De Tessalónica vem a Reflection AI e de Patras vem a Axelera AI: cientistas gregos apostam na formação para ligar talento e capital.
Uma empresa cofundada por um antigo aluno da Universidade Aristóteles de Tessalónica está no centro de negociações com a NVIDIA e tem uma valorização na ordem dos 25 mil milhões de dólares. Outra, com um grego como cofundador, cria vídeos com recurso a inteligência artificial. Uma terceira ajuda a avaliar os sistemas que milhões de pessoas usam para escrever, programar ou procurar informação.
Estas histórias têm nome: Reflection AI, Runway e Arena. Por detrás delas estão, respetivamente, Ioannis Antonoglou, Anastasis Germanidis e Anastasios Angelopoulos.
Grécia: de Tessalónica ao interesse da NVIDIA
Ioannis Antonoglou cresceu em Tessalónica e estudou engenharia eletrotécnica na Universidade Aristóteles. O interesse pela programação e pela computação levou-o à inteligência artificial e, mais tarde, à DeepMind, um dos principais laboratórios de investigação do setor. Em 2024, cofundou a Reflection AI com o também ex-investigador da DeepMind, Misha Laskin.
Segundo o “Financial Times” de 10 de outubro, a NVIDIA, que já investiu 800 milhões de dólares na Reflection, discute novo investimento ou uma eventual aquisição.
A valorização de 25 mil milhões de dólares da Reflection AI equivale a cerca de 9 % do PIB grego.
A Reflection desenvolve modelos avançados de inteligência artificial com pesos abertos: os modelos treinados são disponibilizados para que outros os possam utilizar e construir aplicações sobre eles, de acordo com os respetivos termos de uso.
Ao seu lado está a Runway, cofundada por Anastasis Germanidis, que atua na criação de vídeos com inteligência artificial e no desenvolvimento de modelos de simulação de mundos. A sua valorização já supera os 5 mil milhões de dólares.
A Arena, cofundada por Anastasios Angelopoulos, recorre a comparações e preferências de utilizadores para avaliar modelos de IA. O seu valor é estimado em 3,1 mil milhões de dólares.
Outro percurso é o de Evangelos Eleftheriou, cofundador e diretor de tecnologia da Axelera AI. Depois de estudar engenharia eletrotécnica em Patras, prosseguiu a carreira no Canadá e na IBM. Em 2026 foi finalista do Prémio Europeu do Inventor, juntamente com a sua equipa, pela contribuição para as tecnologias de armazenamento digital.
A lista inclui também Spyros Xanthos, cofundador da Resolve AI, que desenvolve ferramentas para detetar e resolver autonomamente problemas em sistemas de software, e Niki Goulimi, cofundadora da Tunic Pay, ativa na prevenção de fraude em pagamentos.
Rede chega à Grécia em plena crise
Para Panagiotis Karampinis, diretor executivo da Endeavor Greece, a rapidez com que os gregos da diáspora crescem na área da IA chama a atenção.
“Vemos os gregos da diáspora a construir empresas de inteligência artificial a níveis que nos impressionaram, que nos deixaram sem palavras”, afirmou, durante a apresentação do novo fundo de investimento Endeavor Catalyst Fund V, em Atenas.
A Endeavor é uma organização sem fins lucrativos que apoia empreendedores com ambições internacionais. A sua rede inclui mais de 3 100 empreendedores em mais de 50 países. A importância reside nas ligações que consegue oferecer: fundadores experientes, mentores, investidores e contactos em mercados onde uma empresa mais jovem tem dificuldade em ganhar acesso.
Na Grécia, estabeleceu-se em 2012, numa das fases mais difíceis da crise económica. Nessa altura, o debate centrava-se na fuga de cérebros, no desemprego e na falta de perspetivas.
Hoje, a Endeavor Greece apoia fundadores gregos no país e no estrangeiro, cria laços entre eles e contribui para o desenvolvimento de um ecossistema tecnológico robusto na Grécia.
O portefólio internacional do Catalyst dá também a medida da concorrência. Inclui a ElevenLabs, empresa de tecnologia de voz criada pelos polacos Mati Staniszewski e Piotr Dąbkowski, bem como empresas de tecnologia espacial como a ICEYE, a Open Cosmos e a EnduroSat. São exemplos da rede mais vasta à qual estão ligados fundadores e investidores gregos.
“Investimento” que começa em casa
Como se explica a forte presença grega na inteligência artificial? Karampinis avança uma leitura que começa muito antes das rondas de investimento:
“Durante gerações, as casas gregas empurraram os filhos para a matemática, a física, a química. Agora que a tecnologia se tornou mais profunda e mais orientada para a investigação, os gregos disparam a um ritmo que não vimos noutros sítios”, diz.
A observação remete para o valor que as famílias gregas atribuem aos estudos e que se traduz na procura de um diploma universitário, no esforço de entrada em cursos exigentes e no apoio familiar a um percurso educativo longo. Os conhecimentos em matemática, engenharia e informática dão aos cientistas as ferramentas para desenvolver modelos e aplicações de inteligência artificial.
Talento encontra capital
De acordo com o relatório “Education at a Glance 2025”, da OCDE, 30 % dos diplomados de programas de primeiro ciclo do ensino superior na Grécia vêm das áreas STEM — ciências, tecnologia, engenharia e matemática — face a uma média de 23 % na organização.
A Comissão Europeia regista um quadro semelhante nas matrículas. Em 2023, 33,7 % dos estudantes do ensino superior na Grécia frequentavam cursos STEM, contra 26,9 % na UE. Destaca-se sobretudo a presença nas áreas de engenharia, indústria transformadora e construção.
Durante anos, o passo difícil era transformar esse conhecimento em empresas com dimensão internacional. Os fundadores precisam de financiamento, acesso a clientes e parceiros, bem como de pessoas que saibam como fazer crescer uma empresa para lá do mercado interno.
A participação de capitais gregos no novo Endeavor Catalyst Fund V mostra que esta ligação se está a reforçar. Dezassete investidores gregos, entre os quais os quatro principais bancos sistémicos, comprometeram-se a investir 70 milhões de dólares num fundo de 320 milhões de dólares com orientação internacional. A participação grega equivale a cerca de 22 % e é a maior entre os mais de 40 mercados envolvidos.
De forma mais ampla, as possibilidades de financiamento das startups gregas alargaram-se: o relatório “FWD Greece: Innovation Pulse 2025–2026” identifica 18 fundos de capital de risco e mais 10 plataformas de investimento que as têm como alvo prioritário.
O passo seguinte é o país consolidar um ecossistema tecnológico amplo e robusto, que ligue universidades, investigadores, empresas e investidores, permitindo à Grécia funcionar como um hub internacional de inovação, onde o talento possa criar e desenvolver empresas com escala global.
Neste contexto, a Endeavor Greece prepara o Greek Innovation Campus, em Atenas, um espaço comum para empreendedores, investigadores e empresas de tecnologia.