A Meta está a ser acusada de interferência nas eleições presidenciais brasileiras, após denúncias de tratamento desigual dos candidatos. A polémica motivou protestos em São Paulo e levou o Conselho de Supervisão da empresa a exigir maior transparência durante períodos eleitorais.
A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, está debaixo de fogo no Brasil devido a uma alegada interferência nas eleições presidenciais do país.
A situação levou dezenas de manifestantes a protestar em frente aos escritórios da gigante tecnológica em São Paulo na passada segunda-feira.
"Nos últimos dias, o grupo Meta interferiu profundamente nas eleições brasileiras. Eles dizem que são falhas, mas não são. Há uma interferência indevida na democracia brasileira", denunciou Sérgio Amadeu, professor na Universidade Federal do ABC e um dos organizadores do protesto.
Na sexta-feira passada, a Meta negou as acusações de que agiu com parcialidade política durante a campanha presidencial do Brasil, depois de a comissão eleitoral do país ter alertado que a plataforma deve dar tratamento igual ao incumbente Lula da Silva e ao candidato da oposição Flávio Bolsonaro antes da segunda volta que será disputada este domingo.
A empresa reconheceu ter desativado, por engano, anúncios da campanha de Lula, atribuindo o facto a "incidentes" técnicos que não se limitam ao Brasil.
Já o Conselho de Supervisão da Meta reconheceu na terça-feira "falhas recorrentes" na moderação de conteúdos do grupo.
"Desde a remoção de contas de ativistas políticos durante manifestações nos Estados Unidos, antes das eleições intercalares, até restrições técnicas que afetaram as contas de um candidato presidencial no Brasil - gerando acusações de interferência eleitoral -, é evidente que a Meta precisa de fazer mais para garantir que as suas práticas de moderação durante os períodos eleitorais são transparentes e consistentes", declarou o Conselho de Supervisão em comunicado.
O organismo reiterou ainda o pedido para que a Meta adapte os seus sistemas de moderação aos contextos eleitorais.
O processo foi desencadeado pela campanha de Lula, que alegava que a empresa de Mark Zuckerberg estava a usar algoritmos tendenciosos e restrições de IA para favorecer Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro também pediu à justiça do Brasil a desqualificação do rival, acusando Lula da Silva de propaganda abusiva numa conta governamental do WhatsApp, pouco depois do atual presidente ter ameaçado fazer o mesmo.
A equipa de Flávio Bolsonaro denunciou ainda uma alegada "ofensiva de propaganda negativa" conduzida pelo adversário, "com o aval" da gigante tecnológica norte-americana Meta.
Horas antes, a equipa de campanha de Lula tinha anunciado que iria apresentar um recurso ao TSE para anular a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O processo no Brasil faz eco de casos europeus relacionados na Roménia e na Alemanha, onde os tribunais intervieram anteriormente para corrigir desequilíbrios das plataformas.
Um estudo, divulgado esta semana pela NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou que a plataforma permitiu pelo menos 1.600 anúncios políticos irregulares financiados principalmente pelos Estados Unidos, totalizando 171 milhões de visualizações e gerando aproximadamente 2 milhões de reais ( cerca de 350 mil euros) em receitas entre julho e setembro.
"No Brasil, é proibido para qualquer entidade que não seja um partido político, candidato ou coligação comprar anúncios eleitorais. Nenhuma empresa deve poder comprar anúncios na Meta, seja do Brasil ou do exterior, para promover uma campanha eleitoral", sublinhou a professora de comunicação Marie Santini, que esteve envolvida no estudo.
"Não é a primeira vez que a Meta é negligente com a lei eleitoral, não é o primeiro país. É um comportamento sistemático da empresa", alertou.