraestruturas energéticas russas a pedido de Washington, enquanto Moscovo continuou a atacar a infraestrutura ucraniana e a matar civis.
Segundo o presidente ucraniano, responsáveis norte-americanos avisaram ainda os seus homólogos ucranianos de que a partilha de informação de inteligência seria suspensa se Kiev não parasse os ataques, embora a perturbação subsequente tenha sido apresentada como um problema técnico.
Recusou também a ideia de que as interrupções dos serviços Starlink tenham sido acidentais.
“Não foi um problema técnico, foi vontade”, afirmou Zelenskyy.
Já o Kremlin respondeu com sarcasmo pouco dissimulado, sugerindo na prática que ainda não está em vigor qualquer cessar-fogo energético.
“O que foi anunciado? Quais são os limites do cessar-fogo energético? O que significa? Algo disto foi especificado?”, questionou na quarta-feira o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.
“É por isso que o trabalho nesta direção continua”, acrescentou.